Este lápis tem história

por: Manoel Dorneles

Enquanto comemora os 250 anos da criação do primeiro lápis e sua inserção na história mundial, a Faber-Castell projeta seu futuro


Este lápis tem história

No dia 11 de julho de 2036, a Faber-Castell, maior fabricante mundial de lápis, promoverá uma grande festa no quintal de seu castelo, na cidadezinha de Stein, vizinha de Nuremberg, Alemanha, para comemorar seus 275 anos de fundação. O anúncio/convite foi feito pelo presidente e conde Anton Wolfgang von Faber aos representantes dos cerca de 60 países, presentes nos festejos de 250 anos da companhia, no dia 8 de julho último, no Centro de Convenções Frankenhalle, em Nuremberg.

Pode parecer um exercício de futurologia, mas diante do histórico e dos números apresentados na ocasião, não há como duvidar das palavras do principal acionista da corporação. Mesmo se considerarmos que a festa dos 275 anos irá coincidir com o seu 95º aniversário. Hoje, 25 anos antes, aparentando uma saúde de ferro, o conde não esconde sua felicidade ao tentar cumprimentar, na medida do possível, cada um dos cerca de 5 mil presentes, e se deixar fotografar com eles.

Foi realmente uma festa compatível com as dimensões de uma empresa que fabrica cerca de 2 bilhões de lápis por ano, além de outros produtos de escrita. Os convidados chegaram a Nuremberg entre os dias 6 e 7, distribuídos por vários hotéis da cidade. A delegação de 35 brasileiros ocupou o Sheraton, a apenas 200 metros do centro histórico de Nuremberg. Eram 20 distribuidores e atacadistas de papelaria e representantes da área de cosméticos, além de diretores e colaboradores da companhia, comandados pelo presidente Marcelo Tabacchi. O Brasil responde hoje por 40% do faturamento global, e de sua fábrica, em São Carlos (SP), saem 45 mil glosas de lápis/dia.

Após uma visita à moderna fábrica de Stein, que produz cerca de 500 mil lápis/dia, no dia 7, os brasileiros atravessaram a ponte sobre o Rio Regnitz para conhecer o passado. A antiga unidade produtiva da empresa, construída em 1848, é hoje o Museum Alte Mine, cujo nome remete às antigas minas de chumbo. À época, acreditava-se que a grafita era derivada do chumbo, tanto que o nosso lápis era chamado de “estilete de chumbo”. A restauração procurou preservar todas as divisões e equipamentos, inclusive o antigo laboratório e a usina hidrelétrica, que fornecia energia para a fábrica instalada às margens do rio.

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À tarde, após o almoço, o grupo fez um city tour pelo centro histórico de Nuremberg, com direito à visita ao Kaiserburg ou Castelo Imperial. Construído sobre uma rocha de arenito de 60 metros de altura, foi antiga moradia dos reis do Sacro Império Romano Germânico, que viveram na cidade entre os anos 1050 e 1571. Aliás, o primeiro documento que se tem da cidade data de 16 de julho de 1050. A propósito, o nome Nuremberg significa Montanha Rochosa e deriva do alto alemão médio nuor (rocha) e berc (montanha).


Novos caminhos

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A parte formal dos 250 anos se deu no dia 8, pela manhã, no grandioso Centro de Exposições Frankenhalle, aberto para receber todos os convidados do conde. Organizadamente, cada uma das delegações acomodou-se no amplo salão, onde foi montado um telão de 150 metros de largura por 6 metros de altura, que contou parte da trajetória da Faber-Castell, desde 1761 até os dias de hoje. A mestre de cerimônias Evi Kurz introduziu o conde Anton W. Faber, que deu as boas vindas aos presentes e falou sobre a empresa e de suas expectativas quanto ao futuro.

O executivo destacou a atuação global de uma Faber-Castell, que ainda mantém uma administração flexível internamente, por sua característica de empresa familiar. Ele também falou do papel social do lápis Faber-Castell, no apoio à alfabetização, e da capacidade da companhia de adaptar-se aos novos tempos. Aliás, foi dele a iniciativa, após assumir a presidência em 1980, de buscar novos caminhos e tecnologias e introduzir produtos considerados premium no porta-fólio da corporação.

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As palavras do conde foram sucedidas pela imagem da chanceler alemã Angela Merkel, que parabenizou a aniversariante e ressaltou sua importância para o país, tanto no aspecto econômico, quanto no sociocultural. Falaram também sobre a relevância da Faber-Castell, Ulrich Maly, prefeito da cidade de Nuremberg; e Gunther Beckstein, primeiro ministro do Estado da Bavária, principalmente pelas preocupações socioambientais da companhia. “Hoje, o lápis e seu design Faber-Castell representam a região da Bavária internacionalmente”, acrescentou.

Show “brazuca”

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Os 45 minutos seguintes prendem a atenção de todos com um pequeno resumo da evolução da companhia, inserida na história mundial dos últimos 250 anos (mais detalhes no box). A apresentação no Frankenhalle foi encerrada como deve ser toda festa em família. Primeiro, o conde distinguiu com diplomas quatro colaboradores da empresa em âmbito internacional. Entre eles, estava o brasileiro Antonio Perondi, que presidiu a unidade no Brasil por 23 anos e foi um dos grandes responsáveis pela expansão dos negócios da companhia no País. Após a homenagem, fez questão de apresentar no palco sua esposa, Mary, e os quatro filhos; seus irmãos e quase uma centena de familiares, entre tios, sobrinhos, primos.

bebes e apresentações musicais. Na mais perfeita ordem, eles circulavam por entre os estandes do Brasil, Índia, China, Áustria, Itália etc., onde podiam apreciar as especialidades de cada país – claro que nós oferecemos a legítima caipirinha brasileira. Enquanto isso, no palco, vários shows de música andina, brasileira, alemã e pop/dance internacional. Adivinhem se o mais aplaudido não foi o que reuniu batucada, carnaval, mulatas e capoeiristas?

A festa desdobrou-se no dia seguinte, com mais comida e bebida sob as enormes tendas montadas no pátio do castelo. Após o almoço, o grupo brasileiro visitou a vinícola Castell, de propriedade da família Faber-Castell, a cerca de 100 quilômetros de Nuremberg, na região do Rio Meno. No local, eles produzem vinhos tradicionais com as uvas típicas da região, silvaner e bacchus, desde os anos 1600, muito antes do lápis criado por Kaspar Faber.


Entre o chumbo e o ouro

No audiovisual, editado sob supervisão do próprio conde Anton Wolfgang von Faber, mesclam-se os históricos da Faber-Castell e da humanidade, do século 18 ao início do 21. Começa em 1761, quando o marceneiro Kaspar von Faber cria em Stein (Grande Nuremberg) o primeiro “estilete de chumbo” de escrever. Imaginem que nessa época não existiam nem a nação independente Estados Unidos da América e tampouco os franceses tinham saído às ruas sob o famoso trinômio “Liberté, Egalité e Fraternité” (Igualdade, Liberdade e Fraternidade), que perdura até os dias de hoje

O grande salto da Faber-Castell se dá entre 1839 e 1896, durante a administração de Lothar, filho de Georg Leonhard von Faber, que assumiu com 22 anos. Após estudar os instrumentos de escrita fabricados em Londres e Paris, ele coloca como principal objetivo que sua empresa fabrique os melhores produtos do mundo. Desenvolve o lápis hexagonal e imprime nele o nome de seu avô A.W.Faber, o primeiro com marca em todo o mundo. Entre outras iniciativas pioneiras, em 1843, abre o primeiro escritório de vendas em Nova York (EUA), que virou filial seis anos depois. Em um tempo em que praticamente inexistiam direitos trabalhistas, criou em 1844 um plano de saúde para os colaboradores da Alemanha e, em 1851, uma creche para seus filhos.

Pelas suas contribuições econômicas e sociais, em 1862, Lothar recebe o título de barão do rei Maximiliano III, mas a associação com a família Castell só viria em 1898. Neste ano, a baronesa Ottilie von Faber, filha mais velha de Wilheim von Faber, casa-se com o conde Alexander zu Castell-Rudenhausen. No entanto, o nome Faber, conforme testamento de Lothar, deve ser preservado por todas as gerações da família. À frente da companhia, o conde Alexander lança em 1903 a pedra fundamental do castelo Faber-Castell; e em 1905 o lápis Castell 9000, já com o símbolo dos dois cavaleiros com os lápis, em duelo, utilizado até hoje.

A companhia alemã, evidentemente, teve anos difíceis durante a primeira e segunda guerras, parte deles sob o comando de Roland von Faber, entre 1928 e 1978. Algumas ações merecem destaque, entretanto, como a aquisição da fábrica brasileira Lápis Johann Faber, em São Carlos (SP), entre 1931 e 1932. Em 1948, foi lançado o Lápis TK, conhecido hoje como lapiseira; e também nesse período foram inauguradas as fábricas na Irlanda, Austrália e Peru. Em 1960, foi reinaugurado o escritório de vendas na França.

Com a morte de Roland, Anton Wolfgang von Faber assumiu, meio a contragosto, a empresa em 1978, já aos 40 anos, tendo sido obrigado a abandonar a carreira na área de finanças nos Estados Unidos. Com ele, tem início a produção de lápis cosméticos e a intensificação dos negócios da companhia no sudeste asiático e Ásia, com a inauguração de fábricas na Indonésia (minas de grafita) Malásia e Índia (borrachas de apagar) e China (canetas esferográficas), além de centros de distribuição em vários países.

O ano de 1989 marca o início de uma atividade pioneira da corporação no mundo: o plantio de florestas sustentáveis e ambientalmente corretas no município de Prata (MG). Atualmente, com mais de 11 mil hectares, as fazendas brasileiras já suprem não só a produção de lápis do Brasil (cerca de 40% do total global), como da Alemanha e outros países. Sob a atual administração, algumas linhas de produtos Faber-Castell, com inspiração de grandes designers internacionais, inclusive da Porsche alemã, ganham status e passam a ser oferecidas em lojas de grife. Em 2000, é formalizada a Carta Social, que estipula as diretrizes de emprego e as condições de trabalho em toda a corporação.