O Lado B do Lado B

O lado B do lado B
Itaquera, zona leste paulistana, ao que tudo indica vai mesmo abrigar o estádio de abertura da Copa de 2014, mas o bairro tem outras histórias para contar
Desta data até 2014, muito se falará de Itaquera, o simpático bairro da zona leste paulistana que deverá ser palco da abertura da próxima Copa do Mundo de Futebol. Era de se esperar que algum jornal esportivo ou mesmo da área de variedades apresentasse a região ao Brasil e ao mundo, mas até agora só se falou de obras, gastos excessivos, falcatruas… Sem nenhuma vocação para guia turístico, recorro aos meus vínculos de infância com o bairro, e ouso apresentá-lo ao Brasil nesta modesta coluna! Se para alguns moradores de bairros mais nobres de São Paulo, o nome Itaquera remete às franjas do mapa, o lugar onde Judas perdeu as botas, as meias, imaginem para os do restante do País. Originária do tupi-guarani, a palavra Itaquera quer dizer “pedra dura” ou “pedra dormente”, uma grande injustiça; pois os únicos dormentes encontrados hoje por lá estão sob os trilhos dos trens. Itaquera, pelo contrário, é uma região superdesperta, pujante e plena de vida. Mas nem sempre foi assim.
As primeiras referências sobre a “Roça de Itaquera” datam de 1620, por sua proximidade com o aldeamento indígena de São Miguel, então uma localidade (digamos) “mais famosa”. Em 1837, eram apenas duas grandes fazendas que, 14 anos mais tarde, foram divididas em chácaras de veraneio de 10 mil metros quadrados cada uma. Isso é claro que li na Wikipédia, pois meu contato com a região se deu muito depois… Ainda menino, 8, 9 anos, recém-chegado da roça, fui morar na Vila Matilde, também na zona leste paulistana, e depois em Arthur Alvim, uma estação de subúrbio da Central do Brasil antes – naquele época não existia Metrô, trens da CPTM, Radial Leste. Era de subúrbio que eu viajava até Itaquera todos os dias, durante os dois anos em que estudei no colégio estadual da “cidade”. Aliás, Itaquera parecia mesmo uma cidadezinha do Interior, muito, mas muito longe do centro de São Paulo. A estação de trem, inclusive, lembrava aquelas do Velho Oeste americano, com direito a cenas de bangue-bangue de vez em quando. Já existiam locomotivas a Diesel no trecho São Paulo-Rio, mas não era raro de se ouvir por lá o apito melancólico das velhas Marias-Fumaça.
As chácaras de veraneio dos arredores mudaram com a chegada dos colonos japoneses e passaram a produzir pêssegos, ameixas, goiabas e flores, que eram vendidas nas imediações do “Aquário” (ainda há?). Nos finais de semana, esse local era bastante frequentado por pais, cujos filhos padeciam de bronquite. Sem dó nem piedade, eles enfiavam goela abaixo dos coitadinhos o sangue ainda quente das carpas ali produzidas (eca…). O terreno do hoje terminal do Metrô, Shopping Center Itaquera e do futuro estádio era uma imensa mata de eucaliptos, com algumas lagoas pelo meio, onde a molecada da região aprendia a nadar – de vez em quando um morria afogado. Nos tempos áureos dos seriados “Bonanza”, “Zorro” e “Roy Rogers”, os cavalos que pastavam soltos na área eram “roubados” pelos garotos para dar mais realismo às velhas brincadeiras de “mocinho e bandido”. Vizinha dali, ficava a pedreira do Vicente Matheus, o então folclórico presidente do Corinthians, que funcionava como um relógio para os moradores vizinhos: exatamente às 11 e às 17 horas, vinha de lá o som das explosões provocadas pela dinamite usada para estilhaçar as rochas. O “calipal” era também um lugar aonde nós, moleques, íamos com as meninas mais “levadas” de então, mas esse já é assunto para outra crônica… Bons tempos aqueles!
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