Viviane Senna
Mãe e educadora, em ritmo de Fórmula 1
Psicóloga por formação, antes de presidir o Instituto Ayrton Senna, desde a sua fundação em novembro de 1994, Viviane Senna clinicou durante 20 anos. Fruto do sonho do tricampeão mundial da F1, a entidade atua em todo o Brasil por meio de soluções sociais voltadas ao desenvolvimento humano. Desde o seu início, a ação implementada pelo Instituto mudou a realidade de mais de 11 mil crianças e jovens. Em 15 anos, foram investidos mais de R$ 200 milhões em programas educacionais. Viviane fala sobre o Instituto, que beneficiou cerca de 3 milhões de pessoas no ano passado, de seus principais projetos e do maior desafio que o Brasil precisa superar. É preciso urgentemente sair da incômoda posição de 70%, no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).
Como nasceu a ideia do Instituto?
O Instituto é a concretização do sonho de Ayrton. Ele se incomodava com a questão da desigualdade, tinha planos de estruturar alguma coisa que pudesse ajudar a mudar isso, especialmente na vida de crianças e jovens. Ele chegou a manifestar esse desejo meses antes do acidente. Minha família resolveu criar o Instituto em novembro de 1994; primeiro, para realizar esse desejo, segundo, como uma resposta carinhosa e grata pelo amor do povo brasileiro ao meu irmão.
Quais são os projetos desenvolvidos pelo Instituto?
Criamos e implementamos soluções educacionais que podem ser aplicadas em larga escala, e que permitem a gestão da educação, beneficiando milhares de crianças e jovens da rede pública de ensino. Na educação formal, temos o “Se Liga”, para combater o analfabetismo e preparar o aluno para o “Acelera Brasil”, que, em um ano, dá à criança os conhecimentos necessários de que precisa para retornar à rede regular. O “Circuito Campeão” é voltado ao direcionamento e acompanhamento das séries que compõem a primeira fase do Ensino Fundamental; enquanto o “Gestão Nota 10” propõe soluções e monitoramento para problemas que possam afetar o bom desempenho do aluno. Na Educação Complementar, temos programas que implementam metodologias inovadoras para qualificar o tempo em que o aluno não está na escola ou quando frequenta escolas em período integral. Utilizamos arte, esporte, além de um trabalho diferenciado com os jovens para que desenvolvam competências e habilidades essenciais ao seu dia a dia (programas “Educação pelo Esporte”, “Educação pela Arte” e “Superação Jovem”). Na área de Educação e Tecnologia, são desenvolvidos o “Escola Conectada”, que trabalha o uso criativo da tecnologia para gerar mudanças no aprendizado e na comunidade escolar; e o “Comunidade Conectada”, que promove a inclusão digital e a qualificação da mão de obra para o mercado de trabalho.
Quais as principais fontes de recursos?
Uma parte dos recursos para os programas que o Instituto desenvolve vem dos 100% dos royalties sobre o licenciamento da imagem do Ayrton e do personagem Senninha, cedidos pela minha família ao Instituto. Hoje, temos 350 produtos licenciados. Outra parte é gerada pelas alianças com empresas socialmente responsáveis, como Bradesco Capitalização, Credicard, Microsoft, Votorantim, Citigroup, HP, Martins, Neoenergia, Lide/EDH, Tribanco. Também contamos com doações de pessoas físicas, que entram no www.senna.org.br e tornam-se fãs de carteirinha da educação.
Como a entidade conquistou o título de Cátedra em Educação e Desenvolvimento Humano, da Unesco? O que isso representa?
A cátedra é o reconhecimento ao nosso trabalho com os quatro pilares da educação. Nossos programas focam o aspecto cognitivo, pessoal, social e produtivo das crianças e dos jovens atendidos, visando o desenvolvimento de seus potenciais, transformando-os em competências e habilidades para a vida. Outro aspecto que nos levou a ter esse reconhecimento foi a amplitude de nossa atuação, sempre em grande escala e como política pública de redes municipais e estaduais de ensino. Esta cátedra é muito importante para o Instituto, pois ratifica o resultado de quase 16 anos de trabalho. Somos a única ONG a fazer parte da rede de cátedras da Unesco, sendo internacionalmente reconhecidos como um centro de criação de conhecimentos e de práticas bem-sucedidas em educação e desenvolvimento humano.
Passados 16 anos da partida do seu irmão, como você avalia a sua ausência? De que maneira ele permanece vivo na vida das pessoas?
Ayrton é muito presente no coração dos brasileiros. Não é à toa que ele ainda lidera pesquisas de opinião pública, que o colocam como um dos principais ícones do País. Isso porque ele pautava sua vida, seja como homem, seja como piloto, por valores como motivação, dedicação, determinação, busca pela perfeição e superação. Esses valores são um de seus legados e servem como combustível para nossas conquistas cotidianas. Este ano, estamos realizando uma campanha para celebrar os 50 anos, que ele faria no dia 21 de março. Num primeiro momento, convidamos os fãs para montar o maior cartão de aniversário do mundo, no www.senna50.com.br. A adesão foi incrível, o que confirma o carinho dos brasileiros por seu ídolo. Totalizamos mais de 120 mil postagens em três dias. A partir de 1º de maio teremos outra ação neste sentido, de celebração, também contando com os fãs de meu irmão. Fora isso, lançamos produtos exclusivos dos 50 anos, como o capacete dourado, idea lizado por Sid Mosca, camisetas, miniaturas de carros e outros objetos comercializados na loja oficial (www.sennastore.com.br).
Na sua opinião, qual o maior desafio do Brasil?
O maior desafio do Brasil é reduzir a absurda diferença entre o país que somos em termos econômicos, com o 10º maior PIB do mundo, e o país que queremos ser em matéria de desenvolvimento humano, mas que hoje está na 70ª posição no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). O trabalho do Instituto Ayrton Senna responde a esse desafio, criando oportunidades de desenvolvimento humano às novas gerações. Dessa forma, contribuímos para aproximar os dois brasis que convivem lado a lado: aquele de muitas oportunidades para poucos, com o que concentra a maior parte da população excluída dessas oportunidades.
O desenvolvimento econômico é fundamental para o crescimento social?
Vivemos em um País onde a maioria da população é desprovida de oportunidades. Para mudar esse cenário, só mesmo por meio de uma educação de qualidade, que é a principal via de desenvolvimento humano. Enquanto a escola continuar sendo um “estacionamento de alunos”, com um contingente excessivo de crianças na sala de aula, que não estão aprendendo, os problemas continuarão existindo. São crianças que saem de lá sem saber ler nem escrever, totalmente despreparadas para a vida. Isso tem um impacto negativo no desenvolvimento econômico.
Como observa a participação da iniciativa privada na atenuação das mazelas sociais? De que forma elas podem se engajar?
As empresas socialmente responsáveis têm representado um papel cada vez mais ativo junto ao cenário social brasileiro. O nosso trabalho mostra como esta parceria dá certo. Hoje, atuamos em 1.372 municípios de 26 Estados e Distrito Federal em parceria com empresas como Bradesco, Credicard, Microsoft, Votorantim, Vale do Rio Doce, Copersucar, Neoenergia, entre outras. Essas parcerias garantem boa parte dos recursos anuais investidos em nossos programas de gestão educacional. Creio que o engajamento das empresas deva se pautar em dois aspectos básicos: a escolha de uma causa fundamental ao País e a união de esforços junto ao setor público e à sociedade civil para garantir grande escala, impacto e efetividade da ação.
Como conciliar a vida de presidente do Instituto, com a de mulher, mãe e dona de casa?
Meu trabalho no Instituto absorve a maior parte de meu tempo. Participo de eventos defendendo a causa da educação e também de vários conselhos de empresas. Acompanho diretamente o trabalho de minha equipe nos programas que implementamos em todo o País. Meus momentos livres são dedicados aos meus filhos. Atualmente, também procuro acompanhar o Bruno, na F1. É uma agenda complicada, admito, mas já estamos habituados.
Além da semelhança física, quais outros atributos seu filho tem em comum com o tio?
Fora a semelhança física, que todos comentam, ele tem a mesma determinação que o Ayrton tinha. Com o tempo, as pessoas vão perceber que a maneira como ele se comporta nas pistas é diferente. Bruno tem estilo próprio.
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