A pedra no meio do caminho
É O TIPO DE EXPERIÊNCIA que não se deseja nem ao pior inimigo. Quem já padeceu com uma cólica renal costuma descrevê-la como uma das piores dores já sentidas na vida, tanto que as mulheres (com muita propriedade) chegam a compará-la à dor do parto. Constante ou descontínua, a dor provocada por um cálculo renal costuma ocorrer na região inferior das costas ou abdômen. Pode vir acompanhada por outros sintomas como náusea, vômito e sangue na urina. Na maioria dos casos, quando surge, o melhor a fazer é correr para o hospital.
Conhecida popularmente como pedra no rim, litíase, nefrolitíase ou cálculo renal, é decorrente de uma desordem causada por uma estrutura cristalina que se forma nas várias partes do sistema urinário, que vai do rim à bexiga. De acordo com o urologista e diretor científico da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), Homero Guidi, normalmente esses cristais existem, mas são diluídos na urina. O que determina o desenvolvimento, o formato e a velocidade de crescimento deles é a concentração das diferentes substâncias químicas presentes na urina.
“Quando há uma quantidade menor de líquido para diluir esses cristais ou em uma situação de inflamação ou infecção, o mecanismo de dissolução pode ser comprometido e eles começam a se agregar dando início à formação de uma pedra”, explica o especialista. O cálculo pode ser formado de diversos componentes, como ácido úrico, oxalato de cálcio, cisteína ou citrato, inclusive, é comum a presença de todos eles. Em alguns casos, é feita a investigação para verificar se o paciente tem algum distúrbio metabólico, segundo ele.
Diagnóstico
O quadro agudo costuma acometer três vezes mais pessoas do sexo masculino; cerca de 5% da população padece com o problema, mais frequente entre a terceira e a quinta década de vida. A intensidade da dor facilita o diagnóstico, uma vez que dificilmente ela será atribuída a outros problemas. “A cólica é provocada pela obstrução do canal que vai do rim para a bexiga. A dor acompanha o trajeto do cálculo. Ela tem início na lateral das costas e segue até a região do baixo ventre”, cita Guidi.
“Conforme a característica da dor e da presença dos sintomas, é possível saber a posição do cálculo. Quando ele está próximo da bexiga, a pessoa não sente tanta dor nas costas, mas pode sentir dor na vulva ou no pênis e no testículo, devido à enervação dessas regiões”, esclarece o médico. Além das evidências clínicas, exames de imagem como raio X de abdômen, ultrassom ou ainda urografia excretora, exame específico das vias urinárias, são realizados para confirmar a presença dos cálculos.
Com menos frequência, há quem desenvolva quadros assintomáticos, ou seja, sem dor. Nesses casos, o cálculo cresce e pode comprometer o funcionamento do rim. “Pode provocar a destruição do tecido renal, responsável por filtrar a urina ou ainda causar a perda do órgão.” O especialista revela que cálculos silenciosos não são frequentes. “Hoje em dia, muitos pacientes se surpreendem com o problema ao realizar um check-up. Por isso a importância dos exames periódicos após os 40 anos”, informa.
Tratamento
Pacientes que apresentam cálculo com até 8 milímetros costumam ser medicados com analgésicos, antiespasmódicos e antiinflamatórios até que o cálculo seja eliminado. No entanto, quando ele é maior e causa obstrução, infecção e dor intratável são indicados outros procedimentos. Atualmente, o mais comum é a litotripsia, que consiste na aplicação de ondas de choque direcionadas para o local onde está o cálculo. Apesar do desconforto, esse é um tratamento minimamente invasivo, uma vez que o paciente não sofre nenhum tipo de corte.
Quando a litotripsia não é suficiente, são indicados outros procedimentos por via endoscópica, através do ureter, ou ainda cirurgias percutâneas para a retirada do cálculo. “Elas são efetivas para tratar cálculos coraliformes, aqueles que não causam obstrução e sintomatologia dolorosa. Cirurgias convencionais são raras nos dias de hoje”, observa o urologista.
Ao contrário do que ocorria no passado, quando se exigia do paciente restrições alimentares, em especial alimentos derivados do leite, devido ao cálcio presente neles, hoje, raramente há proibição. “Tem se dado bastante importância ao excesso de ingestão de sal e também ao uso inadequado de bebidas isotônicas. Reduzir a ingestão de sais tem efeito sobre a formação de cálculos”, explica Guidi. Outro exagero, apontado pelo especialista, é o consumo excessivo de proteínas feito por frequentadores de academia. Segundo ele, dietas hiperproteicas sobrecarregam o rim; além disso, a maioria das pessoas não faz tanto exercício a ponto de necessitar desses repositores. Só água basta.
O especialista recomenda beber muito líquido, de dois a três litros por dia, para que haja uma diurese maior. Ao seguir essa orientação, o organismo produz bastante urina para diluir as substâncias que precisa jogar fora. “À medida que as pessoas vão ficando mais velhas, elas desidratam. Hoje em dia, cerca de 50% dos idosos têm desidratação crônica, e no jovem, a ingestão em quantidade abaixo do necessário é a principal causa de cansaço crônico. Quanto maior for a hidratação, menor é o cansaço”, conclui.

