Cadê a Zizzoca?

por: Manoel Dorneles

Animais de estimação sempre rendem boas histórias em volta de uma mesa de bar, algumas delas realmente impagáveis, como a vivida pelo carioca Augusto


Cadê a Zizzoca?

Passa da hora do almoço. Deu praia nesta manhã de sábado, mas agora nuvens escuras rondam o Rio de Janeiro. Deve chover daqui a pouco. O bar da orla ferve. Augusto, um pouco mais acelerado que os demais moradores da cidade, entra no recinto aclamado pela turma. Já cumpriu suas funções de atleta de fim de semana e marido exemplar que lhe tomaram toda a manhã. Correu na praia logo cedo, fez umas barras e levantou peso ao lado do quiosque do Canal 9. A caminho de casa, passou pela padaria; levou leite, pão e manteiga para o café da manhã. Como faltassem algumas coisas na dispensa, recebeu da mulher, ainda semiacordada na cama, uma lista de compras de supermercado. Nem precisa dizer que foi umas três vezes, pois ela sempre esquecia de algum produto… Finda mais essa tarefa estressante, apanhou o filho pequeno e o levou para umas voltas de bicicleta no parque vizinho. Ao retornar, ainda achou tempo para uma faxina no quintal da casa. Ufa! Quantas vezes, entre suas idas e vindas, não suspirou por um chopinho, enquanto o sol rachava lá fora?

Agora ele está ali sentado na cadeira de sempre, completamente fora de sintonia em relação aos demais. Alguém já reparou como é complicado chegar a um local, uma festa, um bar, onde todo mundo esteve bebendo por horas, e só você está com o tanque vazio? Demora bem alguns chopes para pegar o ritmo. O primeiro desceu macio; Augusto até fechou os olhos para degustá-lo. O segundo enveredou pelo mesmo caminho; o terceiro então, nem se fala… A sessão de piadas corre solta. Muitas sobre o Flamengo, time que teve alguns jogadores envolvidos com a polícia num passado muito recente… “Sabe a diferença entre o Ibope e o Bope?”, indaga alguém. “O primeiro avalia quantos flamenguistas existem; o segundo contribui para reduzir esse número”. Augusto ri leve e solto. Detalhe: enquanto ainda sóbrio, lembrou-se de desligar o celular. Vai que a “patroa” lembra de mais algum produto para pegar no mercado…

Entre uma gargalhada e outra, uma rodada de chope, uma sardinha na brasa, Augusto se esquece da vida. Tão entretido está que mal percebe o cutucão do garçom a lhe chamar para atender o telefone lá no caixa do bar:

– Telefone pra mim?

– É, sua mulher…

– Diz que não estou, pô, acho que mereço um pouco de sossego.

– Acho bom o senhor atender, ela diz que é urgente!

A contragosto, ele caminha até o balcão, onde o português lhe entrega o telefone, a resmungar, como é de seu feitio, “Vê se não demora…”

– Fala, você não me deixa em paz mesmo – diz um Augusto, ao telefone, visivelmente irritado.

– A Zizzoca fugiu, sumiu!

– O quê?

– É isso mesmo que você ouviu, a Zizzoca desapareceu!

– Como aconteceu isso?

– Sei lá, foi num piscar de olhos.

Augusto não sabe se ri, se chora, se xinga, se… Por uns instantes, ele tenta escolher bem as palavras. Afinal, eles não estão falando de nenhuma cadelinha, calopsita ou de qualquer outro animal mais arisco. Zizzoca (assim mesmo, com dois zes) é apenas a tartaruga de estimação da casa. “Como ela pôde fugir assim num piscar de olhos”, resmunga…, enquanto diz alguma coisa como “depois eu vejo isso” e desliga o telefone. Caminha até a mesa, com a certeza de que se revelar seu “drama” doméstico vai virar a piada do dia, mas não tem outra alternativa, diante da curiosidade geral. Virou. Augusto não vive mais com a “vigia” da tartaruga, mora atualmente em São Paulo, mas o desaparecimento do bicho rende boas risadas até hoje. Em tempo: a “veloz” Zizzoca foi encontrada três dias depois, atrás do armário da lavanderia…

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