Carlos Nobre

por: Margarete Azevedo

Ambiente favorável ao Brasil


Carlos Nobre

Pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), coordenador da Rede Clima e integrante do Painel do Clima da ONU (IPCC) e do Programa Internacional da Geosfera-Biosfera International Geosphere-Biosphere Programme (IGBP), Carlos Nobre é também referência nos estudos sobre clima e Amazônia, onde realizou pesquisas pioneiras sobre os impactos climáticos do desmatamento. Em fevereiro último, assumiu a pasta da Secretaria de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT). Vai atuar na implementação do Sistema Nacional de Alerta e Prevenção de Desastres Naturais. Doutor em meteorologia pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), ele traz no seu currículo um Prêmio Nobel da Paz como um dos autores do Relatório de Avaliação do IPCC. Aqui, Nobre aborda aspectos relacionados ao aquecimento global e fala sobre a atuação do Brasil nas negociações internacionais de mudança climática.


Quando se fala em aquecimento global, invariavelmente, vem à tona a questão da redução na emissão de carbono. O Brasil conseguirá atingir as metas de redução em termos percentuais de 36,1% a 38,9%, previstas para 2020? É correto afirmar que o desmatamento é a principal causa de emissões de carbono no País?

O Brasil é um dos poucos países com metas claras para reduzir suas emissões. E tem feito sua parte, se considerarmos que uma queda substancial e consistente do desmatamento vem sendo verificada desde 2004, quando foi criado pelo governo federal o Plano para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia (PPCDAM). Um elemento muito importante deste Plano o monitoramento em tempo quase real de desmatamentos (DETER) se deve à iniciativa do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), que naquele ano criou este sistema de detecção de desmatamento, permitindo aos órgãos de fiscalização tomar ações rápidas e eficazes de combate ao corte ilegal. Isso significa muito, pois o desmatamento e as atividades a ele associadas são, de fato, as principais causas das emissões no Brasil. Planos setoriais para redução ou diminuição do ritmo de aumento das emissões estão sendo desenvolvidos para agricultura, energia, indústria, resíduos e usos da terra. Implementá-los constitui-se em grande desafio, porém, deve ser vencido se o País deseja firmar-se como um dos líderes mundiais na transição para uma economia de baixo carbono, a chamada economia verde.


O Brasil figura hoje entre os maiores emissores de carbono e metano do mundo. Como é realizada essa medição? Qual método é aplicado?

Antes, é preciso dizer que o Brasil diminuiu consideravelmente sua parcela nas emissões mundiais devido à redução no desmatamento observada nos anos recentes. Sendo assim, não se pode mais afirmar que o Brasil seja o terceiro ou quarto maior emissor. Cada país é responsável pelo inventário de suas emissões, e o faz de acordo com a metodologia sugerida pelo IPCC, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU.


Por que o Brasil é considerado, muitas vezes, tão vilão quanto à China, país campeão na queima de combustível fóssil?

Não se pode colocar o Brasil no mesmo patamar da China, país hoje líder das emissões mundiais. Como dito acima, nos últimos anos, temos reduzido nossas emissões relacionadas a desmatamento. Embora tenha havido algum crescimento em nossas emissões por combustíveis fósseis, no Brasil, este fator é menos significativo porque nossa matriz energética é mais “limpa” do que a maioria dos países do mundo, já que a maior parte da energia elétrica vem de fontes hídricas. O potencial brasileiro em fontes renováveis, como energia eólica ou solar, é enorme e necessita ser aproveitado mais rapidamente.


Os demais países têm feito a “lição de casa”?

A falta de acordos globais para redução de emissões mostra que, em termos mundiais, continuamos a andar na contramão da trajetória de sustentabilidade.


Qual a sua opinião sobre a atuação do Brasil nas negociações internacionais de mudança climática?

O Brasil cada vez mais se coloca no centro das discussões climáticas e ambientais. E não pode ser diferente, pois trata-se de um país com plenas condições de se projetar mundialmente como uma potência ambiental tropical.Temos abundância de recursos naturais renováveis: água, extensão territorial e costeira, áreas agriculturáveis, florestas e inigualável biodiversidade, mas precisamos usar nossas vantagens naturais com responsabilidade. Um sistema de Ciência e Tecnologia de excelência, para conhecer e acompanhar a evolução de nosso território e utilizar sustentavelmente nossos vastos recursos naturais, pode nos levar ao posto de primeiro país tropical de grandes dimensões, desenvolvido, e servir de paradigma aos demais países tropicais.


Atualmente, as exportações do agronegócio geram superávit. O Brasil configura-se como maior 16 exportador de carne bovina do mundo. Parte dessa produção é feita de forma ilegal e com frequência assistimos à degradação de novas áreas para abrir pastagens ou mesmo para o plantio de soja. Os setores produtivos e o governo estão atentos à necessidade de adaptar-se às mudanças climáticas? É possível ser produtivo sem degradar a paisagem e impactar o meio ambiente?

Um grande desafio para as políticas públicas relaciona-se à redução da expectativa de impunidade nas práticas de ocupação de terras da União, bem como nos crimes e nas infrações ambientais. Há uma relação clara entre essa impunidade, a especulação fundiária desenfreada e a degradação das florestas, especialmente na Amazônia. Outra questão séria diz respeito justamente à necessidade de adaptação. O País já é uma potência agrícola, mas as mudanças climáticas impõem claros desafios. As projeções atuais indicam diminuição da produção da maior parte dos alimentos em resposta a essas mudanças climáticas, principalmente, devido a mais frequente ocorrência de extremos climáticos, causa principal de quebra de safras. A agricultura brasileira deve repensar e buscar aumentar sua capacidade de adaptação às mudanças climáticas. Sem dúvida, é possível ser produtivo causando menos impacto ao meio ambiente, mas isso exige investimento em Ciência e Tecnologia.


Os movimentos ambientalistas nacionais têm a mesma influência política das ONGs internacionais? Qual a importância destes canais?

Embora não tenham a mesma projeção de certas ONGs internacionais, os movimentos ambientalistas nacionais têm ganhado força na medida em que a própria sociedade está mais consciente. Pesquisa recente demonstrou que o brasileiro é um dos povos mais preocupados do mundo em relação ao aquecimento global. Os movimentos ambientalistas são importantes para mobilizar cada vez mais a sociedade, cobrar dos governos as medidas necessárias de mitigação e adaptação às mudanças climáticas e engajar plenamente a sociedade em trajetórias sustentáveis de desenvolvimento.


A pressão popular poderá ser necessária na adoção de medidas que visem minimizar o aquecimento global?

Todos os setores da sociedade devem se engajar construtivamente para reduzir o impacto sobre o ambiente e buscar ativamente desenvolver a capacidade adaptativa às mudanças climáticas. As grandes empresas e setores que mais emitem gases de efeito estufa (GEE) vão mudar mais rapidamente seus padrões de emissões, quando o usuário não quiser mais consumir energia ou produtos com um padrão alto de emissões. A melhor maneira de diminuir os desmatamentos, por exemplo, é o consumidor de produtos vindos da Amazônia e dos cerrados (principalmente carne, madeira e soja) exigir certificação da origem destes produtos, como demonstração de que não provêm de desmatamentos ilegais.