Eduardo Bueno, o “Peninha”
Brasil, um livro em aberto

“A história do mundo e a do Brasil, em particular, está cheia de ladrão”
Até o sucesso do livro A Viagem do Descobrimento, o jornalista gaúcho Eduardo Bueno, o “Peninha”, era mais conhecido pelas traduções do clássico da década de 50, On the Road (Pé na Estrada), de Jack Kerouac; e de outros autores do movimento, como Allen Ginsberg e Willam Burroughs. “Que história é essa?”. Era a pergunta que mais ouvia de quem sempre o identificou com a chamada cultura beatnik americana. O que eles não sabiam é que, desde criança, Bueno sempre teve curiosidade pelo modo de vida dos povos. Começou pelos egípcios e chegou até os nossos índios, no período em que era “meio hippie”, aos 17, 18 anos, e frequentava as praias ainda virgens do litoral catarinense. Imaginavase também índio e tentava analisar o momento em que esses indígenas tomaram contato com os homens brancos. Aqui, mais detalhes de sua obra e do relançamento de seu primeiro livro Brasil: uma história (foto).
Você foi um bom aluno?
Eu fui um péssimo aluno no colégio. Sou até meio traumatizado com a minha experiência escolar. Há pouco tempo escrevi um livro chamado Meu Pequeno Brasileiro, que é sobre um garoto que adora história e futebol. Nele, pude exorcizar um pouco disso. O personagem se questiona sobre o que vai aprender no colégio, por que tem que ir para aula, por que não ensinam nada que ele se identifique e tenha ligação com a sua vida. Isso tudo reflete um pouco da minha experiência. Sempre gostei de História desde criança. Ia para o colégio meio de má vontade com as outras disciplinas.
Foi daí que veio o interesse pela história nacional?
Com 8, 9 anos, eu era apaixonado pela história egípcia. Comprei livros sobre o Egito Antigo, com meu próprio dinheiro, e escrevi meu primeiro livro, eram dois cadernos espirais de 100 folhas. Neles, reuni compilações, anotações e recortes de álbuns de figurinhas sobre o Egito. Pouco tempo depois, passei a me interessar pela pré-história, inclusive, comprei o livro A pré-história, de Graham Clark, que é um clássico sobre o assunto. Com uns 12 anos, entrei numa com a pré-história brasileira e adquiri o livro O Homem das Cavernas de Minas Gerais, de Aníbal de Mattos.
Se gostava de História, por que optou pelo jornalismo?
Na verdade, eu também tinha um fascínio pelo jornalismo. Primeiro, porque gostava de escrever; segundo, porque tinha esse perfil investigativo; terceiro, porque vi que como profissão, História não ia dar frutos tão rapidamente quanto poderia dar o jornalismo. Era fanático também por futebol, como de certa forma ainda sou; com 17 anos, comecei a trabalhar no jornal Zero Hora, de Porto Alegre. Juntei a minha paixão por futebol, com o fato de querer escrever e trabalhar. Caso eu cursasse História, primeiro teria que fazer toda a faculdade para só depois começar a trabalhar efetivamente.
O livro Brasil: uma história foi atualizado?
Ele tem um capítulo sobre a pré-história brasileira, até por conta do meu interesse no assunto, e abrange até o segundo mandato do presidente Lula. Terminei a obra em agosto. O livro traz episódios recentes, por exemplo, a aproximação de Lula com o líder do Irã, Ahmadinejad. Eu reli todo o livro e mudei vários trechos. É quase uma bênção para um escritor poder fazer isso. Você como jornalista sabe. Quando fazemos uma matéria, depois de vê-la publicada concluímos: “Ih, poderia ser melhor”. Um livro traz isso mais acentuado. Não adianta conferir as provas impressas. A ficha só cai quando ele já está pronto. Só que é tarde demais para mudar.
Como separar o faz de conta do que é real?
Primeiro quero fazer uma ressalva: não sou historiador. Sou um escritor de formação jornalística, que escreve com base nessa formação. Mas tanto o jornalista quanto o historiador têm o dever, a obrigação, de se manter o mais próximo possível da verdade factual dos acontecimentos. Essa verdade que é fugidia só pode ser obtida por meio de provas documentais. E, felizmente, a História do Brasil é repleta de documentos. Há registros desde o momento em que Cabral desembarca aqui. Exemplo disso é a carta de Pero Vaz de Caminha e de outras duas cartas menos conhecidas, também importantes, escritas por dois outros membros da expedição de Cabral. Brasil: uma história é feito todo com base em pesquisa documental.
Encontrou muitas contradições?
Muitas. A verdade histórica – com V maiúsculo – não existe. Todo mundo que estuda História sabe disso. A história é uma fabricação, uma fabulação. Não significa que ela não esteja baseada em documentos relacionados com fatos que ocorreram. A questão é que, primeiro, esses documentos já são uma interpretação de quem registrou ali na hora; segundo, o historiador se baseia na sua própria interpretação dos documentos. A História é construída por quem a escreve. Há visões conflitantes e contraditórias; cabe a quem escreve fazer uma análise.
Como despertar o interesse da garotada (e também de muitos adultos) que não curte a temática?
O único jeito é deixar claro que a história é feita por pessoas de carne e osso. Gente que come, bebe, dorme, rouba. A história do mundo e a do Brasil, em particular, está cheia de ladrão. Desde o começo existe corrupção, desvio de verba pública, safadezas, dominação e exercício de poder. Mas também há pessoas decentes. Todos, bons e maus, são figuras humanas com necessidades humanas. O único jeito que a História pode competir com a mentalidade dessa garotada, acostumada a viajar virtualmente, é fazê-las entrar no túnel do tempo, transportando-as para aquele momento, aquela ação.
O pedido de emprego para um sobrinho, feito por Pero Vaz de Caminha abriu espaço para o nepotismo no Brasil?
Esse é um dos tantos mitos que o Brasil criou a respeito de si próprio. O Caminha era um sujeito decente e digno. Eu o venero. Ao contrário do que se diz, em momento algum ele pediu emprego. O que ocorreu foi o seguinte: o marido de sua filha estava no degredo, em uma das ilhas do arquipélago do Cabo Verde, um lugar pantanoso, horroroso, repleto de febres e com crocodilos que atacavam as pessoas. Ele tinha agredido um padre, dado um soco na cara de um religioso em uma igreja em Portugal. Alguma coisa esse padre deve ter feito. O Caminha solicitou ao rei que o degredo fosse suspenso. O rei atendeu a seu pedido e o genro foi liberado. Mas ele não o viu, pois morreu em Calicute, Índia, durante essa mesma viagem. O Caminha nos legou uma carta espetacular, a do Descobrimento, que todo mundo deveria ler. Estudei bastante a sua vida, tudo o que se pode saber sobre ele, eu li.
Quando surge o nepotismo?
O nepotismo começa a aparecer com intensidade, a partir de 1549, quando o Governo-Geral se instala no Brasil. Eu trato esse tema no livro A Coroa, a Cruz e a Espada, quarto volume da coleção Terra Brasilis. Lá há vários exemplos de pedidos de empregos, troca de favores, compadrio, desvio de verba.
Existe algum ponto obscuro que precisa e merece ser revisto?
Dezenas. A história do Brasil é um campo aberto para investigações. Do período colonial, por exemplo, há um personagem chave da história de São Paulo, João Ramalho. Ele já morava na localidade antes da chegada de Martin Afonso de Souza, ou seja, anterior à fundação da cidade. Ninguém sabe como ele chegou ao Brasil, se era um náufrago, um degredado. É um sujeito fascinante. É o primeiro paulista. Outro tema não esclarecido foi a morte do PC Farias (Paulo César Farias, tesoureiro de campanha de Fernando Collor de Mello e Itamar Franco), em 1996.
Há influências dos degredados enviados para cá?
Na minha opinião, a herança pesada se deve muito mais a uma estrutura burocrática de Portugal, que esteve desde o início ligado ao nepotismo, ao desvio de verba e ao compadrio. Em vez de sanar, o Brasil incorporou essas práticas e as juntou aos seus defeitos, mais do que os degradados. Não que eu tenha uma visão romântica deles. Vieram muitos para cá, foras da lei, malfeitores e ladrões, que prejudicaram a ordem durante as capitanias hereditárias. Há outros condenados injustamente.
Qual o legado positivo deixado por nossos colonizadores?
Os portugueses deram aos brasileiros o jeitinho, a malemolência, a plasticidade. O brasileiro reage com ginga a situações adversas, se adapta às diferentes circunstâncias. Os portugueses eram um povo extremamente adaptável ao Novo Mundo que encontraram, não só nas Américas, como também na África e na Índia. Mas eles eram bem rígidos e aprisionados a uma burocracia estatal da qual nunca conseguiram se livrar. O Estado sempre interveio na vida deles, tanto em Portugal quanto no além-mar. Na vida cotidiana, eram muito abertos. Herdamos isso deles, é maravilhoso. É um dos predicados dos brasileiros – não somos holandeses, nem franceses, nem alemães.
Na sua opinião, até quando vamos viver em um canteiro de obras neste país permanentemente em construção?
Depende muito de nós. Mas eu acho que a gente tem desperdiçado tantas oportunidades, que a nova geração vai continuar vivendo nisso. O País ainda tem um longo caminho até construir uma cidadania efetiva. No Brasil há uma imensa desigualdade na distribuição de renda, uma enorme desigualdade social; o exercício de cidadania ainda é frágil. Eu escrevo sobre História justamente por isso. Para ver se consigo ajudar a nova geração a exercer seus direitos como cidadão. Mas como cidadão, a pessoa não tem apenas direitos, ela também tem deveres. E o brasileiro ainda tem uma noção muito frágil de cidadania. Eu acho que a gente ainda vai viver uns bons 40, 50 anos como uma nação em construção.
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