Jardineiro fiel

por: Margarete Azevedo

Um dos problemas que pode acentuar o envelhecimento é a queda de cabelos, a ponto de uma pessoa de 30 anos aparentar 45 ou mais. Segundo o cirurgião plástico Mauro Speranzini, a calvície causa impactos psicológicos tanto no homem, quanto na mulher. “É comum a pessoa ser marginalizada no mercado de trabalho, além dos reflexos nos relacionamentos afetivos. Eu tenho pacientes que dizem: ‘Olha doutor, eu nem me incomodo muito com a calvície, mas o meu filho me perguntou por que pareço tão velho.’” Nesta entrevista, ele dá explicações sobre transplante capilar; fala das técnicas empregadas, do pós-operatório e outros detalhes a respeito do procedimento.

Jardineiro fiel

“O ideal é fazer o transplante antes dos fios embranquecerem”

No que consiste o transplante capilar e quando ele é indicado?

O transplante capilar é uma cirurgia feita com anestesia local, cujo objetivo é reduzir ou corrigir a alopecia ou calvície. O tipo mais comum é a androgenética, causada por fatores genéticos e hormonais, que a maioria dos homens apresenta e algumas mulheres também. Além da alopecia androgenética, o transplante de cabelo é indicado para qualquer falha no couro cabeludo decorrente de outras causas, por exemplo, queimaduras, ressecção de tumores e traumas.

Há algum tipo de restrição?

O transplante de cabelo só pode ser feito em pessoas que apresentam uma área doadora significativa. Não serve para quem tem o cabelo muito ralinho, inclusive, nas laterais e na região posterior da cabeça. Essa área doadora muito exígua impede um transplante que dê um resultado significativo.

Os fios utilizados são apenas os da cabeça?

Normalmente utilizamos os cabelos da própria cabeça, pois são fios que têm as mesmas características do local onde a pessoa ficou calva. Mas é possível usar cabelo de outras regiões. Por exemplo, do tórax, das costas, das pernas. Só que esses fios quando transplantados para a cabeça mantêm as características do local de origem. Assim, se transplantarmos um pelo do braço o que vai nascer no couro cabeludo é um pelinho de braço, que não vai dar uma cobertura muito boa.

Como é realizada a cirurgia e quanto tempo dura o procedimento?

A duração varia de 6 a 12 horas; depende da quantidade de cabelos que vai ser transferida e do local onde eles serão transplantados. A cirurgia é um pouco mais lenta na região da coroa e mais rápida na região frontal. É feita com anestesia local. Os efeitos da anestesia duram de 3 a 4 horas e, em cirurgias mais prolongadas, é necessário repeti-la.

É como se fosse transplantar uma árvore de lugar?

Exatamente. Nós retiramos a raiz do cabelo, longo ou curto, e transferimos para um novo local. Por exemplo, se a área calva for em cima da cabeça, fazemos furinhos com o auxílio de uma agulha ou uma lâmina bem fininha; em seguida, introduzimos o fio de cabelo com a sua raiz. Em função das alterações da nutrição, isto é, das alterações sanguíneas, o fio ressente um pouco essa mudança, como no transplante de uma árvore, quando as folhas caem. No caso do cabelo, após três ou quatro semanas, a raiz solta o fio. Dentro do couro cabeludo, ela (a raiz) ganha força e começa a nascer um novo fio de cabelo.

Qual o índice de aproveitamento dos fios?

O aproveitamento é em torno de 98%; diminui quando a pessoa tem muitos cabelos brancos. O ideal é fazer o transplante antes dos fios embranquecerem. No cabelo branco, a raiz é branca, da cor da gordura. Fica difícil para as técnicas, que fazem a separação dos fios, visualizarem isso.

O procedimento é realizado em quantas etapas?

Quando o paciente é jovem, por exemplo, com 30 anos, tem uma ou duas entradas, provavelmente ficará satisfeito com um único procedimento. Com a progressão da calvície, os fios transplantados vão ficar, mas os remanescentes continuarão caindo. Alguns anos depois, precisará de uma manutenção para substituir os fios que vierem a cair. Isso não ocorrerá se ele fizer um tratamento clínico, com uso de medicamentos que engrossam o cabelo e diminuem a queda. Esse tratamento é aconselhável para evitar novas operações no curto prazo. No caso de uma pessoa muito calva, as características do cabelo é que vão ou não possibilitar um resultado definitivo.

Quais as condições ideais?

cabelo grosso proporciona um melhor preenchimento, uma alta densidade de cabelo na área doadora também permite uma cirurgia melhor. Um baixo contraste entre a cor do cabelo e a cor do couro cabeludo dá um bom resultado, porque se a pessoa tem uma pele escura, e o cabelo escuro, com pouco cabelo já se tem um ótimo resultado. Em cabelos crespos, o resultado é melhor do que em lisos, pois o cabelo vai enrolar e vai encher melhor. Há uma série de condições que fazem com que uma única cirúrgica dê um ótimo resultado e não necessite de outro procedimento. Dependendo do grau de exigência do paciente, pode ser necessária outra cirurgia, após um ano, para aumentar a densidade do resultado obtido.

E as técnicas utilizadas?

Existem duas técnicas. A mais usada no mundo inteiro é a retirada de uma faixa de pele, com aproximadamente 15 milímetros de largura; o comprimento vai variar em função de quanto cabelo se pode retirar. Quando é retirado da cabeça inteira, dá uns 35 centímetros, por um centímetro e meio, ou seja, 15 milímetros de largura. Após a retirada, através do estiramento, as bordas são aproximadas com uma sutura com fio de náilon. Isso cria uma cicatriz linear, que fica totalmente coberta pelo cabelo. Acabou a operação, não dá mais para ver o corte. A outra forma é denominada Follicular Unit Extraction (FUE) – não há tradução para o português. Nesse caso, é utilizado um aparelho com aproximadamente um milímetro de espessura, que faz furinhos no couro cabeludo, em volta do fio de cabelo. Retira-se um cilindro de pele, que contém os fios de cabelo. Com essa técnica, não é preciso cortar o couro cabeludo. O FUE deixa centenas ou milhares de cicatrizes puntiformes, que em uma semana formam crostinhas e secam.

Qual o perfil de seus pacientes?

Cerca de 98% deles são do sexo masculino. As mulheres também fazem transplante, mas os resultados são mais pobres porque a calvície é diferente. Com frequência, o homem tem o cabelo cheio do lado e atrás, e rarefação no alto da cabeça. Na mulher, é comum uma rarefação em toda a cabeça, ou seja, a área doadora é pobre. Além disso, as mulheres não se contentam com uma “melhoradinha”. Elas querem muito cabelo. Quando a mulher entende as limitações do transplante, de que não ficará cabeluda, faz a operação. Porém, dependendo do grau de calvície, é melhor optar por uma peruca, porque o transplante nem sempre dá a densidade desejada.

Qual a idade média dos que o procuram?

Varia de 21 a 75 anos. Eu evito operar pacientes com menos de 27, 28 anos. Quando a pessoa já está calva com essa idade, ela tem uma velocidade de queda muito acentuada. É preciso ter uma ideia real do tamanho da área doadora, não é conveniente fazer a cirurgia em pessoa muito jovem, pois, até nascer o novo cabelo, ela vai perder tantos fios que não ficará satisfeita com o resultado.

Há diferença no transplante com fio curto e longo?

Noventa e nove por cento dos cirurgiões plásticos do mundo inteiro transplantam o fio curto. É raspada a área doadora e transplantada a raiz do fio com um ou dois milímetros de comprimento. A técnica do fio longo é recente; surgiu há três anos no Brasil. Até pouco tempo, o procedimento não era feito com o cabelo longo, pois ele cai três ou quatro semanas depois. Além disso, dá mais trabalho. Esse é um raciocínio lógico. Atualmente, cerca de dez cirurgiões realizam a técnica. Há muitas vantagens nessa cirurgia. Muitos pacientes optam por fazer o transplante nas férias porque não querem chegar ao trabalho com a cabeça raspada. Através da técnica do fio longo, o executivo tem condições de voltar ao trabalho no dia seguinte e já ter uma ideia aproximada do resultado definitivo.

Quais os cuidados no pós-operatório?

Na técnica do fio longo, eles são maiores. O paciente pode lavar os cabelos no dia seguinte, mas não pode penteá-los nos três, quatro dias após o transplante, porque corre o risco de arrancá-los. Nesse período, a pessoa deve usar o secador de cabelos e ajeitar o cabelo com a mão. Como toda cirurgia, deve-se evitar tomar sol no local.

Quanto tempo o paciente precisa esperar para ver o seu “novo” cabelo?

Após três ou quatro semanas, os fios caem e a pessoa volta à condição que tinha antes da operação. Eles voltarão a crescer normalmente, cerca de um centímetro por mês. A pessoa pode cortá-los e a após a cicatrização pode, inclusive, puxá-los que não vão sair. O fio transplantado terá um comportamento idêntico ao do cabelo original. Após nove meses da cirurgia, os fios atingirão cerca de cinco centímetros.

Cada vez mais homens jovens raspam a cabeça, o que você acha desta atitude?

Por trás do comportamento há um modismo, mas muitas pessoas optam por raspar a cabeça para retirar o aspecto feio que a queda de cabelos pode trazer. Não são todas as pessoas que ficam bem calvas. A calvície pode deformar a imagem. Há quem tenha uma chuquinha na frente da cabeça, fica muito feio; no entanto, muitas optam por raspar a cabeça e acabam ficando com um aspecto jovem, de uma pessoa descolada.

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