Cristina Flória

por: Margarete Azevedo

Uma lente sobre a cultura Xavante

Cristina Flória Fotógrafa, produtora e socióloga, Cristina Flória, 51 anos, nasceu em Ribeirão Preto (SP), onde teve o primeiro contato com povos indígenas. Mudou-se para São Paulo, para cursar Ciências Sociais na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), mas não abandonou a causa. Concluído o curso, engajou-se a ela através de um trabalho que desenvolvia na ONG Núcleo de Cultura Indígena, em que atuou até 1998. “Eu tive a oportunidade de conhecer várias etnias e lideranças, inclusive, os xavantes, com quem mantenho até hoje uma série de atividades”, relata. Em 17 anos de trabalho, participou de diversos projetos, entre eles, os documentários “A’uwe Uptabi – o Povo Verdadeiro” (1999), em que assinou a codireção, e “Piõ Höimanazé – a Mulher Xavante em Sua Arte” (2008). O primeiro documentário tratava dos 50 anos de contato com a etnia. Trazia depoimentos dos mais velhos, que relataram o primeiro contato com o warazu (estrangeiro branco), aquele que não é A’uwe. Os xavantes se autodenominam A’uwe, povo verdadeiro. Segundo ela, o documentário e o livro revelam o quanto foi traumático esse contato. “Os xavantes sempre foram guerreiros e defenderam o seu território de todas as maneiras possíveis, porém, perceberam que se não se pacificassem com os warazu seriam extintos.”

O que é o documentário “Piõ Höimanazé – a Mulher Xavante em Sua Arte”. Como surgiu a ideia?

É um documentário inédito sobre as mulheres xavantes. Pela primeira vez, elas estiveram diante de uma câmera falando para um warazu sobre questões femininas da etnia. Eu tinha curiosidade de conhecer, de me aproximar delas, pois o meu trabalho dentro da comunidade sempre foi com os homens.

Qual a importância da mulher na etnia? Há um protecionismo com os homens, que estão sempre à frente da liderança?

Não é protecionismo. O papel feminino é muito forte em toda a estrutura de sobrevivência, inclusive, na alimentação. Embora os homens sejam os líderes, e elas não participem fisicamente das decisões, as mulheres sabem tudo o que acontece e também opinam por intermédio dos maridos, que integram o warã.

E quanto a questão da hierarquia?

Cristina FlóriaTodas as comunidades têm um respeito muito grande pelos mais velhos. Entre a etnia Xavante não existe a figura do pajé. Os homens mais velhos integram um conselho denominado de warã. Os líderes (caciques) se reúnem duas vezes diariamente. Eles têm uma relação muito democrática; tudo é decidido ali, de questões do cotidiano aos rituais, toda decisão é tomada comunitariamente.

Como as mulheres da comunidade lhe deram confiança?

Eu acredito que se deu pelo desenvolvimento de anos de trabalho junto à comunidade. Embora os interlocutores sejam os homens, as atividades sempre foram voltadas para todos. Durante o documentário, elas foram muito receptivas. Era importante poderem falar; e ter a oportunidade de se colocarem.

Quantas vezes você foi à comunidade Etenhiritipa, até a conclusão do documentário?

A equipe de produção foi quatro vezes à comunidade. As nossas idas eram determinadas pelas estações do ano, que por sua vez delimitam as atividades. Toda a cultura xavante está relacionada ao meio ambiente.

Membros da etnia fizeram parte da equipe de produção, alguns atuam profissionalmente como videomakers. Eles têm um olhar diferenciado do warazu?

Eles enriqueceram o trabalho. Mesmo para as mulheres era importante ter pessoas da comunidade por perto. Mas houve momentos em que somente eu e o Jorge Protodi, que é Xavante, estávamos juntos delas. Havia segredos que elas não queriam revelar para a comunidade, embora soubessem que o documentário teria um alcance maior. Chegaria, inclusive, para os warazu.

O que era o Warã Piõ?

Para desenvolver o projeto criamos o Warã Piõ, uma reunião diária com as mulheres. Piõ significa mulher. Nesses encontros, decidíamos os planos de trabalho entre a nossa equipe e as mulheres A’uwe. Elas coordenaram; estipulavam o que gostariam de falar, e mostrar os locais dentro do território. Em nosso primeiro Warã Piõ foram eleitas 11 mulheres para coordenar e protagonizar todas as etapas do trabalho dentro da comunidade, e durante o percurso se tornaram 12.

O que mais te surpreendeu nessa convivência?

Cristina FlóriaDurante estes anos todos, me surpreende que esteja sempre aprendendo. As pessoas têm muito a aprender com os xavantes, mas eles são pouco ouvidos. Muita gente acha que o índio vive de forma primitiva, mas eles têm uma sabedoria muito grande, principalmente os mais velhos. Essa convivência sempre traz muitos benefícios e aprendizados.

Qual seria o principal benefício?

O respeito. Eu acredito que o respeito é algo muito importante. Respeitá-los nas suas individualidades, nas suas diferenças. Vê-los como seres humanos como nós, com desejos, vontades. Aprender também como viver na necessidade. As culturas indígenas são pouco assistidas; as necessidades são muito grandes, principalmente na saúde. Faltam remédios e assistência médica nas comunidades. A situação é mais precária do que na nossa sociedade.

Depois de passar um mês imersa no trabalho junto à comunidade Xavante, é mais difícil ir ou voltar? Qual é a sensação do retorno à “civilização”?

Voltar é mais difícil porque o tempo lá é outro. Em São Paulo somos muito acelerados, vivemos em constante estresse, o que não é bom. Quando você chega lá também é complicado, mas é mais fácil desacelerar. Em geral, eu preciso de uma semana para me recompor, para entrar no ritmo da capital.

Você sente saudade do conforto e da comodidade urbana?

Cristina FlóriaNão, mas eu sei que há pessoas que iriam e não conseguiriam se adaptar nas aldeias. Eu gosto de estar no meio do mato. Para mim, aquele lugar é muito importante. Ele tem um significado amplo, não só pelos xavantes, mas pelo espaço, como em todo o Cerrado. Claro que as dificuldades são muito grandes em tudo. Como eu falei, a adaptação não é imediata.

Como você observa a relação do índio com a tecnologia?

A cultura é dinâmica e incorpora coisas que são muito importantes, por exemplo, a Internet e o celular. Muitas pessoas falam, “os índios agora estão usando roupas, celulares; não são mais índios”. Na minha opinião, essa é uma visão equivocada. A incorporação dessas tecnologias ajuda não só na manutenção de sua cultura, como também na sua sobrevivência. A Internet auxilia na comunicação entre as aldeias. Não podemos esquecer que existem 220 etnias indígenas no Brasil. Os índios não são iguais. São povos diferentes com cultura e línguas faladas diferentes. No total são 180 línguas; eles não têm uma língua comum

Qual o desafio dos líderes para manter as tradições?

O desafio para essa nova geração é muito grande, em especial, no que se refere às terras indígenas. Em Pimentel Barbosa, área com 329 mil hectares, a devastação avança. As aldeias xavantes vivem da caça; com o entorno sendo desmatado, o único lugar que sobra para a prática é a própria reserva. Fala-se que há muita terra para pouco índio, mas não é verdade. Os índios têm uma relação com a terra, com o meio ambiente, muito diferente da nossa. Eles são os grandes preservadores das áreas verdes. Dispõem de economia autossustentável, técnicas de manejo, sabedoria para lidar com a natureza. O desmatamento é muito prejudicial. É ameaça não só para as populações indígenas, mas para todos os seres humanos.