Escrita fina

Conde Faber presenteia o uruguaio Emilio Arenas com o lápis que faltava na sua coleção, reconhecida pelo Guinness como a maior do mundo


Escrita fina

O Museo Arenas de las Colecciones, em frente da Granja Colonia, em Colonia do Sacramento (Uruguai), é o ponto alto do passeio. É parada obrigatória para turistas, brasileiros (a maioria no verão passado), argentinos; peruanos, colombianos, ingleses, chineses e uruguaios. Cerca de cinco mil pessoas chegam lá todos os meses, desde Buenos Aires e Montevidéu. Foi nesse cenário que a Revista Kalunga descobriu a maior coleção de lápis do mundo (hoje, 11.480 peças), incluída no Guinness World Records (www.guinnessworldrecords.com). O recorde mundial nesta modalidade peculiar de coleção integra um clube fechado: só há dez colecionadores de lápis no mundo. A estupenda coleção, iniciada há mais de meio século, em 1956, está exposta em quatro grandes salões cheios de objetos antigos, para o deslumbramento dos visitantes.

“O lápis é parte da minha vida; eu o levo na alma”, diz o uruguaio Emilio Arenas, o homem-lápis. Ele ganhou seu primeiro lápis (Arroz Corona) aos 10 anos, ainda no grupo escolar, e nunca mais parou. O objeto que recebeu da professora, em meio a um ditado, enquanto afinava sua ponta de grafita, o acompanha até hoje e tem lugar de honra no museu. Nestes quase 60 anos de atividades, ele juntou lápis exóticos de 55 países, até do Vietnã. Ganhou presentes, fez compras, trocas. E o que mais espanta os turistas é que a coleção não para de crescer!


Escrita fina

Arenas é um exemplo de paciência e dedicação de colecionador. Em 2002, quando completou 5.500 lápis e entrou para o Guinness, o conde que preside a Faber-Castell o convidou a visitar a fábrica de Nuremberg, na Alemanha, onde ele foi recebido com todas as honras. Visitou o museu no castelo, e almoçou com talheres de prata. Foi a sexta pessoa do mundo a receber um lápis de platina, presente do conde. A foto da visita, publicada em vários países, dobrou a quantidade de lápis que juntava há 45 anos. Em 2005, novamente, bateu o recorde do Guinness, com 8.345 lápis. Em 2010, atingiu 11.260 unidades.


Máxima utilidade

“Vivo agradecendo, pois recebo lápis do mundo todo.” Da Argentina, vieram os lápis dos clubes River, Boca, Racing, do Mundo Marinho. A mulher do ex-presidente uruguaio Tabaré Vasquez trouxe-lhe o raro exemplar do Vietnã. Exibidos uns ao lado dos outros, em estantes nas paredes, os lápis estão guardados em câmaras de ar antiumidade, para evitar a deterioração. O maior mede 1m53, e o menor 17 milímetros, exclusivíssimo. Um artesão fabricou um de um milímetro de diâmetro. “Pode-se escrever com qualquer um deles, sem problemas”.

“O lápis é de máxima utilidade para o ser huma-no”, defende o colecionador, enquanto mostra o objeto de madeira, cilíndrico ou sextavado, o sagrado objeto essencial à vida humana, o fiel acompanhante de astronautas e estudantes. Al-guns astronautas russos, segundo ele, chegaram ao espaço e anotaram o que quiseram, porque haviam levado lápis na bagagem. Os norte-americanos, pelo contrário, sofreram os efeitos da gravidade na missão espacial: levaram canetas e a tinta não baixou, impedindo-os de registrar qualquer coisa. Simples assim.

Além do lápis, a grafita é usada em outros setores da indústria, como nos cadinhos refratários para as indústrias de aço, latão e bronze. Em São Paulo, no Museu Geológico Valdemar Lefrère (Mugeo), no Instituto Geológico, da Secretaria do Meio Ambiente, no Parque da Água Branca, há amostras de grafita-xisto, de Piedade (SP). Misturado ao óleo, o material é amplamente utilizado como lubrificante e na fabricação de tintas para o revestimento de estruturas de ferro, aço e moldes de fundição, em baterias, eletrodos e estufas, entre outros produtos. Misturado à argila fina ou caulim, alcança sua utilidade mais nobre, que é a da escrita.