Daniel Piza
O mundo em resumo

Desde garoto, Daniel Piza já se mos-trava hábil com as palavras, fosse em forma de poemas, fosse em contos ou ensaios. Aos 13 anos, encheu um caderno de artigos sobre cinema. Tan-to talento não passou despercebido para Paulo Francis e Ruy Castro, que receberam seus textos enviados por sugestão do amigo e editor Flavio Landi. Meses depois, já colaborava com resenhas para o Estado de S. Pau-lo. Expoente do jornalismo cultural do País, procura ser sincero e honesto nas suas críticas bem fundamentadas. Nesta entrevista, ele fala sobre sua in-fância, hábitos de leitura, motivações e também a respeito de seu recente livro Dez Anos que Encolheram o Mundo, publicado pela Editora Leya.
Você estudou direito, mas seu desejo era ser diplomata. Como chegou ao jornalismo?
Como eu sabia inglês e francês, alguém deve ter me dito que ser diplomata seria adequado. Mas logo que entrei na faculdade de direito, vi que aquilo não era para mim. Na verdade, eu queria ser escritor e colaborar em jornais. Comecei a escrever no jornal da faculdade, até que um dia o editor, meu amigo Flavio Landi, sugeriu: por que não envia seus textos para os jorna-listas que admira? Fiz isso para Paulo Francis e Ruy Castro, e tive resposta. Iniciei escrevendo resenhas para o “Estadão”, e fui convidado a trabalhar lá, no Caderno 2, para escrever sobre livros e exposições.
Onde você nasceu e como foi a sua infância?
Nasci em São Paulo, em 1970, e sempre vivi aqui. Tive uma infância rica em experiências. Meu pai é médico, minha mãe professora de biologia; tenho três irmãos mais velhos, todos homens. Éramos sócios de um clube e, dos meus 5 aos 15 anos, tivemos uma chácara aonde íamos com frequência. Minha infância mistura esportes, sobretudo o futebol, com trilhas na mata, mergulhos em lagos, guerra de mamonas; sempre viajamos muito pelo Brasil. Estudei em bons colégios, tive muitos amigos de variados tipos, de boleiros a CDFs, como os nerds eram chamadas naquela época. Eu adorava desenhar – cheguei a fazer curso de pintura – e ler livros de história da arte, Monteiro Lobato e outros; e assistir aos programas do Jacques Cousteau. Pintura, literatura e biologia ainda continuam a me motivar muito.
Na época de estudante, você já flertava com o jornalismo?
Sempre quis escrever em jornais. Desde os 14 anos, eu lia os cadernos culturais e me imaginava colaborando. Mas eu queria fazer faculdade meio período para trabalhar, ganhar um dinheiro e morar sozinho.
Além de Paulo Francis e Ruy Castro, você se espelhou em mais alguém para criar uma iden-tidade profissional?
Citei os dois, ambos pela variedade de assuntos, texto ágil e opiniões fortes. Poderia citar também Millôr Fernandes, Ivan Lessa, Sergio Augusto. Li jornalistas de língua inglesa, que me marcaram muito, como H.L. Mencken, Bernard Shaw, George Orwell e Edmund Wilson. E na crítica de arte, sempre admirei muito Robert Hughes.
Como foi a formação e consolidação do seu conhe-cimento na literatura?
Com leitura mesmo. Sou um autodidata sistemático, ou seja, durante muito tempo fiz listas de livros que deveria ler em cada área, de ficção e não ficção, e das diversas literaturas (inglesa, italiana, francesa, russa etc). Também li os grandes críticos, dos cronistas aos formalistas. Durante um tempo, li os poetas dos grupos concretos e por meio deles me apro-fundei em críticos como Ezra Pound.
O que costumava ler na infância e juventude?
Na infância, lia Monteiro Lobato, Marcos Rey, alguns clássicos na escola. Aos 14 anos, deram para eu ler “Quincas Borba”, me apaixonei eternamente por Machado de Assis. Na mesma época, descobri Dostoiévski, mas lia também muita poesia e filosofia: Shakespeare, Baudelaire, Keats, Eliot, Russell, Sartre, entre outros. Na adolescência, me tornei um leitor voraz de verdade; cheguei a ler 200 livros em um ano. Hoje leio menos, mas muito e melhor..
Como os pais devem estimular seus filhos à leitura?
É preciso começar com livros que envolvem aventuras ou dilemas morais, autores como Mark Twain, Edgar Allan Poe e Oscar Wilde, que mexem muito com o adolescente. Ler os autores do idioma, até para dominá-lo melhor, como Macha-do, Pessoa, Drummond, Cabral, Graciliano. E aí partir para os chamados “grandes clássicos”, como Tolstoi, Balzac, Proust.
Por que muitas pessoas, à medida que envelhe-cem, perdem o hábito da leitura?
A desculpa é de que não têm tempo, porque preci-sam ganhar dinheiro e cuidar da família, mas tempo sempre se acha, tanto que a maioria gasta horas diante da TV e do computador. Acho que é preguiça e cansaço; é a suposição de que não precisam con-tinuar aprendendo ou só devem ler o que é da sua área. Isso é muito cultural. Em outros países, ricos como Finlândia ou pobres como Rússia, a leitura é hábito muito mais comum e espalhado.
Quando passou a escrever resenhas, de que forma reagia a possíveis críticas?
Bem, sou crítico e procuro ser muito sincero e honesto; se não gosto de um livro, digo e tento fundamentar. Logo, só posso ser tolerante com a crítica. Ao mesmo tempo, como sou do ramo, sei muito bem quando a resenha é escrita com má-fé, quando o resenhista não leu, quando leva para o lado pessoal… E aí reajo, pois a crítica também deve ser criticada. O importante é ter critérios e jogar limpo
Já desenvolveu trabalhos de que não gostou?
Não, só topo um projeto se aquela curiosidade já existia em mim, e se há o desafio de tratar de um assunto e um ângulo que não foram abordados. De alguns trabalhos gosto mais, porque são o sonho da vida inteira, como a biografia de Machado de Assis e a coletânea de aforismos. Em outros, eu mexeria uma coisa ou outra numa nova edição, pois sempre ocorrem lapsos, errinhos bobos, mas não mudaria o teor e opinião. E há alguns que considero os mais bem escritos, como Mistérios da Literatura e os contos de Noites Urbanas, que não foram bem distribuídos e não tiveram muitos leitores. Mas os poucos que leram gostaram muito.
Há algum tema com que você não se identifica?
Como diz o subtítulo do meu blog, meus temas são cultura, futebol e, vá lá, política. Em cultura, trato muito de livros, filmes e CDs, já que são poucas as boas exposições. Futebol e política me permitem ampliar a crítica cultural para temas da sociedade, não necessariamente das artes e dos livros, e entender aspectos da mentalidade brasileira que servem também ao jornalismo cultural. Aprendi muito sobre o Brasil acompanhando sua relação com ídolos de futebol. Interesso-me por muitos outros temas, como biologia, mas há diversos assuntos sobre os quais não escrevo: engenharia, finanças, direito. Gosto de variar temas justamente para não me enfadar de nenhum; digo sempre que é meu plano de saúde contra o tédio.
Quando começou a escrever livros? Como é o pro-cesso de criação?
Iniciei vários livros na adolescência; contos e aforismos, romances inacabados. Mas fui escrever o primeiro livro, um romance juvenil sobre Picasso, As Senhoritas de Nova York, a convite da Editora FTD. E cinco dos meus livros são coletâneas do meu trabalho em jornais. Este livro recém-lançado, Dez Anos que Encolheram o Mundo, foi ideia da Editora Leya, que queria um livro sobre a década, mas eu dei forma e fundo a ele. Na maioria, são sugestões que eu faço às editoras. Tenho procurado também variar gêneros: ficção juvenil, ficção adulta, reportagem, ensaio, aforismo, biografias. Falta ainda um romance para o público adulto.
O livro tem a ver com seu trabalho atual?
Sim, veio do meu trabalho como colunista que procura refletir e conectar os vários aspectos da atualidade. Os organizei em temas e tópicos, com algumas ideias de fundo para amarrar as tendências, para contextualizar e aprofundar os fatos e fenômenos do período.
Ele é retrospectiva dos últimos dez anos? Qual a diferença dele para outras publicações do gênero?
Ele não é uma retrospectiva no sentido de apenas alinhar os diversos nomes e acontecimentos; é uma retrospectiva analítica, uma “pensata” sobre a década. É um livro que não tem igual nem no Brasil, nem em outros lugares que eu tenha visto. A contribuição é jus-tamente apontar tendências comuns, como as questões da informática, dos emergentes e do ambientalismo, e mostrar como quase todas as previsões falharam. Muitas coisas não foram devidamente observadas. Vale a pena observar para a gente cuidar melhor do futuro.
É desafiador escrever, por exemplo, a morte de Bin Laden?
Eu chamo de escrever “história quente” e, claro, é um desafio e tanto. Muito mais difícil do que escrever sobre um ano considerado marco histórico. A morte de Osama, porém, aconteceu depois do livro pronto, mas serviu para mostrar o que se passou nestes quase dez anos, desde o 11 de setembro de 2001. Se Obama chegasse vivo ao décimo ano do atentado, os EUA seriam cobrados por isso. Para eles, a morte teve grande papel simbólico.
Qual o fato que de alguma forma mudou o rumo da história?
Os atentados, obviamente, pois ninguém imaginava que os filmes de desastre em Nova York fossem virar reali-dade. Mas a ascensão da China, onde estive em 2008, é um assunto fascinante; assim como nosso cotidiano foi dominado por computadores. Não só pelos meios de comunicação e informação virtuais, como a Internet, mas também em cada uma das profissões. Jornalistas, arquitetos, biólogos, economistas – hoje em dia, todos dependem da tecnologia para trabalhar
Você acalenta algum outro sonho no campo literário?
Tenho alguns projetos, inclusive, uma biografia do gran-de pintor Iberê Camargo, mas, como disse antes, quero escrever um romance; não de época. Ele se passará em São Paulo em tempos recentes
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