Solidão coletiva

por: Manoel Dorneles

a mesma internet, capaz de aglutinar em torno de um interesse comum em vários países, tem o dom de isolar no aconchego do lar


Solidão coletiva

É uma manhã qualquer, no Aeroporto de Guarulhos, São Paulo. Entro no ônibus que me levará até o avião estacionado no pátio. Aqui e ali, senta-se meia dúzia de gatos pingados, jovens, adultos, homens, mulheres. Observo rapidamente um por um, mas ninguém se dá conta da minha presença. Vá lá que não sou nenhuma celebridade, mas ainda ocupo uma certa metragem ao quadrado, faço sombra, pigarreio. Quem sabe se estivesse fantasiado de Homem Aranha ou com a máscara do Jason, do “Sexta Feira 13!?” (me indago). Não estava a implorar nenhum bom dia coletivo; só queria que me vissem. Nada. Não há nada no mundo que os faça tirar os olhos da telinha do iPhone, iPad, notebook… Divago sobre o papel da tecnologia a serviço do homem de hoje. É capaz de aproximar pessoas dos mais diferentes rincões do planeta, ao mesmo tempo em que afasta quem está do seu lado – seu companheiro de viagem.

Em casa, vira e mexe, me vejo na salinha do computador, a pedir que meu filho (adolescente) abandone o local ao menos por alguns minutos e passe alguns “agradáveis” momentos com o restante da família. A muito custo, ele obedece e desembarca na sala com uma tromba daquele tamanho… Daí a pouco vem o pessoal da tevê com a notícia de uma família (não me lembro bem de onde) que se comunica dentro de casa só pela Internet. Imaginem a que ponto chegamos: na hora do almoço, a dedicada mãe corre para o computador e dispara três, quatro, cinco e-mails com o aviso de que a comida está pronta. Justo neste dia, o notebook do caçula Pedrinho está com pau – ele não recebe o comunicado e deixa de comparecer à mesa… Não há diálogo (estão preocupados apenas em engolir rapidamente a comida e voltar para os seus “afazeres”); logo, ninguém dá pela falta dele. O próximo e-mail é para que não esqueçam de escovar os dentes. Menos o Pedrinho, é claro…

Este mundo anda mesmo de ponta cabeça, mas os satélites antenas e bandas continuam de cabeça em pé. Um descuido dos governos ditatoriais do norte da África e Oriente próximo, e multidões de jovens foram para as ruas e praças pedir suas cabeças. Sem a Internet, como é que eles iam convocar os demais para as manifestações? Preocupado, o ditador iraniano Ahmadinejad planeja criar sua própria Internet, uma forma singela de isolar digitalmente os cidadãos daquele país. Atualmente, só 11% dos iranianos estão conectados à rede, mas com Web interna – a nova Internet ampliaria esse índice para 60%, porém, teria sistema operacional também local, o que facilitaria ainda mais o controle estatal. Mais curioso é o caso da China, onde seus milhões e milhões de internautas têm suas conversas online monitoradas por cerca de 30 mil censores. O que foi batizado de “Projeto Escudo Dourado”, conforme reportagem do Financial Times londrino, ganhou dos navegadores chineses o apelido de “Great Wall” (Grande Muralha). Nada mais paradoxal: o país que mais alimenta o mercado de tecnologia no mundo de hoje preocupado com os estragos que ela pode causar em seu próprio seio. Alguém aí tem ideia do tamanho de outra manifestação antigoverno em plena Praça da Paz Celestial? Haja tanques para esmagá-la…