Beto Hora
O barato da imitação
Filho de pai militar, Beto Hora, 47 anos, sempre foi o mais engraçado da turma e também o mais inconsequente. Gordinho – “ninguém vai querer ficar comigo mesmo” – não impunha limites às suas tiradas. Desde muito jovem, os amigos o incentivavam a levar a sério o que costumava fazer, o tempo todo, brincando. Estreou na Rádio Jovem Pan/AM, de São Paulo, no programa “Djalma Jorge Show”, personagem de Tutinha, filho do dono da emissora. Atualmente, é o destaque do programa “Na Geral”, da Rádio Bandeirantes/ AM, há mais de dez anos no ar. Imita cerca de 340 personalidades, de Pelé ao padre Quevedo. Além disso, empresta sua voz a muitos comerciais publicitários e a vários personagens criados por ele mesmo para seus programas e shows. Aqui, ele fala sobre sua infância, do processo de criação de personagens e a função do humor, entre outros assuntos.
De onde vem seu nome artístico?
Wilson Roberto da Hora Santos virou Beto Hora. Nasci no Jardim Maringá, zona leste de São Paulo, no dia 31 de maio. Tenho duas irmãs mais velhas, Tânia e Kátia. Sou filho de nordestinos vindos para São Paulo, antigamente o bicho pegava. O meu pai era da polícia, assim mesmo tive uma infância maravilhosa.
Qual era o seu sonho de infância?
Eu sempre sonhei em ser aviador. Gostava muito de voar, das coisas de aviação. Com o tempo, fui crescendo e caí na realidade de que não era um bom negócio. O bom negócio era ficar em casa. Na verdade, eu nunca gostei da relação empregado-patrão; não me adaptei a isso. Sempre quis ter o meu próprio negócio, e batalhei por isso até por ser uma criança tímida. Tentei absolutamente tudo o que se possa imaginar para trabalhar e acabei caindo no humor sem querer.
Contrariou as expectativas de seu pai?
Meu pai queria que eu fosse médico. Quando cheguei em casa, com o primeiro salário que ganhei fazendo humor, ele falou: “Fazer o que você faz, eu até aceito, mas achar quem pague, eu acho incrível”. Ele já faleceu. Mas tinha muito orgulho de mim, com certeza era um fã.
Como foi parar na rádio Jovem Pan?
Foi em 1988, 1989. Fiz um teste para o programa “Djalma Jorge Show”, onde passei a fazer humor profissionalmente e não parei mais. Na mesma época, comecei a desenvolver vozes para a publicidade pelas mãos do Antônio Viviani, que me apresentou ao Zé Rodrix e ao Tico Terpins, então donos da produtora Voz do Brasil, de São Paulo, ambos já falecidos. Certo dia, reencontrei dentro de um avião o Alaor Coutinho, músico do programa Show de Rádio e um humorista fantástico, muito inteligente. Começamos a fazer um show juntos, até que no ano de 1995, 1996, perdi a voz.
Como você lidou com essa experiência?
Senti muito medo. Fui participar de um congresso e a Mara Behlau (fonoaudióloga), falou que queria me ver no dia seguinte, no hospital. Descobri que tinha um pólipo nas cordas vocais. Meu mundo caiu. Passou um monte de coisas horríveis pela minha cabeça. Perdi a capacidade de imitar porque a minha voz ficou rouca. À medida que forçava, o quadro piorava. Quais os cuidados no dia a dia para manter a saúde vocal? Uma das coisas mais importantes que aprendi foi o modo de falar. Falo numa região confortável. Brinco com a voz do jeito que quero, mas mantenho um padrão adequado.
Como se chama o seu show?
“Não Recuse Imitações”, que consiste na imitação de cantores. Desenhamos esse show corporativo na época em que o Clodovil fazia um programa chamado “Clodovil em Noite de Gala”. O programa não existe mais, ninguém saca isso. Quais personagens você criou para o programa “Na Geral”? Tem o seu Geraldo, que é um nordestino, tio do Vampeta. Começou com uma homenagem ao Ariano Suassuna e se transformou em um cara totalmente louco, mentiroso. Tem também a Dona Inês, uma pessoa muito simples, que ao longo do tempo foi conquistando espaço dentro do programa. Há muitos outros.
Como é o seu processo de criação?
O dia a dia me dá muita coisa. Por exemplo, um amigo meu estava reformando a sua casa e me convidou para ir até lá. A mulher do pedreiro ligou para saber o que o marido queria comer. Ele disse: “Ah, eu quero comer frango. Ela falou: “Frango não. Você não está sabendo da febre da Ásia?” Naquela época, tinha a tal da gripe do frango. E o pedreiro mandou essa: “Ó, corta as ‘asia’ e faz o resto do frango”.
Na Bandeirantes, você tem liberdade para criar?
A rádio me dá essa abertura. Ela já conhece o meu tipo de humor. Não existe essa classificação, mas eu chamo de humor infanto-geriátrico. Não uso palavrão, não gosto dessas coisas. O palavrão só tinha graça em 1969, quando o cara saía do teatro preso. Eu queria ver macho falar um palavrão naquela época. Agora não, está muito gratuito. Eu fujo exatamente do lugar comum.
Já fez alguma piada de que as pessoas não riram?
Às vezes, isso ocorre porque a pessoa não está prestando atenção ou quando a piada é muito rápida. Eu me lembro que uma vez contava uma história: “a partir de amanhã, vocês vão ouvir a história de Maria, uma portuguesa que estava grávida e desconfiava que o filho não era dela”. Não houve nenhum efeito. Demorou para cair a ficha.
Como percebeu que tinha a habilidade de imitar?
Eu sou músico de botequim, e como músico amador tinha muita dificuldade de transpor a nota do cantor para o meu tom de voz. Assim, eu tentava fazer com a voz do cantor. Isso foi me dando uma elasticidade vocal para imitações.
Você recorre a gravações de entrevistas?
Sim. Você tem que pegar a ideia do cara. Por exemplo, se eu disser José Wilker, imediatamente você “linka” ao assunto de que ele gosta de falar, que é cinema. Não adianta eu colocar o José Wilker para falar de outra coisa. Porque não vai ter uma boa recepção. Essa ligação da ideia com o assunto chega aos seus ouvidos, você fala; é perfeito.
Quem você gostaria de imitar e ainda não conseguiu?
O Jô Soares. O Jô é difícil porque é muito eclético. Para que a pessoa pudesse identificar, eu teria que fazer pelo menos uns dez anos de Filosofia, oito de música; cursar Faculdade de Medicina, fazer curso de inglês, francês e russo. É complicado. Ele tem uma capacidade intelectual muito grande. Imitar só a voz não interessa. Eu teria que ter um pouco do pensamento dele.
Algum projeto seu já foi vetado?
Tive uma propaganda que não foi para o ar. Era para um banco, eu imitava o Adoniran Barbosa cantando ao fundo com o pessoal do Demônios da Garoa. A família do Adoniran não autorizou. Foi uma questão de acerto entre eles e a agência.
Qual o fato mais curioso que aconteceu no decorrer de sua carreira?
A gente fez uma brincadeira com o Pelé. Certo dia, ele próprio invadiu o estúdio da Rádio Bandeirantes, falando que ia nos processar, obviamente de brincadeira. Ele levou uma música que fez para o “Na Geral”. Uma coisa é você fazer uma música para o Pelé; outra é o Pelé fazer uma música para você. Esse foi o caso mais maluco, louco, bizarro, que aconteceu na minha vida com certeza. Foi a aparição do Pelé no estúdio, em pleno programa no ar, ao vivo. Ele empurrou a porta, dizendo “dá licença que eu vou processar vocês”. Eu tomei um susto tão grande, quase tive um negócio aquele dia, sem brincadeira.
Não deixa de ser uma homenagem…
Sem dúvida alguma. E um aval, ou seja, “eu estou te dando o direito de continuar brincando comigo”. Isso que o Pelé fez com a gente, comigo especificamente, foi um negócio, não tem como retribuir.
Há quanto tempo o programa “Na Geral” está no ar? Qual a audiência?
Há dez anos. Na maior parte desse tempo, ficamos em primeiro lugar no Ibope no horário. A média é de 1,5 milhão de ouvintes por dia. Eu não entendo muito disso, nem gosto de lidar com números porque isso provoca vaidade. E vaidade e humor não combinam.
Você pensa em fazer televisão?
Eu adoraria. Mas não encontrei ninguém corajoso que quisesse investir em um projeto comigo. Gostaria de fazer um programa, no qual traria de volta o que a televisão perdeu. Os enlatados tomaram conta dela; fala-se qualquer porcaria, não há respeito. Mas para fazer um projeto assim, é preciso ter gente engajada dentro da emissora. Hoje, a televisão não se interessa por isso. Ela quer número e dinheiro. Não quer qualidade. O objetivo é faturar o máximo que puder.
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