A velha calça desbotada

por: Margarete Azevedo
A velha calça desbotada

O jeans está tão presente em nosso dia a dia, que nem nos damos conta de que ele tem mais de 150 anos de existência; desde o Velho Oeste norte-americano


O clássico filme “Assim caminha a humanidade”, de 1923, traz o rebelde Jett Rink, personagem vivido por James Dean, sempre vestido com uma “calça rancheira”, a avó dos jeans modernos. Aliás, antes dele, os desbravadores do Oeste norte-americano também usavam essa famosa indumentária. Daquela época até os dias de hoje, o jeans tem sido a roupa preferida de jovens e adultos, homens e mulheres, pacatos e aventureiros, roqueiros e cantores sertanejos. Nestes mais de 150 anos de vida, apesar de ter sofrido diversas alterações, essa importante peça do vestuário mostra que ainda tem fôlego para reinar por muito mais tempo. Até chegar ao status atual, entretanto, o popular e democrático jeans precisou superar muitos padrões, preconceitos e barreiras.

No livro Jeans, a roupa que transcende a moda, a jornalista Lu Catoira relata que o denim – expressão norte-americana para denominar o tipo de tecido conhecido como “toile de Nim” (de + nim) – já era confeccionado na cidade francesa de Nimes, desde a Idade Média. Na época, era empregado na fabricação de velas de barcos e até em roupas de marinheiros de Gênova – cidade que em francês corresponde a Gênes; daí a origem da palavra jeans. Esse denim era tingido com um corante azul, obtido a partir das plantas orientais Indigofera e Isati tinctoris, e está registrado na alfândega de Gênova desde 1140. O corante sintético foi colocado no mercado pela Basf, em 1897, segundo a autora.

O alfaiate alemão Levi Strauss viajou em 1847 para o Oeste norteamericano, em companhia do amigo e também alfaiate Jacob Davi, levando peças desse tecido azul na bagagem. Ele desembarcou em San Francisco (Califórnia), onde abriu uma pequena mercearia na California Street. A região fervilhava com a corrida do ouro, mas os dois europeus não estavam ali para fazer fortuna com a mineração. O que eles queriam era apenas vender suprimentos aos trabalhadores das minas.

A ideia era oferecer o pano para cobrir carroças, barracas e vagões de minério, no entanto, os alfaiates se surpreenderam com o pedido inusitado de um dos trabalhadores. Cansado de perder roupas na árdua atividade, ele solicitou uma calça daquele tecido resistente. Eles não só aceitaram a encomenda, como realizaram algumas inovações. Por exemplo, empregaram tachinhas de cobre no reforço dos bolsos para que a calça não descosturasse. O modelo virou uma febre entre os mineradores, o que fez Strauss patentear, em 1873, a calça e os rebites de reforço.

Não demorou muito para Strauss arrumar um concorrente. Henry David Lee, fabricante de alimentos e óleos enlatados, teve a ideia de confeccionar um macacão para seus empregados com uma espécie de denim. O sucesso foi tanto que, em 1926, ele iniciou sua fábrica de roupas Lee, com uma novidade, que logo foi adotada por Strauss, o zíper em vez dos botões nas calças jeans


Comboys

À época, as calças eram tão grossas que chegavam a ficar em pé sozinhas. Com o passar do tempo, o tecido delas foi sendo aperfeiçoado, de acordo com as ne-cessidades do consumidor. Logo conquistou outros públicos, os vaqueiros norte-americanos. Era a vestimenta ideal para aguentar horas a fio no lombo de um cavalo. “Os cowboys aderiram aos jeans, e o cinema explorou os novos ídolos e lançou modismos, como Tom Mix e suas bombachas, e John Wayne, com as calças de bainhas viradas”, revela a autora.

Até a década de 1930, as peças eram sinônimos de resistência e trajes de trabalho de mineradores, vaqueiros e outros trabalhadores braçais. Durante a Segunda Guerra Mundial, as marcas Wrangler e Lee desenvolveram novos produtos, direcionados aos militares e ao uso civil. Sem a infinidade de opções de hoje, o único modelo disponível ao público (masculino, é claro, pois não era de bom tom mulher usar calças) era o Levi’s 501. Somente em 1934, foi lançada a Lady Levi’s 701, a primeira calça jeans feminina.

Nos anos 1940, com o aumento da população das cidades, houve também crescimento na demanda do produto, fato que chamou a atenção de muitos fabricantes e lojistas. Diante disso, a Wrangler se volta para o mercado feminino e cria as jeanies – calças jeans femininas, de modelagem mais justa e opção de cores. O modelo foi sensação por três décadas consecutivas.


Celebridades

Logo, o surgimento de estrelas da música e do cinema, como Elvis Presley, James Dean e Marylin Monroe, passa a influenciar a moda em geral. A combinação jaqueta de couro e calça jeans torna-se coqueluche entre os homens mais jovens. “O público das cidades acaba convencido de que o jeans é antimoda e rompe os padrões da época, estando atuante, inclusive, mais tarde, nos atos de igualdade sexual”, descreve Lu.

Em nome da rebeldia e ousadia, as mulheres aderem aos modelos mais justos. Surge a nova versão de mulher: cool, que se caracteriza por ser prática, sexy e segura de si. Elas têm como inspiração nas telas de cinema a atriz Brigitte Bardot. Além da estrela francesa, os anos 1960 são marcados por reivindicações, como o movimento pelos direitos civis encabeçado pelo francês Daniel Cohn Bendit; protestos contra a Guerra do Vietnã e também pelo estouro dos Beatles e Rollings Stones.

Nesse período, o jeans vira uma identidade visual entre os jovens. Em terras brasileiras, reinavam os modelos importados ou mesmo contrabandeados. Não demora para surgir as versões apertadíssimas das calças “Calhambeque”, eternizadas por Roberto Carlos, um dos mitos da Jovem Guarda. Entre os “Novos Baianos”, o modelo básico é a combinação jeans e batas. Dez anos depois (nos anos 1970), Calvin Klein coloca o jeans nas passarelas e out doors da Times Square. Era o que faltava para ele se estabelecer no jetset internacional.

Com a juventude despreocupada com o vestir, o jeans foi útil não somente para cobrir o corpo, como também serviu de tela para inspirações artísticas e individualistas dentro dos grupos. “O jeans que nasceu rústico e masculino rendeu-se aos caprichos do segundo sexo e veste toda a juventude, ajudando a fazer as revoluções sexual, social e da indústria têxtil”, informa Lu. Pode-se dizer que ele tem diversos papéis na sociedade contemporânea. Onipresente e estabelecido como a peça mais versátil e confortável do guarda-roupa, transita do chique ao informal, nivela e identifica; em outras plavras, é democrático e moderno.


Do Algodão ao Sintético

Só a partir de 1970, o denin ou jeans começou a ser fabricado no Brasil, hoje um dos maiores produtores mundiais desse tecido. O denin é resultante de uma trama branca e de um urdimento tinto. Depois de tingido com corante índigo, o urdume ganha um tom azul genuíno. A versão original era apenas em algodão, mas nos últimos anos, o tecido passou a ser fabricado com fios sintéticos, que garantem maior durabilidade à trama. As inovações também chegaram às lavagens.

Além do tradicional e genuíno índigo, há versões mais descoladas com cobertura de resina e pigmentos (coated); manchados com pincéis ou jatos de tinta (spotty); usados e poídos (vintage), entre outras. “O corante índigo é mais fabricado do que qualquer outro corante, demonstrando a força mercadológica do blue jeans. A justificativa desse sucesso deve-se às vantagens de ser resistente, de fácil lavagem, ter caráter utilitário e ser um nivelador social”, explica Lu Catoira, autora do livro Jeans, a roupa que transcende a moda.