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Fernando Scherer: recordista acidental

Fernando de Queiróz Scherer, 37, integra a pequena galeria de heróis olímpicos brasileiros. No mesmo dia em que venceu o Troféu Brasil, em 1992, nos 50 m e 100 m nado livre, por causa de seus cabelos loiros, ganhou dos amigos o apelido de Xuxa, que carrega até hoje. Natural de Florianópolis (SC), até os 14 anos jogava tênis e sonhava estudar medicina veterinária. Conhecia muito sobre cavalos e cavalgava, até que uma queda o afastou de nitivamente das hípicas. A opção pelas piscinas do Clube Doze de Agosto, de sua cidade, tinha por objetivo minimizar problemas respiratórios. De forma meteórica, passou a representar o Brasil em competições internacionais e a estabelecer recordes. Em piscina curta (25 metros), foi recordista mundial do revezamento 4 x 100 metros livres, entre 1993 e 2000. Medalhista olímpico, com dois bronzes, um em 1996, na Olimpíada de Atlanta, e outro em 2000, em Sidney, e campeão mundial nos 100 metros livre no Mundial de Natação, em 1993. Aposentou-se das águas em 2007. Atualmente, é comentarista de natação da TV Record, empresário, e desenvolve projeto que patrocina mais de 2 mil crianças no País.

Como era a sua rotina de treino?
Entrava na piscina logo cedo; nadava por duas horas, saía e ia para a musculação. Treinava por cerca de uma hora e meia. Ia para casa, comia, dormia por uma hora e meia, duas horas. À tarde voltava a treinar de novo. Fazia massagem, fisioterapia e outros trabalhos fora da água. Às 20 horas, retornava para casa, jantava, ficava uma hora e pouco acordado e depois ia dormir.

Como conciliava essa rotina com o estudo?
Não era uma coisa fácil porque o atleta chega cansado, mas dá para fazer os dois. Tanto que o Michael Phelps ganhou oito medalhas olímpicas cursando faculdade. O atleta acorda às cinco da manhã, treina até as sete, vai para o colégio, no meu caso era faculdade, volta para os treinos da tarde, descansa e à noite estuda uma hora e meia, duas horas.

As quebras de recordes faziam com que exigisse cada vez mais de si?
Sim. O atleta está sempre na exigência, independentemente da quebra de recorde; ele está sempre querendo quebrar o seu melhor tempo. Cada vez treina mais forte, coloca um pesinho a mais; e o corpo humano tem um limite. Claro que os atletas são diferentes, alguns têm genética, estrutura corporal que não facilita lesões. Eu tive várias, tudo bem que foram após os 30 anos, mas chega uma hora que a dor é muito forte, você vê que não vai dar mais resultado e tem que parar.

Qual foi a sensação ao conquistar a primeira medalha olímpica?
Ganhei com 21 anos. É difícil explicar em palavras. Foi o maior marco na minha carreira, a realização de um sonho, de algo muito grande. Tanto que a cada conquista, eu pegava a medalha e mordia com toda força. Cheguei a rachar os dentes da frente. Com esse ato queria dizer: “Essa aqui ninguém mais tira.” A medalha representa a agonia de todo um processo.

Como é a decisão da aposentadoria para um atleta?
É um momento muito difícil. No meu caso, não estava nos meus planos. Eu programava me aposentar em 2012. Com as Olimpíadas no Rio, pretendia me aposentar em 2016. Só que eu vinha com algumas lesões, vinha não, venho até hoje. Tenho mais ou menos oito protrusões na hérnia de disco, duas patelas rompidas no joelho e não tinha mais condições de treinar. O ano de 2006 foi inteiro de fisioterapia, tentando me recuperar ao máximo. Cheguei à decisão de que não tinha mais como me recuperar, e chegou o momento de abrir o jogo, de falar a verdade e parar de nadar, pois não tenho mais condições de alcançar um objetivo.

Você nada por prazer hoje em dia?
Desde 2007 só entrei na piscina umas quatro, cinco vezes. Não sei “brincar” de natação. Eu sempre penso na possibilidade de voltar. Ainda não aceito a idade do meu corpo, nem as lesões. O ser humano tem um problema sério: tem a mente e o corpo. A minha mente ainda continua com vinte e poucos anos e se acha capaz de vencer uma prova de novo. Não do César (Cielo), mas de subir em um bloco e nadar bem. Mas preciso treinar muito. Tenho noção de que o meu corpo já não está nessas condições.

Você empresaria atletas?
Eu empresariei o César por algum tempo. Vou empresariar outro atleta nos próximos Jogos Olímpicos; ainda não posso revelar o nome, porque o processo está sendo finalizado. Tenho muitos contatos no meio esportivo e empresarial, mas faço esse trabalho pelo carinho de estar perto dos atletas no momento mais difícil da carreira, que é o momento olímpico.

Você teve essa assistência? Ela contribui positivamente no desempenho do atleta?
Não tive. Não vou dizer que faço a diferença, mas tenho um olhar de quem esteve naquela situação. Saio do papel do empresário, acompanho as competições, analiso as provas. Hoje, por trabalhar com isso, estou com visão mais crítica.

Como era lidar com a pressão? Em algum momento você pensou em abandonar a natação?
Pela pressão não, mas basta de cansaço emocional devido aos treinos e desgaste, sim. De todo dia ter que acordar e ser o melhor. Você nunca ouve um elogio do treinador. Geralmente, só bronca, para você não se acomodar. Chega um momento na carreira que você fala: “Não aguento mais”. Em 1993, um belo dia, acordei e falei para o meu técnico que não aguentava e não queria mais. Um dia depois, pensei: é a única coisa que você sabe fazer, a única que gosta. Voltei, continuei treinando e os resultados começaram a acontecer.

De que forma você encarava a derrota?
A derrota faz parte da carreira. Faz parte da vida. Não é um motivo para desistir. O problema é quando você tem uma responsabilidade muito grande com essa vitória (que era o meu caso) e a derrota não vai passar despercebida. Por exemplo, se eu voltar a nadar e quiser competir a Rio-2016 ou a seletiva, a imprensa e os fãs não vão aceitar que eu vá simplesmente curtir esse momento. Eles vão querer resultado, uma medalha, ou ainda, a classificação. Caso eu não consiga, isso vai sair como fracasso.

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