Muito além dos horizontes

Aos 36 anos, Beto Pandiani largou uma bem-sucedida carreira de empresário da noite para se lançar ao mar. Em pouco mais de uma década, realizou uma série de viagens longas por lugares não muito explorados a bordo de um pequeno catamarã sem cabina. Em sua última proeza, ao lado do velejador francês Igor Bely, ele fez a travessia do Pacífico, desde a costa chilena até a Austrália, uma das rotas menos navegadas do planeta. Foram 71 dias, quase 17.500 quilômetros, a maior parte deles olhando para o horizonte. Essa experiência o velejador conta no livro Travessia do Pacífico, da Terra Virgem Editora. Aqui, Pandiani fala de sua última aventura, as motivações que o levaram ao mar, os desafios por trás de cada nova empreitada e revela também detalhes dos seus mergulhos pessoais.

Muito além dos horizontes

Como foi a mudança de empresário da noite para velejador?

É uma pergunta difícil de responder. Não que eu não gostasse do que fazia. Gostava, mas estava um pouco cansado da noite. Apreciava muito velejar; na época eu competia. Em 1993, quando pensei em fazer a primeira viagem (Miami – Ilhabela), em 289 dias, abriu-se uma possibilidade de eu viver como velejador cem por cento do tempo. Eu falei: posso fazer outra coisa diferente.

Houve algum receio de deixar a vida “estabilizada” e começar tudo de novo?

Essa foi a minha dúvida na época. Pensei, puxa, faço um negócio que dá certo, que é um sucesso, e vou largar tudo para fazer algo que eu não tenho ideia do que vai ser. Isso pesou muito.

Em algum momento, pensou em voltar ao antigo trabalho?

Acabei retomando quando regressei da primeira viagem, pois estava sem dinheiro. Havia sido um sucesso, mas financeiramente não resultou num grande negócio. Voltei para a noite por três anos e tornei a velejar em 1999.

Qual a grande motivação das suas travessias?

Adoro velejar e viajar. Quando estou velejando, me sinto pleno. Por trás disso há a possibilidade de realizar um sonho, de completar um roteiro que li em algum livro, vi em um filme ou que sonhei.

Como é viajar a bordo de um catamarã, sem cabina e sem luxo?

É bom viu. Você começa a perceber que pode viver muito melhor do que imagina e com muito menos do que precisa. Isso fica bem claro quando eu volto. Percebo o quanto a vida na cidade é de excessos. O nosso DNA está mais acostumado com uma vida mais rústica do que com o conforto. Você vê muitas pessoas doentes porque comem demais, abrem muito a geladeira, sem falar do consumo exagerado de energia. A gente não precisa disso.

Qual o sentimento na hora do partir?

Normalmente é de medo. Vêm aquelas perguntas: será que fiz tudo o que deveria ser feito? O barco está bem estruturado? Esqueci alguma coisa? Além disso, surgem as dúvidas em relação ao que pode vir a acontecer.

E a volta, como é a readaptação à vida na cidade?

O retorno das viagens longas é mais difícil. Acabo me desacostumando com algumas coisas de São Paulo, por exemplo, as pessoas dirigem muito rápido. Você está acostumado com a velocidade de um barco a vela, que anda sem nada em volta, sem ninguém pela frente. Aqui são milhões de carros andando rápido, um colado no outro. As diferenças são gritantes. O ar que se respira, a falta de horizonte, tudo isso gera desconforto.

Quanto tempo leva o planejamento de cada nova expedição?

Normalmente uns dois anos. A logística da viagem, que envolve o barco, a alimentação, a escolha dos equipamentos eletrônicos para documentar a viagem. Como velejamos em um barco aberto, é um desafio manter a câmera de vídeo e o computador funcionando.

É possível se perder ou naufragar?

É difícil se perder em alto mar. Uma situação de naufrágio também é improvável. O que pode acontecer é o barco quebrar e ficarmos à deriva. A tecnologia e o telefone via satélite nesse caso são aliados.

Você veleja acompanhado? O que é mais difícil de lidar em alto mar?

Sempre divido o barco com outro velejador. Entre as viagens realizadas, duas delas tiveram a participação de dois barcos, ou seja, de quatro velejadores. Há momentos em que não tem o que se falar. O mais difícil é lidar consigo mesmo, porque na hora em que acaba o assunto, vem a paisagem, que é tudo igual. No meio do mar, onde não tem realmente nada para fazer, a não ser velejar, sobra apenas você. A pessoa que tem dificuldade de ficar consigo mesma, encontra obstáculos porque é uma prova, é um teste. Você começa a explorar outro oceano, o de dentro, que é um território desconhecido para todos nós. Isso pode se tornar um fardo.

Que mudanças essas viagens causaram na sua vida?

Muitas. Foram várias viagens e diversas oportunidades que tive de ficar comigo; de conhecer outras pessoas, novos lugares, de me ver em situações difíceis tendo que lidar com elas, solucionando-as. É como se fosse um intensivo da vida.

As viagens o fizeram olhar de maneira diferente para as coisas que você não dava importância?

Sim. Mudou a minha relação com os recursos naturais, água, energia, alimento; o desperdício é muito menor. Além disso, mudou meu olhar em relação ao mundo. Somos bombardeados pela mídia, é notícia ruim o tempo inteiro. Vamos criando uma imagem de que o mundo é um lugar ruim, que só tem pessoas más; tudo é perigoso, que não se pode confiar em ninguém. Quando viajamos, percebemos que é exatamente o oposto, pois não está acontecendo tanta coisa ruim como imaginamos, que também acontecem muitas coisas boas. A lente das viagens é outra.

Qual a relação com o tempo quando se navega?

É diferente do tempo da cidade, porque no mar o navegador está ligado ao tempo da natureza, aos ciclos de luz, ao Sol nascendo e se pondo e à escuridão. A vida fica em sintonia com isso. À noite, nos recolhemos, se estamos próximos da terra vamos encostar. Dormimos cedo porque a vida começa cedo. Alimentamos-nos nos horários certos. Há mais harmonia.

Dá para ter um sono restaurador quando se tem como leito o mar?

É bem difícil, porque quando se veleja, nas 12 horas de escuridão, dormimos umas três ou quatro horas, mas não são três horas seguidas. Ficamos a noite toda em um pinga-pinga; dormimos 15 minutos, acordamos, ficamos meia hora acordados. Isso é muito desconfortável. Não dá para desligar, até porque é preciso tomar conta do barco.

Havia um revezamento a bordo?

Não era necessário porque dificilmente os dois estavam dormindo. Quando se está em mar aberto, em uma rota pela qual ninguém passa, não tem onde bater. Isso traz certa tranquilidade, porém, caso o barco quebrasse e fosse preciso um resgate, a gente sabia que a marinha não ia desviar um navio comercial para nós. Vimos alguns barcos somente a dois dias da chegada, próximos à Austrália.

Quais foram os momentos mais marcantes dessa última viagem?

É difícil resumir, mas as chegadas são sempre momentos importantes em viagens como essa. Cada chegada a uma ilha é um momento especial; marca a conclusão de um trecho da viagem. A gente se alimenta deste êxito para continuar o percurso. Em alguns relatos do livro é nítida a apreensão de que o barco, o “Bye Bye Brasil”, vai quebrar.

Como foi conviver com essa possibilidade?

Talvez tenha sido um erro nosso comprar um barco usado, porque isso criou uma insegurança. A gente não sabia a que horas, como e o que iria quebrar; se ia ser num lugar muito longe, se teríamos socorro. Velejamos uma grande parte da viagem pensando nisso. Quando tinha aviso de mau tempo, já sabíamos que o mar ia ficar ruim e por consequência o barco iria sofrer mais. Isso nos deixava mais preocupados ainda. Já estou construindo um barco novo para as próximas viagens.

Qual o próximo destino?

Está previsto para 2012. Será para Groenlândia e Alasca, por cima da América. Não estou ansioso porque ainda não fiz a lição de casa. Quando ela estiver pronta, aí sim. Agora é hora de ficar aqui, de pensar, de esperar acontecer algumas coisas que vão chegar ao seu devido tempo. Não quero pular etapas. Você costuma ministrar palestras em empresas.

De que maneira é possível relacionar o trabalho do velejador com o dia a dia delas?

A viagem é uma empreitada. É algo que se constrói, que se empreende. É necessário gerenciar recursos e equipe; tomar decisões, afinal, há objetivos a serem alcançados. Além disso, é preciso lidar com o imponderável. Nesse momento, é indispensável criatividade e inovação. Isso também ocorre nas empresas. Não há nenhuma atividade no mundo que fuja a tudo isso. Claro que velejando em um barco sem cabina, isso se dá de forma muito mais intensa. Conforme o erro, a gente paga com a viagem.