Wanderson Moreira Castilho

por: Margarete Azevedo

Tecle D para difamar!

Wanderson Moreira CastilhoJunto com as vantagens ilimitadas que traz aos usuários, a Internet carrega também inúmeros riscos. Como ainda não dispõe de legislação específica para esse “novo mundo”, o Brasil é um campo fértil para todo tipo de crime virtual. A punição aos culpados, quase sempre, está sujeita às leis existentes, muito distante das necessidades dos dias atuais. Wanderson Moreira Castilho, especialista em segurança da informação e crimes eletrônicos, certificado como “hacker ético avançado” e diretor da E-NetSecurity Solutions, lembra que uma calúnia atingia no passado, no máximo 50 pessoas; enquanto hoje, um simples clique afeta milhares. Autor do livro Manual do detetive virtual, publicado pela Matrix Editora, ele fala a respeito de sua formação como físico e da sua profissão de perito em crimes cibernéticos. Como esse trabalho não é regulamentado no Brasil, ele é obrigado a viajar a cada dois meses para os Estados Unidos a fim de frequentar algum curso de especialização.

Qual a relação da Física com a profissão de perito em crimes cibernéticos?

Eu comecei a me interessar pela área de informática quando estava cursando mestrado na Universidade de São Paulo (USP), em 1999. Passei a fazer certificações na área de segurança, invasões de sistemas, chamado hacker ético e, posteriormente, parti para a perícia, ou seja, análise forense digital. A Física me ajudou muito no raciocínio lógico. Quem aprende Física, aprende qualquer coisa.

Como você desenvolveu know-how de perito?

Ele foi construído a partir dos treinamentos, certificações que fui realizando nos Estados Unidos, e das experiências advindas dos casos resolvidos. Ao longo dos últimos dez anos, foram elucidados 650 casos. Eles me dão experiência para os próximos trabalhos, pois os crimes da área de invasão ou de difamação tendem a seguir o mesmo padrão.

Qual o crime mais comum no meio virtual?

No Brasil, a maioria dos crimes é de difamação. Estima-se que sejam pelo menos 200 casos diariamente.

Como é nos Estados Unidos, onde as leis são regulamentadas e a aplicação das penas é consolidada?

Eu acredito que lá o crime mais frequente seja a invasão de sistemas, fraudes eletrônicas. Existem casos de difamação, mas a ocorrência é menor do que no Brasil. A pessoa que comete esse tipo de crime vai para a cadeia. Aqui, raramente o criminoso é preso. Ele paga apenas uma indenização, normalmente baixa, e deixa de ser réu primário.

É necessário pensar como um criminoso para realizar as investigações?

Eu sempre faço o caminho reverso. Como falei, a maioria dos casos se repete. Existem alguns que desafiam a nossa inteligência. Esses, além de chamar a atenção, são os de que mais gosto. Preciso pensar como o criminoso agiu. Repito todos os passos por ele realizados e observo as possíveis lacunas. Muitas vezes, as pistas estão ali. Por mais que ele procure se ocultar utilizando uma máquina de terceiro, um IP diferente, sempre deixa rastro.

O criminoso costuma agir sozinho?

Nos casos que resolvi, a maioria agiu sozinha. Já nos que envolvia grande montante de dinheiro, por exemplo, uma fraude eletrônica, aí sim havia mais de uma pessoa, porque um único indivíduo não consegue montar o esquema. Nos casos de difamação, normalmente a pessoa age só. Quando ela não sabe como proceder, contrata alguém.

Qual o motivo para os casos de difamação?

É passional. São ex-namorados(as) que querem se vingar. Há casos de ciúmes, pessoas que nunca tiveram um relacionamento amoroso; inveja de colegas de trabalho. Quando um se sobressai, o outro passa a criar e enviar e-mails para a diretoria, com a intenção de denegrir a imagem do colega.

O que impede o desenvolvimento de uma legislação no Brasil?

Já existe um Projeto de Lei tramitando há 18 ou 19 anos. Ele foi aprovado, mas acabou voltando para a Câmara. Eu acredito que falta motivação política, pois as leis já estão definidas. Alguns julgam que é polêmico porque as leis que foram aprovadas serão ultrapassadas. No meu entender, é melhor ter uma legislação ultrapassada do que não ter nenhuma.

É possível traçar o perfil do criminoso?

Depende do crime. No de invasão de sistemas, são pessoas que têm profundo conhecimento da área de informática e grande motivação financeira. Elas visam a riqueza rápida. Hoje, estudos indicam que o crime organizado está migrando para o meio eletrônico. Para assaltar um banco, o criminoso precisa ir até o local com arma em punho e se arriscar a levar tiros. Através da Internet, a ação é mais rápida. Além disso, o montante de dinheiro é maior e o risco é consideravelmente menor, praticamente nenhum. Como investimento, basta um computador com acesso à Internet.

A sensação de impunidade atrai o criminoso?

Também, porque não há leis específicas, polícia preparada, treinamento e ferramentas. A punição está vetada. O Estado nunca divulgou oficialmente estatísticas sobre os crimes que ocorrem no meio virtual. Elas existem, mas não são divulgadas porque o número de casos resolvidos é insignificante perto dos denunciados.

O aliciamento de menores é frequente na Internet?

Recentemente, eu auxiliei na produção de uma reportagem investigativa. A produtora da matéria se passou por uma adolescente de 13 anos em uma sala de bate-papo. Para nosso espanto, bastou um minuto e meio para ela ser aliciada. Eles pediam para que ela tirasse a roupa e ficasse nua. Em contrapartida, mostravam suas partes íntimas. Os pais não têm noção de que isso realmente acontece. Muitos estão tendo conhecimento agora, com a mídia divulgando e alertando sobre essa realidade. É algo assustador.

Há falta de cuidado do pais?

Em alguns casos, há falta de tato, em outros, orientação. Muitos dão ordens aos filhos, do tipo “você tem que voltar às sete horas da noite, não pode ir a tal lugar, não pode fazer isso, não quero você conversando com fulano”, ou seja, impõem uma série de regras. No entanto, quando se trata de mundo virtual, os pais não estão habituados a aplicar regras porque não têm consciência digital. Hoje, há diversos softwares gratuitos, fáceis de instalar, que permitem monitoramento. Eles precisam se atualizar.

Ao instalar um software de monitoramento, os pais devem comentar com o filho?

Depende do perfil do filho. Caso ele goste de enganar os pais, eles devem usar um pouco de malandragem. O ideal é instalar o software sem que ele perceba. Alguns podem dizer que isso é invasão de privacidade, mas se não houver essa invasão, daqui a pouco o filho estará com um problema imenso que será deles também. O melhor é antever o problema, conseguir pelo menos prevenir.

De que trata seu livro?

No Manual do Detetive Virtual, conto como resolvi 15 casos reais. Não menciono nomes, nem lugares, por questão de sigilo. Apenas uma pessoa me autorizou a identificá-la. No livro, ensino as pessoas como evitar se tornar uma vítima. Caso o leitor seja vitimado, oriento como ele deve proceder.

As pessoas costumam fazer boletim de ocorrência?

Sim. Independentemente de o Estado estar atuando, preparado ou não, nós como cidadãos temos obrigação de registrar oficialmente o crime do qual fomos vítimas. Até porque, se a pessoa decidir entrar com uma ação judicial, a denúncia contribui no processo.

Qual a recomendação para os usuários da Internet?

O internauta não deve divulgar informações pessoais, que possibilite a um desconhecido chegar fisicamente até ele; deve desabilitar a função geolocalização, que algumas redes sociais dispõem, pois a cada mensagem postada, ela informa exatamente a sua localização. Não dar informações sobre seus bens, nem a respeito da família, em especial, os filhos. Muitos pais criam perfil para os bebês recém-nascidos, com detalhes sobre o dia, hora e local em que a criança nasceu. Se os filhos são o nosso maior tesouro, como posso deixar que o mundo os visualize? A maioria das pessoas não tem consciência do risco que corre. Uma pessoa quando não gosta de outra tende a atingir o filho, pois sabe que é o ponto fraco dela.

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