Cadeira elétrica?

Cadeira elétrica?

Exageros à parte, deve ser mais ou menos essa a visão do paciente vítima de “odontofobia”, ao ser convidado a sentar na cadeira do dentista


Seria brrrrrrrrrrr, talvez zinnnnnnnnnn ou quem sabe bzzzzzzzzzzzzz. É difícil reproduzir o som de um dos equipamentos mais temidos por quem tem medo de ir ao dentista: o tal “motorzinho” de alta rotação. Juntam-se a ele pinças, brocas, seringas, agulhas e, claro, a roupa branca do dentista, e pronto: está montado o “show de horrores” para muita gente. Não só crianças, mas há muitos adultos que ainda não conseguiram se livrar dessa fobia. É sabido que uma dose de medo protege a pessoa, no entanto, em demasia, pode trazer sérios comprometimentos à sua vida.

Quando o assunto é saúde bucal, o medo exacerbado pode acarretar, além de danos à saúde, muitos prejuízos de ordem financeira. Só que ter receio de ir ao dentista é algo considerado até natural. Diversas estatísticas confirmam que a ansiedade é algo previsível, porém, cerca de 15% da população apresenta quadro de fobia. A apreensão reforça a sensação subjetiva de dor a ponto de muitos “desfalecerem” na cadeira odontológica. O sofrimento começa antes mesmo da uma avaliação. Muitas vezes, a pessoa chega a marcar uma consulta e simplesmente não aparece.

O profissional, por sua vez, também se vê afligido com a ansiedade do paciente, principalmente porque sabe que precisa auxiliá-lo a superar os seus temores. “Muitos agendam uma consulta, vêm até a clínica e falam do problema. Apesar disso, precisam ser sedados para realizarmos o primeiro diagnóstico”, conta a cirurgiã dentista Luciana Saraiva. Ela também é especialista em Ortodontia e Ortopedia Facial dos Maxilares e mestre em Odontologia com Treinamento na Universidade de Nova York.

Ao constatar o sofrimento demonstrado pelo paciente ao passar por qualquer procedimento, ainda que simples, a profissional montou há cerca de cinco anos, em São Paulo, um consultório que presta atendimento a pacientes odontofóbicos. Mas, o que desencadeia o medo na pessoa? Segundo ela, não existe um estudo que aponte a origem da odontofobia. Acredita que o temor pode estar relacionado a algum trauma anterior vivenciado pelo paciente ou com pessoas próximas. “Há também a questão ancestral. No passado, os procedimentos eram realizados por barbeiros-cirurgiões”, comenta.


A sangue frio

Outro fator agravante era o de que a maioria das extrações e procedimentos eram feitos sem o auxilio da anestesia. “Acredito que isso também gerou um trauma, que foi transmitido de geração para geração”, acrescenta Luciana. Comuns durante a Idade Média, os barbeiros-cirurgiões “atuavam” também como médicos, ou seja, realizavam pequenas cirurgias nos ferimentos dos camponeses e sangrias. Naquela época, além de raros, os médicos cobravam muito caro pelos seus serviços. Evidentemente, o “trabalho” de um barbeiro-cirurgião saia muito mais em conta.

Sem nenhum embasamento científico, esses profissionais pertenciam a uma classe desprestigiada, cujo trabalho era basicamente mecânico. Assim, eles tinham a experiência de arrancar dentes e dar diagnósticos simples das doenças. Hoje em dia, mesmo com o avanço da ciência e da tecnologia, o medo antigo resiste, de tal forma que é observado em diversas pesquisas. Segundo ela, cerca de 50% da população vai ao dentista com algum grau de ansiedade.

O cirurgião-dentista e clínico geral, Paulo Couto, diz que a maioria dos pacientes associa o tratamento a dor. Contudo, o medo pode ter origem na desinformação, sensação de imprevisibilidade e temor do desconhecido. “Na prática, a dor, o motorzinho e a anestesia são os componentes mais aversivos para as pessoas.” Muitos chegam a pagar o tratamento antes mesmo de iniciá-lo, mas acabam desmarcando as consultas ou se marcam, não comparecem.

“Em muitos casos, é difícil começar o tratamento, tal o comprometimento das cáries, doença periodontal, prejuízo estético, deficiência na função mastigatória. Nesses casos, acaba sendo muito mais longo e traumático”, emenda o cirurgião. Exatamente por não passar por consultas periódicas uma “cariezinha”, com o passar do tempo, se transforma em um canal. “O problema periodontal e a cárie são transmissíveis, ou seja, passa para outros dentes e o quadro em geral se agrava. Quando o paciente nos procura, além de dor, apresenta baixa autoestima e já tem prejuízo nos relacionamentos pessoais e profissionais”, observa Luciana.


Monitoramento

Os especialistas afirmam que a odontofobia é democrática. Atinge homens e mulheres adultos em uma mesma proporção, independentemente da classe socioeconômica e do nível cultural. O medo na criança normalmente é transitório. Na opinião de Couto, alguns pais são os responsáveis pelo desenvolvimento da odontofobia. Ele se disse cansado de escutar pais dizendo aos filhos: “Se você não se comportar, eu vou te levar ao dentista”.

Durante um tratamento odontológico sem sedação, o odontofóbico pode apresentar diversos sintomas. Desde uma leve queda de pressão arterial até uma síncope, evoluindo para uma lipotímia, que é a queda de pressão seguida de desmaio. Caso seja um paciente com histórico de hipertensão arterial, o profissional, além de usar o anestésico adequado, deve fazer o monitoramento da frequência e pressão arterial durante o procedimento.

“Sudorese, mal-estar, taquicardia, sensação de morte eminente são sinais fisiológicos de ansiedade desencadeados pela situação psicológica”, acrescenta Luciana. Segundo ela, a ansiedade do paciente pode acarretar tensão no profissional que não esteja acostumado a tratar de odontofóbicos. O cirurgião dentista pode inclusive se recusar a prestar atendimento. É comum alguns pacientes relatar esse tipo de experiência.

Cadeira elétrica?


Horrorodontia

Não sei quanto a vocês, mas eu sei muito bem como começou meu medo de dentista. Tinha eu meus 10-11 anos, estudava em um colégio interno que mantinha um consultório para um profissional da área que nos visitava uma vez por mês. Certo dia, chegou a minha vez de sentar na cadeira do sujeito que tinha cara de bravo e, além disso, aparentava pouca paciência. Uma, duas cáries; mexe daqui, mexe dali, raspa de lá, emenda acolá; até que ele pede que eu cuspa. Nervoso, eu bem que mirei aquele prato de onde sai um filete de água, mas a saliva tomou outro rumo. “Cuspa direito”, gritou a fera, enquanto o infeliz aqui afundava na cadeira. Demorei muito para frequentar outra vez um ambiente tão hostil, o que me custou alguns dentes mais tarde e hoje não diria que ainda tenho medo de dentista, horror seria mais apropriado. Ainda mais quando ouço o tal ‘bzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz’. (M.D.)