Renata Falzoni
“Magrela” por opção… e bom senso!

Arquiteta desde 1977, formada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Mackenzie, Renata Falzoni começou a trabalhar como repórter fotográfica na imprensa paulistana. Passou por diversas publicações, entre elas, jornal Folha de S.Paulo, revistas IstoÉ, Placar, Playboy. Foi uma das precursoras do formato “abelha” na TV brasileira, em que o próprio repórter leva a câmera. A bicicleta entrou na sua vida aos 5 anos de idade, mas só em 1976, ela foi adotada como o seu principal meio de transporte por causa do trânsito caótico de São Paulo. “Dei meu carro para o meu irmão e passei a me transportar só de bicicleta”, conta. Nesta entrevista, ela aborda a dependência do carro, os benefícios de usar a “magrela”; dá dicas a quem quer comprar uma bicicleta e diz como faz para transportar volumes no dia a dia.
Sua formação a ajudou na carreira de fotógrafa e jornalista?
As pessoas falam: “Você abandonou a arquitetura”. Eu digo não, continuo arquiteta. A arquitetura ensina a equacionar variáveis e a buscar soluções. O arquiteto tem uma formação bastante focada em cima da estética e da ética. Eu sempre fui muito focada em urbanismo, no uso do solo. Tanto que o meu Trabalho de Conclusão de Curso foi em cima da reurbanização de alguns trechos por onde passavam as ferrovias do Estado de São Paulo. Essas áreas estavam degradadas; depois tudo foi sucateado.
Como surgiu a ideia de criar os Night Bikers em São Paulo?
Eu sou uma pessoa extremamente boêmia, sempre gostei da noite. Saía muito de bicicleta, já na década de 70, quando estava na faculdade. Dava altos rolês à noite, inclusive, era melhor do que hoje, porque tinha menos carro. Em 1986, comecei a escrever sobre o ciclismo e passei a incentivar as pessoas a pedalar a noite. Em 1989, fundei o Night Bikers Club do Brasil. A coisa pegou de tal maneira, que o Rio de Janeiro também lançou um grupo de cicloativistas e chegou a San Francisco, nos Estados Unidos. Fomos nós que começamos tudo.
O que é necessário para incentivar o uso da bicicleta?
Precisa de um executivo que não tenha medo de, eventualmente, incomodar uma minoria na cidade que se movimenta de carro. O transporte público não funciona porque as ruas estão congestionadas. Esse executivo tem que dizer “vamos retirar os carros da rua, vamos parar de investir em estrutura automotiva e dar prioridade aos transportes públicos, às calçadas, aos pedestres e ciclistas”. Enquanto o poder público não abraçar esta causa, e desagradar uma parte da população, a gente não vai ter essa mudança.
Nas últimas eleições, havia candidatos com propostas nesse sentido?
Nenhum deles discutiu mobilidade urbana de maneira sustentável. Nem a Marina. Não foi discutida política de esporte, como inclusão social e a priorização do transporte público, ou seja, tirar os carros das ruas e unificar trem, ônibus e metrô. Eles não vão competir um com o outro, mas somar. Hoje, o trem e o metrô estão juntos, porém, o ônibus compete com os dois. Porque está nas mãos da propriedade privada, que quer passageiros. Ciclistas na rua são passageiros a menos. Imagine o executivo do Brasil legislando e regulamentando o uso do solo, promovendo o planejamento cicloviário. As prefeituras disponibilizando bicicletas compartilhadas, comuns na França, na Europa inteira, quando toda a pressão é para criar avenidas, viadutos, alças de acesso, alargar marginais. O máximo que se fala é em ampliar o Metrô… Nós tivemos uma interrupção de investimento no transporte público que só priorizou os veículos. Vinte e oito por cento dos deslocamentos urbanos da cidade de São Paulo são feitos em carro e 38% a pé. Menos de 0,5% são realizados em bicicleta. O restante divide-se em trem, ônibus e metrô. Existe uma miopia descarada e desavergonhada, com o intuito de privilegiar a mobilidade de carros, que obedece a uma pressão da indústria.
Quantos usuários de bikes há na cidade de São Paulo?
São 380 mil viagens/dia. Esse é um número oficial do Metrô de 2007. Naquela época, eu via muito menos bicicletas nas ruas do que hoje em dia. Portanto, se fizermos uma nova medição, esse índice será maior.
Onde vivem esses usuários?
A maioria vive na periferia. Essas pessoas fazem um primeiro deslocamento para chegar a um terminal de ônibus ou metrô e estação de trem, para guardar a bike e pegar outro transporte. Alguns, eventualmente, estão chegando ao seu destino final.
Você usa carro no dia a dia?
Eu só uso carro para deslocamentos interurbanos. Quando saio de São Paulo e vou para outra cidade, por exemplo, Alphaville, Guarulhos, ABC, mas contra a minha vontade. Eu sou obrigada a utilizar o carro, porque não tem solução de mobilidade para o ser humano nesses lugares.
Trabalha próximo de sua casa?
Sim, mas mesmo assim me desloco em média 4 mil quilômetros por ano de bicicleta, na cidade de São Paulo.
Qual a vantagem de usar a bike?
É combinar soluções que a pessoa precisa ter. Todo cidadão tem que praticar esporte, ter lazer e se transportar. A bicicleta combina essas três necessidades num único momento, num único objeto. Eu me transporto na cidade de São Paulo de maneira prazerosa e praticando exercícios. Se estou fazendo um bem para o ambiente, isso é uma consequência da minha atitude.
“É muito arrogante a postura dos motoristas, em especial aqueles que saem de rampa. O pessoal coloca aquela luzinha indicando “cuidado veículos”; quem deve ter cuidado são eles, não a gente.”
Como transportar muito volume no dia a dia?
Essa é uma boa pergunta. A minha alforria total foi quando a minha filha fez 18 anos de idade; portanto, não precisava mais ser motorista de filho. Eu a levava para a escola; estacionava o carro próximo dali; tirava a minha bicicleta de dentro dele e fazia o resto do dia com ela. Voltava para a escola; a colocava no carro; apanhava minha filha e retornava para casa. Era a maneira mais agradável de não pegar um trânsito absurdo o restante do dia. Sobre transportar volume de bicicleta, o alforje resolve isso. Se a distância for curta, dá para carregar até 40 quilos. Por exemplo, eu passo na feira e trago verduras, legumes, entre outras coisas.
A sua família aderiu à causa?
Totalmente. O meu genro só anda de bike. Minha filha tem dois filhos, infelizmente, é obrigada a andar mais de carro. A gente procura facilitar ao máximo.
Quais as dicas para quem quer comprar uma bicicleta?
Antes de tudo, se a pessoa tem uma bicicleta no fundo da garagem, mandar arrumar e começar a andar com ela. Uma bicicleta para mobilidade é diferente de uma para trilha. A bicicleta boa para mobilidade tem aro 700, mas não precisa ter pneus finos. Se tiver para-lamas, ótimo; se tiver bagageiro ou cestinha na frente, melhor ainda; ela pode ir ao supermercado e carregar uma comprinha. Bicicleta é como luva, tem que ter o tamanho da pessoa. Recomendo equipamentos de segurança, como capacete, luvas, óculos, luz pisca-pisca na frente e atrás. A pessoa deve tomar muito cuidado com os veículos que sobem na calçada para entrar na garagem sem a menor cerimônia; atropelam o pedestre, o ciclista, mesmo na calçada. É muito arrogante a postura dos motoristas, em especial aqueles que saem de rampa. O pessoal coloca aquela luzinha indicando “cuidado veículos”; quem deve ter cuidado são eles, não a gente.
Quantas bikes você tem?
Bicicleta é como filho, você vai tendo, mas não vai contando. Tenho uma com que consigo fazer montain bike e viagem no asfalto. É uma mesma bicicleta aro 700, que recebe dois tipos de pneus. Tenho também uma montain bike, que vai para trilha e outra speed de estrada. Tenho uma bicicleta aro 20 dobrável, para poder entrar a qualquer hora do dia e da noite dentro do metrô e ser aceita. O único problema da bicicleta de roda pequena é que ela não combina com buraco; você se desequilibra. Se a cidade não tivesse trânsito tão pesado de veículos, não estaria esburacada. Mais um motivo para tirar carros da rua, colocar corredor para ônibus e proibir caminhão, como já está sendo feito. Além dessas, tenho sempre uma de estepe. Fora as bicicletas de coleção que estão penduradas, e não estão mais em uso, que eu não vou vender ou dar de presente.
Por que nos países mais desenvolvidos, a bicicleta é um bem de consumo valorizado, ao contrário dos países pobres?
Na Dinamarca, Suécia, Alemanha, Bélgica, Holanda há mais bicicletas por cabeça do que a renda per capita que a pessoa deveria ter. A curva é ascendente. Já em países mais pobres, como China, Índia e Brasil, a bicicleta é um bem de consumo acessível às classes menos favorecidas. A aquisição de uma bicicleta vem antes da geladeira, da televisão. Se você for para o Nordeste, verá que isso é verdade. Só depois de algum tempo, a pessoa compra uma moto. Por lá, os jegues e as bikes estão sendo abandonados. No censo demográfico, há um item que pergunta quantos carros, geladeiras, televisões, rádios, motos a pessoa tem em casa, mas não é perguntado quantas bicicletas ela tem. Em Brasília, o pessoal não sabe o que é isso. Estou falando do primeiro bem de consumo do brasileiro que é uma bicicleta, não é um carro, geladeira, nem moto.
Matérias desta Área
Matérias Relacionadas
Tags
Índice da Edição 236clique
- A tal viagem inesquecível
- Impressão móvel HP
- Capital do Sucesso
- Receitas do outro mundo
- Lindo pendão da esperança
- Viagem ao centro da terra
- Bienvenidos à Bolívia
- O som do silêncio
- Pequeno só no tamanho!
- Realismo mágico
- Da telinha para os livros
- A linguagem do corpo
- ABC… Dicionário de bicho
- Poesia para crianças
