Vermelho para os quero-queros

por: Manoel Dorneles

Como o nível do futebol não anda lá muito bem das pernas, há quem prefira debater a invasão dos quero-queros nos gramados do País


Vermelho para os quero queros

Pouco me acrescentam os debates futebolísticos, sejam na tevê ou no rádio. Passo ao largo de todos eles, mas não pude deixar de acompanhar um dia desses o trecho de um curioso bate-boca, na rádio Jovem Pan, de São Paulo. Falavam sobre o início das obras do novo estádio do Corinthians, o “Itaquerão”, provável palco do jogo de abertura da próxima Copa do Mundo de 2014. Às tantas, Flávio Prado, ex-repórter de campo, professor de jornalismo e também comandante de mesa-redonda na televisão, apregoa do alto de sua sapiência: “Espero que o novo estádio não tenha quero-quero, essas pragas dos campos esportivos, que uma hora dessas ainda vão furar o olho de algum jogador!” O comentário esdrúxulo, evidentemente, elevou a temperatura do debate; todos queriam entender se ele falava sério ou apenas em tom de blague. O quero-quero, tero común em espanhol, ave da ordem dos Charadriiformes, é comum nos campos e campinas da Patagônia até a Bolívia, e ultimamente em quase todos os gramados onde se rola a bola continente afora. Como não sabe ler, imagino que ele não faça a mínima ideia se a grama onde coleta seu alimento e deposita seus ovos costuma acolher eventos ludopédicos ou uma manada de búfalos (se bem que pelo nível de algumas partidas, de vez em quando também fiquemos em dúvida). Vou além: me pergunto como os diligentes construtores do estádio corintiano vão convencer as avezinhas de que ali não é lugar delas? Em nome da boa convivência, certa vez, o técnico Leão chegou a suspender um treino do Palmeiras, para poupar um ninho de quero-quero próximo a um dos gols. Risco de ambos os lados. Em defesa de seus ovos ou filhotes, o macho costuma efetuar voos rasantes, armado de bico e esporões…

A pergunta que todos fizeram ao professor Prado (e a nossa também) é quem está invadindo o espaço de quem. As aves, que estão por aqui muito antes de Cabral, ou nós, com nossos prédios, construções e asfalto? E o pior é que também somos agressores. Até hoje não se ouviu nenhuma notícia de jogador de futebol de olhos furados pelo quero-quero, mas recentemente, em Campinas (SP), uma bolada atingiu um filhote da ave, que acabou morto dias depois.

A ameaça dos quero-queros, na verdade, está bem longe dos campos de futebol. Concentra-se nas áreas vizinhas aos aeroportos, onde bandos dessas aves, ao entrar nas rotas dos aviões que sobem ou descem, acabam sugados pelas turbinas e podem provocar acidentes, alguns até graves. Há aeroportos internacionais que usam falcões ou gaviões para espantar cegonhas, corvos e outras aves dessas áreas, mas seria esta a solução contra os bravos quero-queros sul-americanos? Quem sabe uma medida eficaz para os clubes ameaçados não fosse contratar o jogador panamenho Moreno, do time colombiano Deportivo Pereira, especialista em abater aves a pontapés. O atleta tornou-se persona non grata em praticamente toda a Colômbia, quando chutou e matou, durante uma partida de futebol, no campo do Junior Barranquilla, uma coruja, mascote do time local. Como tantas outras, essa também vivia no gramado ou empoleirada na trave, exatamente “onde a coruja faz o ninho”, como dizem os narradores esportivos, e onde, vez ou outra, alguns jogadores acertam seus chutes. A chiadeira contra Moreno, que começou no campo, estendeu-se por todo o estádio, pelo país e chegou às entidades protetoras dos animais. O desastrado jogador, “bisca ruim” mesmo ou ignorante da força do próprio pé, justificou-se: “Só encostei a chuteira nela, para ver se voava.” Matar coruja dá azar; no caso dele, além da ameaça de dispensa do time, está pedindo desculpas até hoje!