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Hora da verdade

NÃO IMPORTA A IDADE, o cargo, o gênero, as pessoas sempre sentem, em alguma medida, um friozinho na barriga durante um processo seletivo para uma vaga de trabalho. O nervosismo pode ser sutil e controlável, mas pode também repercutir até em um desmaio, tamanha a descarga de adrenalina, neurotransmissor liberado em resposta ao estresse físico ou mental. A constatação é de Renato Grinberg, especialista em desenvolvimento de carreira, presidente da Trabalhando.com Brasil, empresa multinacional presente em 11 países e líder no segmento de hunting e e-recruitment. Segundo ele, no caso dos executivos, os brasileiros têm salários equiparados ou até maiores que os praticados fora do País. Sem falar no mercado bastante aquecido.
Toda essa bonança não esconde, no entanto, a falta de qualificação desses profissionais. “Algumas vagas não são preenchidas devido a esse fator”, constata o consultor. A falha é decorrente da ausência de investimento durante décadas na área de Educação, fato que atinge todas as etapas de formação do indivíduo. Embora o governo esteja fazendo sua parte, os frutos levam tempo para serem colhidos. Hoje, não se ‘importam’ mais norte-americanos para serem líderes nas empresas. “Liderança temos aqui e, inclusive, exportamos. Exemplos disso são os executivos Carlos Ghosn, presidente da aliança Renault/Nissan, e João Castro Neves, presidente da Ambev, maior companhia de cerveja do mundo.”
Autor do livro A estratégia do olho de tigre, publicado pela Editora Gente, Grinberg define como “olho de tigre” o profissional que tem vontade e atitude para crescer. Independentemente da formação ou da experiência, ele não fica estagnado, pois a diferença está justamente na atitude. Está em buscar desenvolvimento, melhoria, a dita excelência, que revertem em oportunidades, status e, claro, dinheiro. “As pessoas têm medo de fracassar, assim permanecem onde estão. É importante vencer esse medo, porque se não se expuserem, não terão como crescer.” Uma analogia muito simples, segundo ele, é comparar essa situação ao trabalho muscular em uma academia. Se a pessoa não aumentar a carga e forçar o músculo, não obtém resultado.
Riscos sempre existem. A pessoa pode não se adaptar ou não gostar do resultado do trabalho dela. Mas é necessário se colocar diante dessas circunstâncias para desenvolver mecanismos de recuperação. “Em todas as biografias, os empreendedores destacam as situações de adversidade e a importância de vivenciá-las logo no começo da carreira. Elas tornam o individuo resiliente. Sofre mais quem fracassa no meio da vida profissional. Às vezes, o fracasso prejudica a tal ponto que ela não consegue se recuperar. Em minhas palestras, costumo frisar a necessidade de sair da zona de conforto. A resiliência é a capacidade de a pessoa cair e levantar. Quanto mais rápido ela levanta, mais resiliente ela é.”

Conflito

Algumas situações não mudam quando se trata das temidas entrevistas, a começar pelas perguntas feitas pelos selecionadores. Seja qual for o ramo de atuação, vaga disponível, perfil da empresa; as questões parecem sair de um mesmo “manual” ou “guia” do entrevistador. Claro, todas elas têm a mesma finalidade: conhecer o candidato e avaliar o quanto ele está afinado com a dinâmica da corporação. Segundo Grinberg, é válido “treinar” possíveis respostas e simular a situação com um amigo. Ele diz que há diferença em treinar para decorar uma resposta e treinar para se lembrar do que pode ser dito. Por exemplo, quando o entrevistador pede que o candidato fale de uma situação de conflito, quer ouvir exemplos. Caso ele não tenha pensado em nenhum, na hora corre o risco de não se lembrar de nada.
Longe de soar ou parecer falso, o candidato que faz esse treinamento e tem conteúdo conseguirá uma performance mais tranquila. A pressão existe mesmo para quem já tem posição profissional consolidada no mercado, pois o candidato tem uma hora, às vezes, menos tempo para mostrar ao selecionador que é a pessoa certa para aquela vaga. “É necessário se preparar, pesquisar sobre a empresa e o cargo pretendido. O candidato precisa ter uma história que faça sentido para a vaga oferecida. Por exemplo, se o cargo é para gerente financeiro, deve expor sua experiência nessa área”, acrescenta o consultor.
Durante a avaliação, a empatia pode contar pontos. Grinberg relata que o ser humano intuitivamente busca quem é semelhante; essa é uma questão darwiniana. Na sua avaliação, a seleção natural nos coloca em grupos onde temos afinidades. É algo que não temos controle ou uma questão de profissionalismo. Cabe ao entrevistador saber lidar com a falta de empatia e identificar o candidato com perfil mais adequado.

O QUE DIZER, O QUE OUVIR

Um erro frequente nas entrevistas de emprego, é responder algo que não tem relação com o que foi indagado. Diante da pergunta “onde você se vê daqui cinco anos?”, muitos candidatos dizem querer ter seu próprio negócio. Soa incongruente esse tipo de resposta, conforme o recrutador Renato Grinberg. “É óbvio que um candidato não sabe o que se passa na cabeça de um entrevistador, mas ele não pode dizer coisas que pesarão contra si. As pessoas às vezes se esquecem disso.” Entrevistadores experientes chegam a criar um clima mais informal, de tal maneira que o candidato acaba falando coisas que não têm sentido para o processo de seleção. “A pessoa tem que pensar ‘se eu fosse entrevistador, o que eu gostaria de ouvir?’. Isso faz parte do jogo”, orienta.
Algo imperdoável, durante uma seleção, é mentir sobre referências, habilidades, inventar cursos não realizados. A inverdade mais frequente nos currículos diz respeito à fl uência de um determinado idioma. Como “mentira tem pernas curtas”, dá para imaginar o desconforto em sustentar uma mentira, ou ainda, o vexame de ser descoberto ou testado? Essas situações ocorrem com frequência. Sob pressão é comum as pessoas proferirem comentários inadequados ou mesmo cometer gafes. Depois do estrago feito, não adianta tentar reverter, pois “a primeira impressão é a que fi ca”. Bom-senso e bons modos também ajudam a causar boa impressão. Economizar nos gestos e evitar gírias ou qualquer informalidade são detalhes imprescindíveis. Pensar na roupa, na maquiagem e demais acessórios que compõem o visual (no caso das mulheres) também é importante. “Nós somos uma máscara. A nossa maneira de se vestir, de se portar, de falar, se constitui em uma marca que pode ser positiva ou negativa. Boa aparência não significa ser um modelo de beleza. A pessoa deve ter uma aparência que seja relevante para representar a empresa. Detalhes mínimos contam na entrevista”, ensina Grinberg.
As redes sociais podem prejudicar a conquista de uma vaga. Muitas corporações pesquisam as páginas pessoais dos candidatos para consultar o seu perfi l. Portanto, seja comedido nos comentários. Entre as existentes, Grinberg informa que o Linkedin é uma boa alternativa. “Os executivos de hunting visitam a rede. Inclusive, os profi ssionais da Trabalhando.com, empresa que dirijo.” Assim, ele considera importante não postar informações que possam denegrir a própria imagem nas demais redes, como Twitter, Facebook. As redes sociais têm acesso público.
Além disso, vale destacar que o processo de seleção não termina com a entrevista. Pouco comum por aqui, mas frequente nos Estados Unidos, os candidatos enviam um e-mail para o selecionador agradecendo a oportunidade. “Esse é um pequeno detalhe que demonstra a proatividade”, ressalta o consultor.

Planejamento

Muitos profi ssionais, após anos de atuação em uma determinada área, resolvem trilhar um novo caminho. Essa atitude no tempo de nossos pais ou avós era improvável. Naquela época, após anos de atividade em uma mesma empresa, a pessoa calçava as pantufas da aposentadoria. Porém, com o aumento da expectativa de vida, a transição de carreiras deve se tornar algo comum. O próprio Grinberg é um exemplo disso. Muito antes de ser um executivo e de alçar a presidência de corporações, era músico profi ssional. A insatisfação com a carreira o fez mudar o rumo de sua história. No seu livro, o consultor revela que em paralelo à carreira artística, realizava eventos para complementar a sua renda. Portanto, tinha contatos com o mundo corporativo. Para chegar onde está, foi necessário planejamento, estudo, networking e muito empenho. Segundo ele, o ponto mais importante para qualquer mudança de carreira é o planejamento. Ou seja, é preciso traçar os passos necessários para alcançar o novo objetivo.
Além de árduo, o processo pode trazer componentes que desanimem a pessoa e fazê-la desistir no caminho. Principalmente, quando ela já conquistou prestígio na sua área de atuação. “Nessa posição, não adianta pensar que o status será o mesmo. É preciso abdicar do conforto, da comodidade e passar por situações que já não se queria mais vivenciar. Faz parte do amadurecimento. Quando se opta por permanecer em uma situação confortável, o risco é acabar infeliz”, conclui Grinberg.

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