Athaulfo Alves Jr

por: Margarete Azevedo

Filho de quem é…

Athaulfo Alves Jr

Athaulfo Alves Júnior começou cedo a trilhar o caminho do pai. Após infância no bairro carioca do Meyer, onde jogava bola na rua, soltava pipa, rodava pião, corria atrás de balão (“Era feliz e não sabia”), aos 15 anos, “colou no velho”, como se diz na gíria, pois sabia de sua importância musical. “Por intermédio de minha mãe, pedi para que me colocasse para trabalhar na União Brasileira dos Compositores, que ele havia fundado com outros compositores.” Ali, teve a oportunidade de conhecer outras lendas da MPB como Jackson do Pandeiro, Almirante, Geraldo Vandré e outros. Com diversos trabalhos lançados em LPs, compactos e CDs, que lhe renderam apresentações no exterior e muitos shows por todo o Brasil, ele agora realiza um trabalho árduo de preservação da memória musical paterna, por meio de projetos culturais voltados a alunos de escolas públicas do Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo, dá continuidade à carreira de intérprete e compositor de vários sucessos, tais como “Meninos da Mangueira”, “Pedro Sonhador”, “Mais um Sonho de Amor”.

Como foi sua estreia como cantor?

Um belo dia, estava sentado na minha mesinha na União Brasileira dos Compositores, quando meu pai, que presidia a sociedade, chegou e falou: “Athaulfinho, vou te levar para cantar hoje. Você vai ganhar um cachê em São Paulo, no programa de uma amiga minha. Eu tinha 23, 24 anos. Fui cantar no programa “Bossaudade”, exibido pela TV Record e comandado pela minha madrinha Elizeth Cardoso. Fui apresentado ao público. Depois disso, passei a participar de todos os shows de meu pai. Ele me ensinou a fazer repertório, a me comportar com o público, enfim, tudo.

O que significou ter Elizeth Cardoso como madrinha?

Eu aprendi muito com a Elizeth. Nos 90 anos de nascimento de meu pai, montamos um show em que interpretávamos canções dele. Ficou dois anos e meio em cartaz. Viajamos por todo o País; fomos para a França, Japão. Voltamos para o Brasil e gravamos um CD ao vivo no SESC Pompeia. Por sinal, esse disco está até hoje em catálogo vendendo.

Ao longo de sua carreira, quantos discos e CDS foram lançados?

Eu sou da época do Long Play (LP). Fui contratado da RCA Victor durante 10 anos. Foram 11 LPs, 17 compactos e uns 15 CDs.

Suas músicas já foram gravadas por outros artistas?

O que eu vou falar é em primeira mão. Todas as músicas que compus até hoje com meus parceiros eu nunca dei para ninguém gravar. Eu sempre gravo. Estou preparando músicas para entregar para Fafá de Belém, Alcione, Elba Ramalho e Diogo Nogueira. Este ano vou tratar também da minha carreira de compositor, pois trato mais do cantor e preservador da memória de Athaulfo Alves.

Direitos autorais funcionam no Brasil?

Em termos. Ele é muito melhor e mais bem pago no exterior. Enquanto os herdeiros de grandes compositores não trabalharem no acervo, o direito autoral não vai render nada. É como uma bola de neve, quanto mais você mexe, mais ele rende. Claro que, para ele render, é preciso fazer regravações, tocar no rádio, na televisão, na novela. Esse é o trabalho que eu faço.

Em 1965, seu pai passou o lenço branco para você. O que ele significava?

Aquele lenço era como um bastão; com ele, comandava a sua academia de samba. Com o lenço, passou o título de “General do Samba”. Foi uma responsabilidade muito grande. Esse lenço é o maior troféu que eu tenho na minha vida. Está guardado até hoje em uma caixinha de veludo, bem conservado.

Quando ele passou o “bastão” para você, sabia que estava perto do fim?

Na verdade, ele via que eu tinha valor; queria me colocar no meio para eu seguir também a carreira artística. Em uma de suas canções, ele diz “Sei que vou morrer não sei o dia. Levarei saudades da Maria. Sei que vou morrer não sei a hora. Levarei saudades da Aurora. Eu quero morrer numa batucada de bamba. Na cadência bonita do samba.” Ele morreu muito novo, com 59 anos. Tinha muita vida pela frente; porém, foi fazer uma operação de úlcera duodenal e se deu mal. Teve pancreatite aguda. Hoje não se morre disso, mas em 1969 não havia recursos. É a vida; a gente está aqui de passagem e a saudade fica.

Ele cantou até o fim?

Nós trabalhávamos juntos. Seu último show foi na Boate Sarau, em Copacabana. Ele foi embora no dia 20 de abril de 1969. Estava no auge das paradas com as canções “Laranja Madura” e “Você Passa e Eu Acho Graça”, na voz de Clara Nunes. Ele morreu no apogeu e deixou uma obra muito grande, um acervo muito bonito. Em 2 de maio passado, foi comemorado o centenário de seu nascimento. Na ocasião, lançamos um CD duplo pela gravadora Lua Digital e convidamos Simoninha, Fafá de Belém, Ângela Rô Rô, Elba Ramalho, Edith Veiga, Alaíde Costa. Foram muitos cantores homenageando o meu pai.

Seu avô tinha o título de Capitão Severiano, você chegou a conviver com ele?

Não conheci vovô. Ele era tido como Capitão Severino, mas não era militar. Meu pai sempre contava isso. Ele era lavrador nas fazendas de Miraí, em Minas Gerais. O meu avô tocava viola e ensinou o meu pai a tocar, tanto que ele fez uma música sertaneja, uma valsa rancheira. No seu repertório não tem só samba. Ele compôs bolero, fox, maracatu e outros ritmos.

Qual instrumento você toca?

Eu toco somente violão.

Como é o seu trabalho como compositor?

Eu componho letra e melodia. A inspiração é uma coisa que vem a qualquer hora. É uma dádiva do céu. Às vezes, a letra e a melodia vêm juntas. Outras, só a melodia. Aí peço para um parceiro colocar a letra; dou o tema e ele faz a música. Já fiz música até no metrô. Olhando para as pessoas, pintou a melodia. Fiz a letra com Nelson Carvalho, que se chama “Cadê a Festa?”. “Cadê a festa. A vida anda triste, as almas desertas. Não vejo sorriso por toda cidade…” Andando de metrô, eu não via ninguém sorrir, todo mundo triste. Já ocorreu também dentro do ônibus, com um pequeno gravador no bolso. Comecei a fazer o “laralara”, saltei e completei a música. A inspiração pinta a qualquer hora. E se você não pegar, ela vai embora. Vai baixar em outra cabeça.

Quantos projetos culturais você desenvolve em escolas públicas?

Já faz uns sete anos que realizo dois projetos, um deles é o “Bate Papo Musical nas Escolas”, que é elaborado musicalmente com a minha banda. Levamos a música para as crianças e contamos a história de um grande compositor. O outro, é o “Chorando e Valseando”, em que retratamos a história das valsas e dos chorinhos. Nessas ocasiões, um grupo instrumental toca valsas e choros. Às vezes, há a participação de uma cantora. Gostaria de expandir esses projetos para todo o País. Já fiz apresentações em Belo Horizonte, mas não recebi o aval do Ministério da Cultura. Vou tentar mais uma vez com a ministra Ana de Holanda.

Há resultado efetivo desse trabalho?

Vai muito além do conhecimento de quem foram muitos artistas. Por exemplo, em algumas escolas, os alunos formaram grupos de samba. Outros já escutaram a mãe, um tio, algum parente cantar uma canção e passaram a conhecer o compositor. Isso desperta o interesse pelo assunto.

Você apresenta o que há de melhor na MPB?

Gosto de mostrar o que é bom. Adoro cantar música dos contemporâneos do meu pai. Ismael Silva, Noel Rosa, Billy Blanco, Nelson Cavaquinho, Wilson Batista, Monsueto Menezes. Canto também Djavan, Chico Buarque, João Nogueira, mas eu digo para todo mundo que os mais antigos fizeram uma estrada musical por onde nós passamos hoje. Temos que reverenciá-los sempre. Faço isso com o maior carinho.

Há muitos compositores esquecidos?

Sim, muita gente boa, porque as pessoas não trabalham seu repertório; a família não entende de direito autoral. Vou dar um exemplo, Cícero Nunes, autor da música “Mensagem” – “Quando o carteiro chegou e meu nome gritou com uma carta na mão…”, sucesso com Vanusa. Ele está esquecido. Era amigo de meu pai; trabalhava na União Brasileira dos Compositores; pegava o violão e me ensinava uma porção de músicas. Além dele, há vários compositores que o povo esqueceu e que são jóias preciosas.

Quais são os seus projetos futuros?

Pretendo lançar outro disco de carreira até o final do ano, pela gravadora Lua Digital, com canções de diversos compositores, que terá a participação do Peri Ribeiro. Ele é filho de Dalva de Oliveira e Herivelto Martins.

Qual a importância do legado de seu pai?

Hoje em dia, filho de bacana toca violão. Antigamente, o compositor de samba que andava com violão era tido como vagabundo e entrava em cana. Nos anos 50, a maré era brava. A elite, os bacanas não apoiavam o samba, olhavam de nariz empinado. No auge da bossa nova, o meu pai atravessava o túnel da Zona Sul para cantar para a society em Copacabana, Ipanema, nas mansões da Barra da Tijuca. Eu fui diversas vezes com ele à casa de gente bacana mesmo. Ele levava a academia toda. Fazia grandes shows pagos. Ele conferiu valor ao samba, gravando diversos discos acompanhados por orquestras, além de viajar muito para a Europa, cantando e divulgando a nossa música.