Paulo César Pinheiro
Música para alma das pesoas
“Oh, tristeza me desculpe / Estou de malas prontas / Hoje a poesia / Veio ao meu encontro / Já raiou o dia / Vamos viajar / Vamos indo de carona / Na garupa leve / Do vento macio / Que vem caminhando / Desde muito longe / Lá do fim do mar…” Aos 14 anos, Paulo César Pinheiro já tinha escritos estes versos da música “Viagem”, uma das mais belas da Música Popular Brasileira, e que marcou o seu debute profissional. No entanto, a não ser a paixão pela música, o que o diferenciava dos demais garotos de sua idade, Pinheiro curtia mesmo era jogar bola de gude, rodar pião e bater bola. “Não fugimos ao dom que nos é dado, mas nunca pensei em ser um profissional.” A princípio, a família não compreendia bem o que ocorria. O pai invariavelmente balançava a cabeça em sinal de reprovação; achava que compor era coisa de vagabundo e que isso atrapalharia os seus estudos. “Mais tarde, descobri que na família dele, que era paraibano, existiam vários cantadores e violeiros”, comenta. Muito de sua obra e memórias estão no recém-lançado livro Histórias das Minhas Canções, publicado pela Editora Leya.
Você testemunhou o surgimento da Bossa Nova, a censura sistemática à música na época do regime militar, a evolução das escolas de samba. De que maneira esses eventos influenciaram a sua produção artística?
Foram só acontecimentos que permearam a minha vida. O que fazia e faço até hoje retrata épocas, sentimentos. Eu faço música para a alma das pessoas e como ocorre com alguns compositores, às vezes, somos também repórteres do nosso tempo.
Em algum momento de sua vida lhe faltou inspiração ou mesmo vontade de compor?
Não. A inspiração, felizmente, nunca me abandonou. Ela é uma coisa abstrata, muito curiosa. Eu dependo dela e a relação que eu tenho com ela é divina. É um dom divino mesmo. Em 42 anos como profissional, e mais uns cinco como amador, compus mais de 2.100 músicas, mais de mil foram gravadas.
Você toca algum instrumento?
Não, eu faço música na cabeça. Já toquei violão no início da minha carreira, mas tive tantos parceiros violonistas virtuoses, que larguei o instrumento e nunca mais peguei. Hoje, às vezes, vem uma melodia, aí eu pego o violão para buscar notas mais bonitas. Com frequência. Como é um trabalho abstrato, às vezes, nem sei como vou terminar um verso, porque é uma coisa que eu não domino. A música me domina, e não eu a ela.
Para o seu livro, Histórias das minhas canções, foram selecionadas apenas 65 canções. O que determinou a sua escolha?
Eu comecei a escrever esse livro por acaso. A minha mulher me pediu que fizesse uma crônica a respeito de uma das músicas, para explicar de que forma eu tinha feito a canção. Escrevi e dei para ela. Quando acabei, vi que aquilo poderia ser um embrião de um livro. Comecei a puxar pela memória algumas histórias. Não segui uma ordem cronológica, foi por lembrança. Resolvi fazer 100 histórias por ser um número redondo, nada mais. Porém, quando cheguei na 60ª, vi que o trabalho estava grande, e um livro grande costuma ser caro. Eu queria que ele ficasse acessível, porque a minha intenção é que as pessoas leiam. Escrevi mais cinco histórias, pois já tinha anotado e parei. Sugeri ao editor que fizéssemos depois um segundo volume.
Logo no início de sua carreira, você conheceu Baden Powell. Esse encontro contribuiu no seu talhamento como artista?
Musicalmente ele me ensinou o que eu sei. O conheci através do meu primeiro parceiro, João de Aquino, que era seu primo. O Baden já era muito famoso na época. Tinha uma parceria sólida, de muito sucesso com o Vinicius (de Moraes), e ele se encantou com o que eu fazia. Eu virei seu parceiro aos 16 anos de idade.
O que determina as suas parcerias? Você começou com o Baden, depois trabalhou com outros músicos contemporâneos e hoje trabalha com os mais jovens.
Estou fazendo com as pessoas o que o Baden fez comigo. Eu acho que devo isso a ele. Presto atenção no que está acontecendo. Eu já estou na 5ª geração de compositores, o meu parceiro mais velho foi o Pixinguinha. Se estivesse vivo, hoje ele teria 113 anos. O mais novo tem 14 anos, é filho de outro parceiro meu. São quase 100 anos de diferença. Portanto, atravessei o século 20 fazendo música com todas as gerações e já trabalho com os meninos dos anos 2000. Isso acontece naturalmente porque presto atenção nos talentos que chegam. Normalmente, eles me procuram. Talvez eu seja o compositor da minha época, que mais tenha essa abertura com os mais novos.
Você não tem preconceitos. Os novos talentos são um talento para o futuro da Música Popular Brasileira?
Nenhum. Pelo contrário, eu ouço os mais novos, porque me reciclo, me renovo através deles. Há gerações novas de músicos e compositores surgindo com muito talento musical, mas sinto falta de letristas novos. O pessoal de letra é que me faz falta.
A que você atribui essa escassez de letristas?
Elas incentivavam a leitura?
Sim. Nós podíamos levar livros para casa. Hoje, grande parte dessas bibliotecas na qual fui sócio, pelo menos aqui no Rio de Janeiro, onde eu moro, não existe. Para se ter uma ideia, algumas se transformaram em bingos. Atualmente, há novas ferramentas que afastam as pessoas dos livros, os computadores, a Internet. Na minha opinião, a Internet é uma cultura superficial, artificial. Isso é o que eu verifico quando converso com os meninos mais novos, que são adeptos, ou seja, viciados na Internet. Eles sabem das coisas superficialmente, quase ninguém senta para escrever. É tudo no teclado.
Como foi compor durante o período da ditadura no Brasil?
Foi um terror, mas aprendemos na prática a driblar o quanto podíamos a censura. Fomos muito perseguidos. Tive muitas músicas vetadas. Existiam censuras regionais, mas o prédio da censura federal era em Brasília. Era final da década de 60, começo de 1970, Brasília ainda estava engatinhando, começando. Eu tomei horror de lá. Tenho muitos amigos que moram em Brasília, com quem até converso sobre isso. Quando preciso ir para a Capital Federal fazer alguma coisa, sinto um mal-estar. Ficou tão duro em mim, que a cidade, que não tinha nada com isso, acabou entrando de tabela no meu terror. Nesse meu livro eu conto algumas histórias a respeito disso.
Sobre o trabalho “O importante é que a nossa emoção sobreviva”, realizado junto com o Eduardo Gudin e a Márcia, as letras das canções desse disco traziam muitas mensagens cifradas…
Esse show foi importantíssimo para a juventude da época e durou muitos anos. Comecei a fazê-lo em 1974 e desse começo nós gravamos dois discos ao vivo. Era a maneira que tínhamos de dar os toques em quem nos acompanhava. Tínhamos um séquito de fãs. Diversas vezes, a primeira fila do teatro era tomada por gente do Dops, gente da censura federal. Até contra isso tínhamos que ter jogo de cintura,
Muitas de suas músicas são gravadas no exterior. Você recebe direitos autorais pelo uso delas?
Eu vivo de direito autoral. Nunca vivi de outra coisa. Desde que comecei, como profissional aos 18 anos, nunca tive outra profissão a não ser essa e seus diversos atalhos. Quando você faz música, shows, grava disco, escreve, produz, tem muitas coisas em torno do compor. Essa soma de coisas faz com que você viva pelo menos direito. Não fiquei rico, não sou rico, mas sempre vivi direito com os meus direitos autorais. Até porque não gravo só aqui no País, gravo no resto do mundo também. Recebo muito direito autoral de fora.
A canção “Leão do Norte”, feita em parceria com Lenine, foi utilizada em um livro didático e hoje se tornou um hino informal em Pernambuco. Como você observa isso?
Eu gosto, me sinto lisonjeado. Recentemente, recebi a notícia de que vou ganhar uma comenda de cidadão honorário pernambucano. Acho isso maravilhoso. Quando um Estado me condecora é porque fiz algo que valeu a pena para essa cultura. Como aconteceu há pouco, no mês passado. Eu recebi uma comenda no Estado de Minas Gerais, a medalha da Inconfidência, a mais importante, dada no dia 21 de abril, dia de Tiradentes, em Ouro Preto. Eu recebi essa comenda pela música “Desenredo”, que fiz para Minas Gerais. “Ê Minas/Ê Minas/É hora de partir/Eu vou/Vou-me embora pra bem longe…” Essa canção virou um hino mineiro. Essas homenagens me mostram que o caminho que trilhei é brasileiro. O meu país está me condecorando por isso.
Na realidade, você nunca se limitou a um gênero.
Exatamente, estou colhendo hoje, com mais de 60 anos, esses louros. Para mim são troféus valiosíssimos. É um reconhecimento do meu trabalho. Isso é bonito em vida. É bem aquela frase que o Nelson Cavaquinho dizia: “Me dê as flores em vida, me dê as flores em vida”.
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