Diz que fui por aí

por: Margarete Azevedo
Diz que fui por aí

Nem sempre é tarefa fácil para o casal terminar um relacionamento, principalmente, se houver filhos ou patrimônio no meio, mas…


Ar enfadado, cansaço, má vontade podem ser alguns indícios de que o fim de um relacionamento está próximo. Indicam, evidentemente, uma relação insatisfatória do casal, mas muitas pessoas o mantêm por não conseguir olhar no olho do outro para dizer taxativamente o clássico “para mim chega, acabou”. Se o envolvimento não resultou em casamento, a situação é mais fácil; a ruptura pode ir de desculpas esfarrapadas ao chá de sumiço. Há até quem mantenha relacionamentos paralelos para que o “outro” force uma ruptura.

Ailton Amélio da Silva, psicólogo, psicoterapeuta e professor da Universidade de São Paulo (USP), ratifica que quanto mais enraizada a relação, é mais difícil as pessoas se separarem. “Isso explica porque tantos casamentos resistem às más condições. As pessoas têm motivos reais. Por exemplo, a princípio, nutrem amor um pelo outro; depois, ligam suas vidas econômica, social e têm filhos. A relação ganha complexidade”, analisa. Ele também é autor do livro Relacionamento Amoroso (Editora Publifolha).

Filhos continuam sendo um dos motivos que fazem muitos casais permanecerem juntos. Segundo Silva, alguns estudos comprovam a menor incidência de separação entre casais com filhos. “Quanto maior for a prole, maior a probabilidade de as pessoas se manterem casadas.” Essa situação só é diferente quando a criança precedeu a união. nesse caso, o relacionamento pode durar menos.


Medo do futuro

Sergio Savian, terapeuta e autor do livro O Amor na Contramão, (Editora Ágora), diz que muitas pessoas pensam no relacionamento como se fosse um patrimônio. o fato de terem construído muita coisa juntos, faz com que fiquem presos ao que já passou e não se permitem viver o que virá. “Quem confia na vida, sabe que outros amigos virão e outras oportunidades aparecerão. Quem não sabe ficar consigo mesmo e tem medo da solidão termina por se relacionar de qualquer forma; faz qualquer coisa para não ficar sozinho. Paradoxalmente, alguém que vive muito bem só tem mais capacidade de amar verdadeiramente.”

Para o terapeuta, dizer que o rompimento ocorre porque acabou o amor, é porque a pessoa não teve habilidades suficientes para mantê-lo vivo. “os parceiros aprendem um com o outro, quando admiram um ao outro. Se isso não ocorre, o tempo para estarem juntos esgota de fato.” Segundo ele, associar o amor ao casamento é coisa mais ou menos recente para a humanidade – matrimônio, historicamente sempre esteve associado à reprodução, à criação dos filhos e à conservação do patrimônio. Porém, juntar todos esses interesses, além da paixão, atração física, tem sido uma tarefa que pouca gente sabe cumprir.

Já Silva afirma que o amor é um sentimento volátil, sujeito a oscilações no dia a dia. Lembra que o compromisso de um casal em se manter junto supera muitos momentos de raiva, ocasiões em que um parceiro não quer nem olhar para o outro. “Apesar das brigas, os casais se dão oportunidade de reconciliação; alguns procuram ajuda psicológica. Porém, quando a situação não muda e perdura o estado ruim, os envolvidos começam a pensar em separação.”


Melhor ou pior

Além disso, há a questão do sexo, pois companheirismo, admiração e outros sentimentos no-bres não são suficientes para manter uma relação quando ele acaba, segundo o professor da USP. “Até a religião aceita a não consumação sexual como motivo de separação.” Para Savian, tanto é verdade, que após um desentendimento, quando os dois já se posicionaram e não há mais nada o que dizer, o sexo auxilia na reaproximação. A ligação que se estabelece por meio dele dá vida ao relacionamento.

Porém, quem se resigna a permanecer em uma relação por acreditar no “melhor com ele(a), pior sem ele(a)”, na opinião do terapeuta, é acomodado ou conformista. mas pode ser que revele também a consciência de que os relacionamentos no geral são complicados e que, qualquer que seja a relação, tenderá aos mesmos conflitos. “não é tão fácil iniciar um novo relacionamento, sobretudo para quem tem mais idade”, acrescenta. Em seguida, ele lista vários motivos que podem ser impedimentos para concluir uma ruptura: medo, preguiça, falta de perspectiva, opinião dos outros, criação dos filhos e questões morais.

o rompimento em geral desestrutura a vida das pessoas, principalmente, para quem é abandona-do. Savian afirma que cada pessoa tem seu tempo para viver o luto de uma separação. “Isso vai de-pender da inteligência emocional, da capacidade de desapego e do compromisso em ter uma vida boa.” Para Silva, não é possível mensurar o tempo de recuperação. o “fora” inesperado pode gerar problemas adicionais de autoestima. Segundo o psicólogo, há pessoas que demoram dez anos para refazer a sua identidade. nos casos em que a separação ocorre antes do processo legal, os envolvidos recompuseram as suas vidas de forma independente e, portanto, sofreram menos.


Hora errada

A velha fórmula “amor com amor se cura” pode ser uma saída para esquecer um parceiro, contudo, nem sempre é a melhor alternativa. Uma opção é buscar ajuda psicológica para acelerar o processo, pois quanto antes a pessoa se desapaixonar, melhor. muitos, ao se interessar por outra pessoa, sentem sua vida revigorada, mas na maior parte dos casos, eles não têm condições de fazer uma boa escolha. “não é um bom momento, afinal, estão carentes”, observa Silva.

Permanecer vinculado a uma relação fracassada e manter outro relacionamento paralelo tem se tornado cada vez mais frequente, conforme Savian. “tem muita gente casada, que desenvolve um namoro com outra pessoa, mas não consegue resolver a relação antiga”, comenta. Entre os motivos, estão filhos, patrimônio, dó, insegurança quanto ao novo relacionamento, medo da opinião dos outros. Como ainda reina muita hipocrisia no mundo dos relacionamentos, segundo o terapeuta, a autenticidade no amor é a única saída.

na avaliação do professor da USP, algumas teorias comprovam que o ser humano é moderadamente poligâmico. Para comprovar, ele recorre às evidências, como a poliginia ou matrimônio de um homem com diversas mulheres simultaneamente. Ela é característica de sociedades patriarcais, e muito mais frequente do que a poliandria – forma de matrimônio de uma mulher com vários homens, comum em sociedades matriarcais. “muitas culturas têm isso como ideal. A outra questão é o estado atual do relacionamento. Por exemplo, se a pessoa não é valorizada, é maltratada e a vida sexual está ruim, o risco dela trair aumenta. Além disso, há o fator novidade, que é sempre atraente. Dentro desse conjunto de fatores somados, aumentam as condições para ocorrer a traição”, conclui.