Nunca às segundas
Em seu terceiro aniversário, o movimento que elege um dia da semana para cortar a carne do cardápio procura reforçar os riscos do consumo em excesso
O casal Paul e Linda McCartney sugeriu há alguns anos que se os matadouros tivessem paredes de vidro, todo ser humano seria vegetariano. Não só eles, mas milhares de pessoas no mundo todo estão cada vez mais decididas a adotar uma dieta saudável, que não privilegia proteínas de origem animal, conforme diversas pesquisas. Como sempre há aqueles mais incrédulos, que torcem o nariz para essa ideia, incapazes de dispensar um bom bife no almoço ou jantar. Os mais radicais são adeptos da dieta paleolítica – muita carne, frutas e vegetais – que já conquistou muitos europeus e norte-americanos.
Nem tanto ao mar, nem tanto à terra; há também a corrente dos que buscam o equilíbrio. A campanha Segunda sem Carne é um bom exemplo disso. Lançado em 2009 nos Estados Unidos, o movimento não quer transformar as pessoas em vegetarianas, mas reunir aquelas que, por razões de ética, moral ou de saúde, decidiram reduzir a ingestão de carne de seus pratos. Visa também despertar a reflexão sobre o quanto é desnecessário o sacrifício de outros seres vivos, no caso os animais. E o quanto isso pode resultar em benefícios ao ambiente e, de quebra, ao ser humano.
Segundo os idealizadores, caso toda a população norte-americana aderisse à causa, a quantidade de água economizada seria suficiente para que cada pessoa enchesse sua banheira aproximadamente 20 vezes por ano, além de evitar o consumo de 12 bilhões de galões de gasolina, sem falar na redução das emissões de carbono. Estudos da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) apontam que as emissões de gases-estufa associadas à cadeia de produção da carne representam um quinto das emissões totais mundiais. Nada menos que 18% das emissões são provenientes do desmatamento para a criação de pastagens, do transporte da carne e do processamento industrial do alimento, entre outros fatores.
A observação dos McCartney leva em conta a compaixão de quem se choca ao ver os caminhões de frigoríficos abastecendo os açougues. Como escreveu o famoso escritor, filósofo e poeta norte-americano, Ralph Waldo Emerson: “Você acabou de jantar, e por mais que o matadouro esteja escrupulosamente longe dos olhos, a quilômetros de distância, ainda haverá cumplicidade”. Na outra ponta, está a bandeira ambiental a lembrar que para produzir um quilo de carne são gastos cerca de 15 litros de água. A socióloga Marly Winckler, 56 anos, presidente da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), considera a alimentação centrada na carne com um consumo de 220 gramas por dia excludente, e também antiética. “Está comprovado que o homem contemporâneo não precisa de carne para se alimentar. Além disso, os animais vivem em condições bárbaras, impedidos de seus instintos básicos. Hoje, vivem trancafiados, não são mais livres”, emenda.
Vegetarianos
No Brasil, a campanha Segunda sem Carne foi lançada em outubro de 2009, durante as comemorações da Semana Mundial do Vegetarianismo, movimento cujo número de adeptos tem crescido muito do País. Marly diz que um dos trabalhos da entidade é convidar as pessoas a descobrirem novos sabores. “O mais adequado seria adaptar à alimentação, produtos orgânicos, sem conservantes, ou seja, totalmente naturais.” Tudo isso porque, à parte o discurso ambientalista, o que pode convencer muita gente a abandonar os hábitos carnívoros de vez está relacionado ao desenvolvimento de doenças, em especial, o câncer.
Não por acaso, a dieta vegetariana e a do veganismo, que exclui todo tipo de produto de origem animal, foram reconhecidas recentemente pela Associação Dietética Americana (ADA), como alternativas para diminuir o risco de muitas doenças. “Além de afirmarem que as dietas vegetarianas são saudáveis, adequadas em termos nutricionais e apresentarem benefícios para saúde, eles elencaram uma série de benefícios. Por exemplo, os não vegetarianos têm risco 54% maior de ter câncer de próstata e 88% maior de ter câncer de intestino. Já os vegetarianos têm redução de até 50% do risco de apresentar diabetes e 31% menos de cardiopatias. As dietas vegetarianas não só são benéficas como também podem ser adequadas para todas as fases etárias, incluindo gestantes e atletas. É claro que ela precisa ser balanceada”, relata Marly.
No entanto, ao adotar uma dessas dietas, a pessoa deve estar atenta à quantidade de proteína e calorias ingeridas, senão corre o risco de desenvolver desequilíbrio alimentar. Na maioria das vezes, o prato do vegetariano é bastante colorido. A natureza se encarregou de oferecer frutas, legumes e vegetais que atendem a necessidade nutricional e calórica dos indivíduos, conforme conclusão da socióloga.
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