Pablo Bernasconi
Um provocador do imaginário
Natural de Buenos Aires, onde nasceu em 1973, o ilustrador, escritor e designer gráfico Pablo Bernasconi iniciou sua carreira no El Clarín, um dos principais jornais argentinos; mais tarde, colaborou também com o The Wall Street Journal, The New York Times, Rolling Stone (EUA), The Times (Inglaterra), El Diario de León, La voz de Galicia (Espanha), La Nación de Costa Rica, entre outras publicações. O pai, engenheiro nuclear, e a mãe, química, não influíram na sua carreira, mas com eles aprendeu certos métodos bastante úteis na hora de encarar uma tarefa. “Eles sempre apoiaram minhas decisões. Mesmo quando não sabiam o que me aconselhar, souberam, ao menos, me empurrar.” Morador da Patagônia, ele também é autor e ilustrador de dezenas de livros infantis publicados em vários países do mundo, como Brasil, Austrália, Estados Unidos, Inglaterra, Coreia, Alemanha e Espanha. Já conquistou diversos prêmios internacionais, entre eles, quatro de excelência concedidos pela SND (Society of Newspaper Design); Zena Sutherland Award de Literatura Infantil (2006), da Universidade de Chicago, além dos prêmios UK Association of Illustrators 29º Awards Annual (2005), World Book Day (2004) e 32º Prêmio Abril de Jornalismo, na categoria Ilustração (Brasil, 2007).
Existe uma área preferida de atuação?
Diria que a área na qual melhor me conduzo é a do pensamento, a da reflexão traduzida em imagens. Não importa muito o suporte que finalmente eleja para desenvolvê-la, o que melhor me ocorre é saber que estou contido dentro de um espaço de pensamento e discurso o mais profundo possível. Mas apesar de ter começado como desenhista, em seguida fui me dedicando à ilustração, já que vi nesta disciplina um terreno mais fértil para a exposição de ideias e plástica.
Primeiro você cria os personagens ou elabora as histórias infantis?
Primeiro é a história, a ideia, depois virão os personagens, os cenários, as formas, enfim. Creio que seja fundamental, em minha forma de encarar os livros, ter muito claro até onde quero ir, onde quero chegar, por mais que não tenha nenhuma pista de como fazê-lo. Prefiro ter definidos os objetivos de um livro, ou uma história. Em geral, meus livros apelam ao imaginário, porque não tento deixar nenhuma lição de moral, nem ensinar nada, mas tão somente provocar apetite pela leitura, e comprovar o imaginário de cada criança ou adulto que permitam submergir nos meus livros.
Você se inspira em “personagens” humanos (pessoas que conhece) para compô-los?
Sim. Às vezes não é alguém de carne e osso, mas um conjunto de pessoas ou de situações que me remetam a algo com o qual trabalhar. Nós, humanos, somos suficientemente exagerados e ricos em personalidades, como para ter de agregar muito mais. O resto, minha visão, é um pouco de olfato e outro pouco de trabalho, misturado com o mais puro e genuíno prazer de escrever, desenhar e ler.
Os seus livros voltados ao público adulto não estão disponíveis no Brasil? É mais desafiador produzir para adultos ou crianças?
Faz muito tempo que trabalho para adultos porque colaboro na imprensa com diários de todo o mundo, e estou bastante habituado a isso. Não vejo, no entanto, um desafio diferente entre o público adulto ou infantil. São destinos diferentes, mas meu trabalho é essencialmente o mesmo, tendo em conta construções semânticas que podem variar de um lado ao outro, mas que mantenham a mesma ideia.
Como ilustrador você colabora para diversas mídias em vários países. Como são os seus prazos para entrega de trabalho?
São muito limitados, porque os tempos nos diários se contam em horas, ao contrário das revistas ou dos livros, para os quais tenho semanas para concretizar um trabalho. Mas agradeço muito haver podido iniciarme em veículos diários, porque me acostumou a ser eficaz e preciso. Não sobra muito tempo para dúvidas quando nos dão duas ou três horas para gerar algo e entregá-lo, sabendo que em outras duas ou três horas sairá publicado. É uma adrenalina que, no meu caso, serve para concentrar-me e avançar em direção à melhor solução possível.
Você faz suas ilustrações com fotografias, recortes de revistas, sobreposições…
Faço de tudo, com tudo o que possa ou necessite. Digamos que estou muito focado no que envolve a ideia, o conceito me direciona. Algumas ideias requerem uma resposta mais plástica e convencional, com ferramentas como aquarela, enquanto outras terminam encaixadas em uma escultura. Considero que a parte anterior, a dos esboços, é obrigatória e necessária, não somente por que é aí que se desenvolve concretamente o mecanismo do pensamento reflexivo, mas também por que se pode otimizar o tempo ao máximo, decidindo que ferramenta utilizar. O lápis, todavia, segue como o elemento mais poderoso que encontrei.
Qual trabalho é mais prazeroso?
Não poderia dizer que um é mais prazeroso que outro, os livros me levam a conhecer lugares e gente que de outro modo não conheceria. O trabalho na imprensa me treina de uma maneira certeira e isso é muito positivo também.
Em quais artistas/desenhistas você se inspirou ou se inspira para desenvolver o seu trabalho?
Com relação às influências, não costumo nomear somente as plásticas, porque creio que um artista se nutre de todas os galhos possíveis, de todos os aspectos que nos vinculam à arte e ao pensamento. Leio muitos autores de filosofia clássica moderna, como Schopenhauer, Kant e Hegel, autores de literatura atual como Murakami, Auster ou Calvino. Gosto muito da filmografia de Woody Allen, Jeunet e David Fincher, gosto do jazz: Monk, Coltrane, Ella Fitzgerald; e outras formas musicais, como Radiohead, Manu Chao e The Beatles. Na plástica há muito que me delicia, mas os clássicos das histórias em quadrinhos, como Quino e Fontanarrosa, são mestres de minha formação, além da escola polaca do pós-guerra, com Cieslewickz encabeçando a lista.
Em 2005 e 2008 você foi selecionado pela Lüerzer’s Archive (Alemanha) para ser incluído nos 200 Best Illustrators Worldwide (200 Melhores Ilustradores do Mundo). O que isso representou na sua carreira?
Nada em especial, não vinculo nenhum prêmio a decisões ou coisas que me aconteceram porque considero que é impossível catalogar ou avaliar um artista por uma ou duas boas peças. Todo o mundo pode conseguir uma ou duas boas peças a que se propõe. O que realmente é difícil consolidar é uma obra vasta com a mesma consistência e qualidade, sem cair em modas ou preguiça experimental.
Como você recebe as manifestações de carinho dos leitores? Isso é um alento para quem tem uma profissão essencialmente solitária?
É, evidentemente, muito prazeroso e agradável. Certamente, nossa profissão é solitária, e isso pode tornar-se demasiado introspectivo às vezes. A resposta das pessoas, as considerações dos demais são estímulos permanentes que afirmam nossos rumos, ao menos assim é o que vejo. De toda maneira, é bom não esperar que isso ocorra, ou depender deste tipo de resposta para avançar.
Você se incomoda em ser considerado um “artista”?
Relaciono a palavra artista com alguém que interage a partir da arbitrariedade expressiva. Quer dizer, minha definição de artista é de uma pessoa que expõe com total liberdade coisas muito íntimas, e por isso mesmo, às vezes inexpugnáveis para um terceiro. Isso não tem nada de mal, e o considero, na verdade, tremendamente corajoso. Mas a atitude que eu mantenho diante do que faço, que por outro lado já não sei que nome colocá-lo, é de comunicar minhas ideias da forma mas limpa e extensa possível, de considerar o discurso como um elemento preciso de expressão mental. Gosto de trasladar as ideias, e a partir daí plantar algo no outro, em quem lê ou me vê. De todos os modos, esta maneira de ver o artista é permeável a novas definições, inclusive em mim mesmo. Em Bifocal, exponho duas verdades sobre minha própria maneira de pensar, e cito uma grande frase de Scott Fitzgerald: ¨Um artista é um tipo capaz de ter dois pensamentos fundamentalmente opostos ao mesmo tempo, e apesar disso, seguir funcionando.”
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