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Visão ilimitada

O uso instintivo do tato, paladar, olfato, audição e visão nem sempre permite que percebamos as dificuldades daqueles que, por um motivo ou outro, foram privados de um desses sentidos. Tampouco somos capazes de sentir, no dia a dia, as inúmeras possibilidades à nossa disposição para potencializarmos esses dons da natureza. Foi o que constataram, entre os dias 12 e 15 de abril, os visitantes do estande da Fundação Dorina Nowill, durante a Feira Internacional de Tecnologias em Reabilitação, Inclusão e Acessibilidade (Reatech), realizada em São Paulo, enquanto participavam das diversas atividades que visavam estimular os cinco sentidos humanos.

O objetivo da campanha “Veja a Vida com Outros Olhos” é mostrar que somente o comprometimento de um desses sentidos leva o ser humano a desenvolver os demais, mas todos nós temos potencial para aprimorá-los. Adriana Kravchenko, gerente de marketing e comunicação da Fundação, revela que os visitantes surpreenderam-se com ações simples das quais não se dão conta em seu cotidiano. As atividades propostas tinham a intenção de mostrar ao participante que ao limitar um dos sentidos, os demais são prejudicados; afinal, as pessoas fazem as coisas no “piloto automático”, segundo ela.

Em um dos experimentos, a pessoa degustava balas com os olhos vendados. Embora simplória, a ação demonstrou que, além da falta de visão, o portador de deficiência precisa ter confiança no indivíduo que lhe oferece uma guloseima ou mesmo um alimento. “Quem não tem visão, não tem referência do gosto da comida comum a quem enxerga, ou seja, o comer com os olhos. Nessa atividade, a pessoa perde a referência”, destaca Adriana.

Ainda nas atividades relacionadas à visão, as pessoas tiveram muita dificuldade quando experimentaram óculos especiais para estimular a visão periférica. Algumas, inclusive, sentiram mal-estar. Com os olhos vendados, elas também puderam estimular o olfato por meio de aromas comuns na gastronomia, por exemplo, orégano, cominho, pimenta, cravo. Muitas não conseguiram identificar esses aromas.

Em outra mostra, relacionada à audição, o visitante ouvia a descrição de uma imagem. Posteriormente, eram oferecidas três imagens similares para que ele identificasse a que havia sido descrita. Na experiência tátil, sem olhar evidentemente, o participante precisava identificar dois objetos iguais dentro de uma caixa. Como grande parte das pessoas não está acostumada a utilizar esse sentido, muitas não tiveram êxito.

Mercado promissor

Durante o evento, alunos deficientes visuais do curso de avaliação olfativa realizaram uma sensibilização para demonstrar o conhecimento das pessoas que não têm esse problema sobre os principais ingredientes de perfumes de sucesso no Brasil. O visitante escolhia um perfume e eles faziam a decupagem dos aromas presentes. Esse curso de avaliação olfativa é uma atividade inédita.

“Os profi ssionais que o elaboraram relataram que não existe ação igual ou parecida, seja no Brasil, seja no exterior”, informa Adriana. A formação dura 18 meses, 12 dos quais dedicados à parte teórica, e os demais em estágios em indústrias de perfumaria. “Esse é um mercado promissor, com poucos profissionais qualificados. Nosso objetivo é incrementar a inclusão de pessoas com defi ciência visual nessa área específica”, acrescenta.

Na avaliação da coordenadora, as pessoas em geral têm muitos equívocos com relação ao universo do deficiente visual. A maioria, segundo ela, acredita que a pessoa cega não assiste a fi lmes e que todo cego lê em Braille. A verdade é que, devido à ausência da imagem, o defi ciente visual redobra sua atenção aos detalhes ou tem à disposição um recurso capaz de substituir a visão, como a audiodescrição.

Quanto à leitura em Braille, a habilidade está relacionada ao momento em que a pessoa perdeu a visão. “Caso a perda tenha sido precoce ou a pessoa tenha nascido cega, as condições para ela ser alfabetizada no Braille são grandes. Mas nem todos os cegos que perderam a visão quando adultos tiveram a oportunidade de receber uma nova alfabetização”, afirma Adriana. Além disso, existem outros recursos de leitura como as fontes ampliadas, tanto no computador quanto nos textos impressos. O deficiente visual pode usar leitores de tela, microcomputador em Braille, livro falado e livro digital.

“Realizamos uma pesquisa com os frequentadores da biblioteca da Fundação e constatamos que a média de leitura é de nove a dez livros por ano. Em março passado, foi divulgado o resultado da 3ª edição da pesquisa ‘Retratos da Leitura no Brasil’, segundo a qual, a média de leitura do brasileiro é de quatro livros por ano, sendo apenas 2,1 livros até o fim. Quer dizer que o portador de deficiência visual lê mais do que a pessoa que enxerga”, compara a coordenadora.

Visitantes da Reatech testam as várias possibilidades dos sentidos
Visitantes da Reatech testam as várias possibilidades dos sentidos

COLEÇÃO INÉDITA

Durante a Reatech, a Fundação Dorina Nowill lançou uma coleção com dez livros infantis inéditos, acessíveis, impressos em Braille e fonte ampliada. As obras trazem imagens divertidas em relevo, para possibilitar que crianças cegas e com baixa visão leiam o livro em companhia da família e dos colegas de aula. “Eles podem ser utilizados por crianças que enxergam e estão sendo alfabetizadas, pelos pais que leem historinhas para os  lhos e gostam de usar as ilustrações para desenvolver o enredo”, acrescenta a assessora de marketing Adriana Kravchenco.

No Brasil existem cerca de 6,5 milhões de pessoas com de ciência visual, 600 mil delas cegas e aproximadamente 6 milhões com baixa visão. Apesar do contingente ser alto, muita coisa precisa ser feita na área educativa para minimizar a falta de informação da população, segundo a assessora.

“Os padrões de comportamento e as falsas ideias mudam à medida que a população é esclarecida. Instituições como a Dorina Nowill trabalham não só em prol da inclusão social do portador de de ciência visual, como também visam proporcionar autonomia a essas pessoas. Ao se capacitarem para entrar no mercado de trabalho, elas passam a conviver com o outro. Sem dúvida, há redução no preconceito.”

Comentários

Paula Matos Pinto
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Meus sinceros Parabens pela revista Está linda,Edição n.250

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