Ossos do Office!

por: Margarete Azevedo

Secretárias experientes (e outras nem tanto) falam de como as novas tecnologias ajudam (ou às vezes atrapalham) a rotina dos escritório


Ossos do Office!

O mundo gira, a Lusitana roda, o tempo passa, mas por trás de um grande homem continua a existir uma grande mulher; de um executivo, uma grande secretária, e por trás dela, atualmente, uma infinidade de equipamentos eletrônicos, que tem poupado em muito seu trabalho. E pensar que há pouco mais de 20 anos, ela convivia com máquinas de escrever, corretivos na versão líquida e em papel, gravadores de rolo e de fitas cassetes, e até taquigrafia. Luis Fernando Veríssimo soube expressar bem essas mudanças: “O rouge virou blush, o pó de arroz virou pó-compacto, o brilho virou gloss. O rímel virou máscara incolor, a Lycra virou stretch…” Ele poderia lembrar também que a máquina de escrever virou computador, a carta virou e-mail, as conversas telefônicas migraram para o celular…

Segundo Wanira Salles, gerente de negócios da Francal Feiras, que nunca foi secretária, mas conviveu com várias delas, seria impossível atender às demandas atuais com os aparelhos utilizados no passado. Ainda assim, trabalhamos mais hoje, pois temos de ser ágeis para atender a rapidez imposta pela tecnologia. Ela não deixa de responder seus e-mails, mesmo que seja no dia seguinte. De um lado, há ferramentas que possibilitam a pessoa trabalhar 24 horas; e de outro, empresas de tecnologia que não param de desenvolver novos equipamentos para facilitar a vida das pessoas.

Já Lilian Thomazetto, 36 anos, secretária durante nove anos e atualmente gerente de importação da Molin do Brasil, lembra que, quando trabalhou na Prefeitura de Porto Feliz (SP), utilizava máquina de escrever, papel-carbono e bran-quinho em papel. “Aliás, aos 15 anos, após o curso de datilografia, meus pais me deram uma máquina da Olivette, na cor creme. Era linda”, relembra. No entanto, o que consumia mesmo a sua paciência era uma picotadora de papéis do escritório de uma multinacional, em Indaiatuba (SP). “Era necessário picotar muitos papéis sigilosos, relacionados à nossa tecnologia. A máquina emperrava todas as vezes, e ao picotar fazia uma poeira de papel que me dava alergia.”


Mesa do café

A tecnologia tornou-se uma importante aliada e fez a vida de secretária bem mais prática, conforme Lilian. Ela lembra que, ainda em Porto Feliz, comprava passagens aéreas para os gerentes e tinha que mandar buscá-las na agência de viagens. “A atendente emitia os bilhetes à mão. Não podia ter erros. Eu cheguei a fazer o curso de emissão de tickets da Varig, na Praça da República, em São Paulo.” Hoje, um ticket de viagem demora menos que 10 minutos para chegar à mesa de seu diretor.

Apesar das facilidades, equipamentos como o BlackBerry tornam as profissionais um tanto quanto escravas do trabalho. “Eu já me peguei respondendo e-mails da Ásia à uma hora da ma-drugada. Perdi várias horas de sono que fizeram falta durante o dia.” Responsável de produtos e importação da Molin, ela acaba usando sua experiência como secretária, muitas vezes, ao ajudar na coordenação de reuniões, disposição de produtos nas salas. “Monto uma mesa de café para reuniões como ninguém. Ossos do oficio”, brinca.

Quem voltou a preparar a mesa do café para reuniões foi Maria Raquel, 28 anos, bacharel em Comunicação Social, que há dois meses assiste a um executivo, com quem já trabalhara diretamente há alguns anos. Segundo ela, não existe trabalho fácil, mesmo com o avanço tecnológico. “É possível dizer que o fluxo de trabalho chega a ser denso. Conforme a dimensão da empresa, isso faz com que oito horas não sejam suficientes”, constata. Na rotina do escritório, ela já utilizou máquina de escrever, carimbos, tinteiros, maquineta manual de cartão de crédito etc.

De seu início, Maria Raquel lembra que se inco-modava com a sujeira do corretivo de papel, da carga do tinteiro e da fita da impressora, além do barulho da impressora matricial e do triturador de papel. Sobre as novas tecnologias, ela avalia que elas não podem ser associadas ao aumento de produtividade. “A boa performance independe da tecnologia. Acredito que é uma questão diretamente relacionada mais às competências do profissional do que os recursos que lhes são disponibilizados”, conclui.


Multinacionalidade

Apesar de jovem, só 24 anos, Dafne Ettinger, analista da área de varejo da Symantec, não passou incólume pelas velharias presentes no escritório. Durante os seis anos que trabalhou na empresa Cinemark, ela chegou a operar até o aparelho de PABX. “Não que fosse ruim trabalhar com ele; só não era prático. A gente falava que era do tempo da pré-história.” Com a demanda de atividades hoje em dia, segundo ela, seria impossível depender, por exemplo, de um fax para fechar e assinar um contrato.

Mas o fax ainda faz parte da rotina de Elaine Fontoura, 32 anos, que há três anos trabalha com Horácio Balseiro, presidente da Bic Brasil. “O fax é um remanescente aqui, mas o uso de vez em quando”, conta. O que ela não consegue abrir mão é do e-mail, telefone celular ou do computador, que lhe permite fazer conferências via Web Connector. “Como a Bic é multinacional, o presidente global fica nos Estados Unidos, o diretor de Recursos Humanos no México; são muitas reuniões via web.”

Ossos do Office!

Para Priscilla Ramos dos Santos, 30 anos, secretária executiva bilíngue e assessora da publicitária Christina Carvalho Pinto, presidente do grupo Full Jazz, as pessoas hoje têm dependência tecnológica. Tanto é que, se a energia elétrica acabar e houver trabalho pendente, é preciso recorrer aos equipamentos que contam com bateria, pois o no break permite executar só tarefas emergenciais, ou seja, não aguenta mais do que dez minutos.

Ciente de que o computador é uma das melhores invenções do homem, ela diz que não imagina como seria o mundo sem ele.


Manutenção

Há mais de 20 anos como secretária, Nanny Lima, 36 anos, atualmente na Editora Referência, em São Paulo, começou como secretária júnior. Máquina de escrever era como computador hoje em dia (não vivia sem), e o fax (o scanner de hoje) era muito mais usado. “Além disso, tinha o branquinho. Eram umas folhinhas em papel, usadas para corrigir textos na máquina de escrever. Vinham em uma caixi-nha com 20 folhas. Era uma maravilha”, recorda.

Como cada época tem seus modismos e bene-fícios, dispor desses artigos era um luxo. Por experiência própria, Nanny conta que cansou de inutilizar papéis ao tentar apagar os erros com lápis borracha. Quando conseguia, ficavam marcas feias de borrado. Mas o maior tormen-to era a manutenção dos equipamentos. Por exemplo, trocar a fita da máquina de escrever, era uma tarefa que demandava muito tempo. A comunicação hoje é mais rápida; a correção automática no computador e os e-mails facilitam muito. Pode-se achar qualquer pessoa, onde quer que esteja, através do celular, segundo ela.

Na opinião da secretária da Referência, o volume de atividades e consequentemente de respon-sabilidades, na atualidade, são muito grandes. “Hoje nosso desempenho é bem maior devido à tecnologia, mas pessoalmente, não deixo toda confiança recair sobre a tecnologia. Sempre tenho à mão um bloquinho, caderno e a velha agenda ao lado da mesa, pois no computador, posso, de uma hora para outra, perder tudo. Nada como o bom-senso humano e os velhos hábitos de sempre”, finaliza