Falcão: brega e chique
Ele é natural da cidade de Pereiro, interior do Ceará, onde nasceu em 16 de setembro de 1957. Marcondes Falcão Maia, conhecido nacionalmente apenas como Falcão, iniciou sua carreira artística há 22 anos. Considerado por muitos um artista brega, por seus trajes espalhafatosos e pela tradução em inglês macarrônico da música “Eu não sou cachorro não”, de autoria de Waldick Soriano, diz que “I’m not dog no” nasceu como resposta à invasão das músicas americanas nas rádios FM. Formado em arquitetura, com oito CDs lançados, Falcão mostra nesta entrevista que não é apenas mais um humorista cearense em busca dos holofotes. Ao contrário, seu humor fino e cortante está sempre pronto para abalar estruturas do politicamente correto e estabelecido. Promete lançar ainda este ano um trabalho totalmente autoral e inédito. “Já tem muita gente fazendo regravações”, brinca. Aliás, projetos é que não faltam nessa cabeça, acostumada a transformá-los em polêmicas e composições.
Como foi a sua infância?
Somos em quatro irmãos, três homens e uma mulher. Eu sou um dos três, que se dizem homem. Passei toda a infância em Pereiro, cidade do interior mesmo. Na época, nem energia elétrica tinha. Era uma coisa bem rústica e bucólica, mas muito legal.
Como você passava o tempo?
Fui criado dentro de um sítio. Tomava banho de açude, andava de jegue, subia em fruteira e fazia tudo o que tinha direito. Jogava bola de gude, soltava pipa. Jogava futebol com bola de meia; nem bola de verdade a gente sabia o que era.
Por que se tornou um artista?
Na verdade, eu tinha essa coisa de querer ser artista; não de me apresentar, mas de ser compositor ou desenhista. Sempre gostei de desenhar, por isso fui fazer arquitetura. Terminei a faculdade em 1988, comecei a cantar no ano seguinte e lancei meu primeiro disco em 1990.
Você trabalhou como arquiteto?
Sim, eu e mais dois colegas de faculdade montamos um escritório de arquitetura, trabalhei lá durante três anos. Quando lancei o disco, e ele pegou no Brasil todo, tive que abandonar a profissão.
Qual música estourou?
Foi com a versão que fiz da música do Waldick Soriano, “Eu não sou cachorro não”, “I’m not dog no”.

Como foi a reação dele?
No início, quando ele ouviu, torceu um pouco o nariz, estranhou. Achou que era uma pegadinha, coisa para depreciar. Mas depois que conheceu melhor o meu trabalho, viu que era legal.
Chegou a ter contato pessoal com ele?
Antes de eu gravar o disco, fizemos um show juntos. Depois que a música estourou no Brasil inteiro, repetimos o feito algumas vezes. O acompanhei até o final de sua vida. Ele morreu em 2008.
Por que cantar em inglês?
A música “I’m not dog no” nasceu de uma sacada que tive. Na época em que foram lançadas no Brasil, as rádios FM só tocavam músicas americanas. Ninguém ouvia música em português. “Eu não sou cachorro não” era uma música brega de muito sucesso, apesar de ser uma história triste, de um sujeito abandonado. Resolvi fazer uma brincadeira. Deu no que deu.
A sua caracterização remete a algum personagem?
Eu não digo que seja um personagem, porque não mudo a minha característica psicológica. Mudo só a roupa. Como eu estava trabalhando com música rotulada brega e fui cantar em um festival, alguém deu a ideia de me travestir de brega. Então, subi no palco e deu certo. O povo gostou.
Em quem você se inspira para compor seu visual?
Isso é muito da minha personalidade. Eu sempre gostei de ser diferente, de inventar coisas, inclusive, de criar novos usos para certos objetos. Por exemplo, um porta-retratos, que muita gente usa em cima da mesa ou na parede, eu inventei de usar na roupa. Como comecei a fazer brincadeira em cima do que é brega, cafona, as pessoas também começaram a me trazer coisas que tinham em casa. Diziam que era da avó, da sogra, que achavam ridículo, e eu comecei a incorporá-las na minha indumentária. E cada vez está piorando mais.
Do que você não abre mão no seu visual?
Só não mudo o girassol; desse eu não abro mão. É o meu acessório mais representativo. Sempre estou mudando porque as coisas estragam. Algumas delas acabo perdendo e também faço trocas. Há fãs que pedem um adereço e dão outra coisa no lugar.
Qual o motivo do girassol?
O girassol foi presente de uma fã; coloquei na lapela e virou uma marca. Hoje em dia, tem gente que não sabe ou não lembra o meu nome, mas sabe quem é o cantor do girassol. Quando saio sem o girassol, sou cobrado. O pessoal pergunta: “Cadê o girassol?”. Faz parte do meu folclore, praticamente é sinônimo de Falcão.
E os óculos escuros?
Primeiro, é uma parte da vestimenta do brega legítimo. Waldick Soriano só cantava de óculos escuros, há outros bregas por aí que fazem o mesmo. Segundo, porque, além de ser uma marca, ele me protege, pois sou muito tímido. As pessoas não sabem para onde estou olhando… Quando você sai descaracterizado, as pessoas te reconhecem? Reconhecem. Não tem mais escapatória. Quando não reconhecem pelo visual, reconhecem pela voz ou pelo meu tamanho. Sou um cara que tem 1,96 m, não dá para passar despercebido.
Como você lida com o assédio dos fãs?
Acho muito legal. Não tenho o menor grilo com isso. Acho interessantíssimo o fã que se envolve, que pede autógrafo ou pede para tirar uma foto. Tem que dar toda a atenção a ele. É para os fãs que a gente trabalha.
Você apresenta um programa de entrevistas. Fale sobre essa experiência.
Apresento o “Leruaite Tauco Show”, que é exibido toda quarta-feira. Já está há cinco meses no ar. Leva o nome de um livro que lancei há alguns anos. Está fazendo muito sucesso no Ceará. Por enquanto é um programa local, mas há um projeto para lançá-lo na rede pública, na TV Brasil.
Como é o programa?
É um talk show com muita onda, brincadeira e música. Sempre interpreto minhas canções com uma banda que me acompanha.
Qual o perfil de seus entrevistados?
Entrevisto todo tipo de pessoa, não tenho o menor preconceito: político, artista, figuras populares, de qualquer orientação sexual ou religiosa. Não tenho esse negócio não. O interessante é que eu tenho facilidade de captar se o convidado vai render ou não. Se render, eu chamo para participar.
Você se considera um artista multimídia?
Com certeza. Eu gosto de me enraizar em todos os meios, principalmente na Internet. Tenho uma atuação razoável na rede com muitos seguidores. No meu Twitter, por exemplo, incentivo as pessoas a falar, mostrar o que pensam.

Quantos seguidores você tem? Você interage com eles?
No Twitter eu tenho 86 mil e uns quebrados. Todo dia interajo com eles. Talvez eu seja a pessoa que mais interage com os seguidores no Twiter por incentivar a conversa.
Você tem uma visão bastante crítica da sociedade. De que forma passa isso para quem acompanha o seu trabalho?
Eu procuro sempre ter essa visão; é uma coisa mais pedagógica do que crítica. O artista tem a obrigação de passar algo para o povo. No meu caso, as pessoas ouvem as músicas e acham engraçadas a breguice e as piadas que coloco nelas, mas no fundo sempre tem uma mensagem para o sujeito pensar.
Há ressentimento de sua parte porque a mídia não ressalta o lado crítico do seu trabalho?
Pois é. Eu sei que a mídia é da classe dominante, que faz de tudo para que o povo não saiba das coisas, e inclusive ficam podando o artista que tem algo a dizer. Apesar de não ser tão veiculado no rádio, sou um cara mais televisivo do que radiofônico. Tenho uma parcela de público que vai aprendendo com a Internet; eles sacam o que estou dizendo e fazem questão de divulgar o meu trabalho. Fora do Brasil, vários artistas trilharam um caminho marginal porque a mídia oficial não os aceitava, como é o caso de Frank Zappa e Bob Dylan.
O título de cantor brega o incomoda?
Não, porque fui eu mesmo que comecei com isso. Faço questão de dizer que sou brega, algo genuinamente brasileiro, que começou com os cantores nordestinos. O povo gosta, porque é popular, não é obrigado a ser lixo.
Aliás, falando de artistas de que o público gosta, o Ceará é um celeiro nesse aspecto.
Ceará tem aquela história de ser boom do humor, mas tem muita gente boa em todo o Brasil. Uma coisa que pouca gente sabe, é que tem uma cena de rock roll, heave metal, muito forte em Fortaleza.
Outros rótulos de machista, preconceituoso não correspondem ao sujeito Falcão?
Não, eu faço algumas brincadeiras com a comunidade gay, com os cornos, mas com as mulheres eu nunca mexi. Quer dizer, com as mulheres eu mexo por aí afora (risos). Faço brincadeiras, sou sempre respeitoso. Não sou de atacar gratuitamente. Cada um tem seu gosto.
Você é a favor das uniões homoafetivas?
Eu não sou contra, nem a favor, acho que cada um sabe o que faz.

