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Filho de peixe…

ERAM MAIS COMUNS NO PASSADO as chamadas “dinastias” familiares, ou seja, filhos que, até por falta de opção, seguiam os passos dos pais em carreiras tradicionais como direito e medicina. Regra geral, em quase todas as famílias, era de que todo “filho homem” virasse “doutor”. Hoje em dia, nem sempre se observa essa hereditariedade profissional, mas ainda há casos de filhos que optam por trilhar os caminhos dos pais, inclusive em outras áreas, como teatro, música, artes plásticas.
Alguns pais ainda hoje têm a expectativa de que seus filhos sigam seus ofícios, conforme a psicóloga Marina Vasconcellos, professora de psicologia médica, na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Muitos deles, por crescerem no “meio”, acabam fazendo o mesmo trabalho. “Diversos alunos meus afirmam que não se viam fazendo outro curso. Essa situação também se repete quando os pais são artistas. Os filhos, desde cedo, acompanham ensaios, apresentações e aos poucos entram em cursos de teatro, dança e atividades afins.”
Embora pareça mais fácil trilhar o caminho familiar, há quem por insegurança não o faça. Segundo a psicóloga, quando o jovem tem avô e pai com carreiras consolidadas, como advogados famosos, juízes, desembargadores, pensa “Eu posso não ser tão bom quanto eles. Vai que eu decepciono a família”, fugindo assim dessa responsabilidade. Infelizmente é a realidade, pois, ao decidir pela carreira do pai, o filho está sujeito a ser alvo de comparação por parte de seus familiares.

Iglesias rivais

O fato é que um sobrenome importante pode ser um fardo que poucos se dispõem a carregar. “Quem opta pela carreira do pai por pressão corre o risco de não se realizar. A pessoa pode até se dar bem, mas no fundo vai conviver com a frustração de não ter feito o que queria”, comenta Marina. Quando ocorre a competição entre pai e filho, ela a atribui à imaturidade, principalmente do filho. “Esse adulto que não tem a autoestima desenvolvida. O saudável é que ele incentive e fique orgulhoso pelo crescimento e sucesso do filho. Prova disso são os filhos que superam os pais.”
Um exemplo dessa rivalidade é a que se dá entre os cantores Enrique e Julio Iglesias. Mesmo sendo filho de pai famoso, Enrique seguiu seu próprio caminho. O jovem evita falar sobre sua privacidade, mas em entrevista transmitida pelo canal de música VH1 disse que a música sempre veio em primeiro lugar para o premiado Julio. Para se ter uma ideia, durante a disputa em uma das edições do prêmio Grammy, pai e filho ficaram sem se conversar.
Por rebeldia, muitos jovens tecem uma história distinta daqueles que o geraram. No passado, era muito comum o filho herdar os negócios da família. Hoje, várias empresas familiares têm recorrido à gestão profissional, uma vez que muitos herdeiros não querem ou não estão aptos para assumir tal responsabilidade. Alémdisso, os jovens não só têm maior liberdade de escolha, como também têm mais opções.

Escrita mantida

A tradicional família De Franco, referência na arte da caligrafia no Brasil, tem quatro gerações de Antônios, todos eles advogados. No entanto, há quase 97 anos todos se dedicam a formar calígrafos. A história começou com Antônio De Franco, que chegou ao País por volta de 1880, e desenvolveu um método exclusivo de ensino. Didática essa mais que comprovada e aprovada ao longo do tempo.
Os filhos Edison, Flávio e Antônio, formados em Direito, abraçaram a arte do pai. “Fiz o curso de direito para aprimoramento cultural, mas nunca tive tempo para desenvolver a atividade. O meu pai foi um grande jurista e o meu filho também é um advogado atuante”, diz Antônio De Franco Neto, 63, pai de Antônio Ramondetti De Franco, 28.
De Franco Neto não esconde que sempre teve a esperança de que seu único filho desse seguimento à tradição familiar. Atualmente, Ramondetti De Franco concilia a função de diretor jurídico de uma empresa com a de professor de caligrafia na escola da família. “Filho não é propriedade. Cabe aos pais criar condições para que ele seja feliz. Se será ou não, vai depender somente dele. Mas todo pai tem expectativa quanto ao futuro do filho”, destaca. Conta que na infância aprendeu os traços básicos, as muitas letras e técnicas da caligrafia. Tinha tanta vontade de continuar no meio, que desde pequeno “tomava sopa de letrinhas”, segundo ele.
O rapaz relata que o sonho de seus pais é de que ele lhes dê um neto, que no futuro vá ensinar caligrafia e, consequentemente, passe o “bastão” para o filho. “Sempre considerei o meu pai o melhor de todos. Vou fazer o possível para conseguir ser tão bom quanto ele, mas vai ser bem difícil”, acrescenta.

Colarinho branco

Hoje, com 29 anos, Leandro Fernandes começou a trabalhar na camisaria do pai para custear os estudos. Formou-se em turismo, em 2005, mas viu que esse não era um mercado promissor e resolveu largar a carreira. A motivação para seguir o mesmo caminho do pai surgiu a partir da história da empresa. Eurides Fernandes, 74, iniciou as atividades no ramo de confecção em 1957. Segundo ele, o camiseiro começou do zero; e construiu uma empresa com diferenciais capazes de manter clientes fiéis.
Eurides destaca que sempre deu liberdade de escolha para os filhos seguirem a profissão que quisessem. “Achava que tentar convencer um filho a exercer determinada profissão poderia causar transtornos. Quando os filhos abrem mão de seguir o que querem para agradar aos pais pode haver uma grande frustração no futuro”, afirma.
Diante da possibilidade do pai se aposentar e com isso precisar encerrar a empresa, por não ter ninguém para tocar o negócio, Leandro decidiu ir trabalhar com ele. “Na época, ele estava meio deprimido e com a minha decisão ficou entusiasmado ”, diz. A alegria foi tanta que Eurides continua trabalhando até hoje.
“Fiquei feliz de saber que meu filho queria seguir em frente com o meu ofício. Afinal, esta é uma profissão que parece estar acabando. É difícil surgir novos profissionais. Caso ninguém quisesse continuar, o resultado de décadas de trabalho se acabaria quando eu parasse”, observa o camiseiro. Entende que o rapaz fez uma escolha acertada, e parece realizado com o que faz no dia a dia.
Leandro aprendeu rápido, inclusive modelagem. Sócio do pai, atua na parte administrativa com total autonomia para gerir o negócio. Eurides não se envolve, o que gera menos entraves. Ele acredita que o filho deve seguir com a empresa, aprendendo com os acertos e os erros. Admite que, no começo, ficava preocupado com algumas decisões que divergiam das suas. No final, se acostumou com a ideia de que hoje os tempos são outros. “Se não nos adaptamos, as coisas não caminham de uma boa maneira”, finaliza.

Comentários

vaelsom taveira ferraz
Reply

Caligrafia

Realmente acho que para ser calígrafo, tem que ter uma “Força do Pai Celestial”, pois a minha caligrafia sempre foi péssima, mas sempre gostei de ler e escrever. Fui aprimorando minha caligrafia, chegando ao ponto de ver a possibilidade de cursar a Escola De Franco.
Hoje, em nome de Deus, estou tentando realizar meu maior sonho aos 63 anos de idade, ser Calígrafo na melhor Escola do país em Caligrafia, Escola De Franco..

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