Hora do pit stop

por: Margarete Azevedo
Hora do pit stop

Todo fim de ano paramos no boxe, recarregamos as baterias e partimos para a próxima volta. Infelizmente, quase sempre o combustível acaba antes…


As resoluções de final de ano, na maior parte das vezes, estão relacionadas a largar hábitos negativos, tais como fumar, comer mal, entrar em relacionamentos furados, mentir, entre outros. Convenhamos que não basta uma simples mudança no calendário para experimentarmos o novo, deixarmos de lado comportamentos que, embora nocivos, estão enraizados em nosso dia a dia. Káritas de Toledo Ribas, administradora de empresas, coach com formação Ontológica e especialista em Medicina Comportamental, destaca que os hábitos são uma forma que o organismo tem de economizar energia. “Automatizamos algumas ações com essa finalidade. Não é preciso pensar para fazê-las. Isso fica consolidado como um aprendizado.” No entanto, esse aprendizado não se dá como um passe de mágica, segundo ela. Passa antes pela consciência; e ao partir para a ação, a pessoa precisa realizar um planejamento.

Hora do pit stop

Para a assistente social e consultora Cecília Shibuya, o mais importante é o caráter de reflexão que a época proporciona. “As pessoas fazem um balanço das coisas que deixaram de fazer e que gostariam de ter feito. Nessa hora mensuram o quanto estão felizes e o que podem fazer para mudar ou não essa situação”, diz ela, que é também vice-presidente de eventos da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV). A queixa mais comum que ela ouve de funcionários de empresas é de que eles deixam de fazer coisas simples como caminhar, aprender um hobby, conviver mais com a família ou com os filhos por conta do trabalho. “É comum se comprometerem a não trabalhar tanto, a terem mais qualidade de vida. O importante é avaliar o que foi e o que não foi bom; o que é possível fazer para mudar essas situações, e aí sim propor objetivos tangíveis para não se decepcionar no futuro.”

Comprometer-se com algo que não seja factível ou muito difícil de cumprir é o primeiro passo para as recaídas ou para desistir de uma meta. O fato de muitos acreditarem estar próximo do ideal ou muito perto do real é um passo para estabelecer metas muito distantes do que realmente conseguirão cumprir. “A pessoa se propõe a perder 20 quilos, mas não coloca como objetivo a prática de exercícios”, pondera a psicóloga Cecília Zylberstajn. Como não obtém resultado tende abandonar o objetivo. Assim, grande parte dos anseios está longe de se concretizar na “vida real”, ou seja, na prática. Ela diz que a pessoa precisa ter em mente o que pode mudar de concreto, pois o ideal, por ser inatingível, muitas vezes é algo que está longe de se concretizar.


Sem mágicas

Não conseguir atingir esse ideal pode não só causar frustração, como também fazer com que a pessoa tenha sua autoconfiança abalada e deixe de acreditar em si. Embora as promessas de final de ano sejam frequentes, Cecília comenta que não é preciso o início de um novo ano para mudar um determinado comportamento ou alcançar uma meta. “A pessoa pode comprometer- se consigo em qualquer época do ano.” Ao identificar o que se deseja mudar é necessário saber qual caminho seguir, o que nem sempre é tarefa simples. É preciso traçar um planejamento e deixar de lado o medo de errar. Segundo a psicóloga, essa medida tem relação com o diálogo que a pessoa estabelece do ideal com a realidade. “Há um ditado que diz ‘pense grande, comece pequeno’. Caso a meta seja emagrecer, a pessoa precisa se planejar para que de fato isso ocorra. Por exemplo, buscar orientação nutricional.”

Káritas destaca também que a mudança de hábito, além de requerer tempo, exige repetição. “A pessoa aprende de duas formas, pela emoção ou pela repetição”. E se alguém estiver imaginando uma receita ou fórmula mágica, esqueça. Elas não existem. Na sua opinião, um dos caminhos é apropriar-se dos recursos que foram empregados em uma situação de mudança. “Cada um deve pensar nas alterações que já fez na vida e que deram certo. Mas isso não exclui experimentar outras possibilidades.” Comemorar sempre cada etapa é fundamental, pois significa fincar a estaca em outro lugar e ter consciência de que a pessoa não irá retroceder“, recomenda. Mesmo em caso de pequenas recaídas, ela recomenda não desistir e, acima de tudo, planejar e diferenciar uma coisa da outra.

Apesar de reconhecer os hábitos que lhe fazem mal, por exemplo, fumar ou comer compulsivamente, as pessoas não vão mudar seu comportamento. Há quem afirme que a culpa nesse caso está no cérebro, na dopamina que é liberada sempre que a pessoa come guloseimas, fuma ou faz compras. Embora o prazer seja imediato, ele pode trazer consequências danosas a médio e longo prazo. De acordo com o psicólogo experimental Loran Nordgren, professor da Northwestern University’s Kellogg School of Management, nos Estados Unidos, as pessoas tendem a superestimar a habilidade de resistir às tentações que as cercam, sabotando assim tentativas de livrar-se dos maus hábitos.

Nordgren estuda a relação entre a força de vontade e a tentação. Em um experimento, analisou se fumantes poderiam assistir a um filme que romantiza o hábito – chamado “Coffee and Cigarettes” – sem dar uma tragada. As possibilidades eram de que eles conseguiriam assistir ao filme sem acender um cigarro, manteriam o maço sobre a mesa ou precisariam deixá-lo em outro cômodo. Aqueles que previram resistir às diversas possibilidades se mostraram mais propensos a manter o cigarro sem acendêlo – mas também se mostraram mais propensos a acender o cigarro do que aqueles que conseguiam manter o maço próximo.


O condutor

Nos livros A Guinada – Maneiras Simples de Operar Grandes Mudanças, dos irmãos Chip e Dan Heath, já editado no Brasil, e The Hapiness Hypothesis, de Jonathan Haidt (sem tradução em português), os autores fazem analogias curiosas. Definem o lado racional do cérebro como um condutor, que busca guiar o lado emocional na direção certa. Já as emoções são como um elefante, muito mais forte que seu condutor, portanto, capaz de arrastá-lo para onde quiser, se não estiver satisfeito com as ordens recebidas. O desafio é fazer esses dois trabalharem de maneira harmoniosa.

“Todos nós já formulamos como decisão de Ano-Novo ‘ser mais saudável’. Elaboramos uma imagem mental de nós mesmos no futuro – em forma e esbeltos –, e gostamos do que vimos. No entanto, lá no fundo não existe um compromisso”, escrevem os irmãos. Segundo eles, passado o 1º de janeiro, ao ficar com fome, a pessoa pega um pacote de Cheetos na despensa. Não há dúvida de que o elefante quer: um punhado deles. “Quando o elefante quer muito alguma coisa, o condutor, com certeza, vai junto”, destacam. Nesse momento, o condutor passa a formular racionalizações para desculpar a transgressão. Por exemplo: comi aquela salada na quinta-feira e comprei leite desnatado. Um pouco de biscoito é uma recompensa razoável pelo meu bom comportamento. “O mais impressionante é o fato de que, no fundo, nos convencemos de que estávamos sendo mais saudáveis”, concluem.

Para iniciar uma empreitada não basta o condutor estar ciente, é necessário convencer o elefante, a nossa emoção sobre o melhor caminho a fazer. Conclusão dos Heath: uma mudança só é realmente possível se você apelar aos dois lados: o condutor é quem cuida da direção e do planejamento, e o elefante é quem te dá energia.