Nem só de circo

por: Margarete Azevedo

O carnaval brasileiro, visto pelas lentes de uma europeia, não é apenas uma exposição de mulheres seminuas, mas uma explosão de cultura


Nem só de circo

A agente de turismo de Milão anda preocupada com a imagem do Brasil que é mostrada na Europa. Durante o cruzeiro pelos canais da Patagônia chilena, ela revela que desgosta de ver o País associado às curvas e sinuosidades de suas mulatas e, principalmente, a adolescentes nordestinas “vendendo” seus corpos à beira-mar. Explico que essa imagem está mudando, graças a ações do governo (via Ministério do Turismo e Embratur), ao trabalho da polícia e também da própria mídia, que denuncia constantemente tais fatos. Graças também ao trabalho de pessoas, como a fotógrafa franco-espanhola Catherine Krulik, radicada no Brasil desde 1992, que decidiu conferir um olhar antropológico ao carnaval brasileiro. Mostrar que, muito além de uma exposição de corpos esculturais seminus, capaz de atrair milhares de turistas do mundo inteiro ao Rio de Janeiro, a principal festa popular brasileira é um show de cultura também em outras regiões do País.

Nem só de circo

Nascida em Paris, educada em Madrid, formada em fotografia em Londres e West Surrey, Catherine tem levado a sua arte por onde passa. Participou de importantes festivais de fotografia e de diversas exposições individuais e coletivas na Inglaterra, na França e no Brasil. Suas fotos são publicadas em jornais e revistas internacionais, ampliando horizontes do Oriente ao Ocidente. Só o seu acervo do carnaval brasileiro é composto por mais de 14 mil imagens. Ela começou a fotografar a festa em 1995, ainda em Ouro Preto, porém a ideia de um projeto mais amplo surgiu apenas dois anos depois quando passou por Olinda e Recife. “Então segui para o Rio de Janeiro, onde fiz a minha maior descoberta, inebriada pelas maravilhosas cores na passarela! Concluí o projeto 14 anos depois – em fevereiro de 2010, fotografando a folia paulistana”, relata.

A fotógrafa esteve no País a primeira vez em 1989, quando fotografou tudo em preto e branco. A partir do instante em que se estabeleceu aqui, suas imagens ganharam cor. “Quando comecei a viajar e a fotografar o carnaval, o que mais me chamou a atenção foram as cores. Em comparação com a cidade de Londres, na Inglaterra, onde morei por sete anos, o Brasil é um país repleto de cor.” Comparando à capital inglesa, onde tudo é cinza (sem sol, calor humano, cor), aqui há um contraste intenso. A partir dessa constatação, ela passou a explorar tudo, o movimento, a alegria, a diversidade cultural.


Ser humano


Por sua visão peculiar do carnaval brasileiro, Catherine conquistou o prêmio FujiFilm Europress Award France 1999. No ano seguinte, ela expôs seu trabalho no Festival Internacional de Fotografia Terre d’Images, em Biarritz, França. Em 2001, participou do Festival Internacional de Fotografia Art’Image d’Avignon, França, com projeção de slides nos muros do Palais des Papes e exposição no Espace Saint-Louis. Já em 2005, seu trabalho teve destaque nas comemorações do Ano do Brasil na França. Na ocasião, fez quatro exposições todas com amplo destaque em Paris, Poitiers e Vendôme.

Para a fotógrafa, o que mais se destaca na fotografia (o que mais lhe interessa) é o ser humano. Longe da visão da maioria dos europeus, ela quis mostrar por meio de seu trabalho, que não existe apenas o carnaval do Rio de Janeiro, mas muitos outros. “O Brasil é um país de dimensões continentais. Cada região tem as suas peculiaridades, seus regionalismos. É lógico que o carnaval carioca é o mais explorado pela imprensa internacional – são milhares de fotógrafos que vêm todos os anos para cá, mas sempre mostram a mesma coisa: corpos lindos, maravilhosos. Eu tive o olhar mais pictórico ao retratar a beleza, a cor, a qualidade das fantasias.” Isso fez com que a Espanha, a França e alguns países da Ásia se interessassem pelo seu trabalho, porque até então nunca o carnaval brasileiro tinha sido visto com um olhar diferente. Segundo ela, hoje em dia, há trabalhos bem parecidos, mas na época não.

Em suas incursões pelo interior do Brasil, Catherine conheceu e fotografou os carnavais da Zona da Mata de Pernambuco, de São Luís (MA), do Amazonas e Salvador (BA). De todas, a experiência mais marcante foi a convivência com os pernambucanos. Três semanas antes do evento, ela teve oportunidade de conferir não só os preparativos da festa como também observar outros detalhes do dia a dia das comunidades. “Conheci os canaviais, pois a maioria dos membros do maracatu são cortadores de cana-de-açúcar, que não têm recursos para investir em fantasias. A convivência com os moradores, artesões e líderes dos maracatus foi uma experiência humanamente enriquecedora.”


Mergulho


Embora apaixonada pelo carnaval do Rio de Janeiro, pela sua grandiosidade, a fotógrafa se disse impressionada com a criatividade do folclore pernambucano. Na sua opinião, é fundamental conhecer o local onde vai trabalhar com alguns dias de antecedência. “Eu procuro fazer o précarnaval, ou seja, o que ocorre antes da festa em si”. Ela diz que gosta de entrevistar as pessoas e acompanhar a programação das atividades.

Em seu livro Carnavais do Brasil (192 páginas, edição trilíngue – francês, inglês e português), foram reunidas 150 imagens antológicas. A seleção das imagens contou com a participação da também fotógrafa e designer gráfica Maristela Colucci. Para Diógenes Moura, escritor e curador de fotografia, também autor do prefácio da obra, o livro entra em uma segunda camada da fotografia. “Olhem bem para as fotografias de Catherine Krulik. Mergulhem nessa segunda camada para tentar descobrir por que não somos tão somente o país do Carnaval. E por que, mesmo assim, sabemos bordar com sangue, suor e cerveja a fantasia que poderá ir do ontem ao muito além”, frisa.

A fotógrafa pretende continuar clicando o Carnaval tanto que este ano tinha planos de cobrir a folia em Bezerros, no agreste pernambucano. “Tem muita novidade como a Noite dos Tambores Silenciosos, no centro antigo de Recife; e a concentração dos Maracatus de Baque Solto, na cidade pernambucana de Tabajara. Sempre retorno para fotografar algo que não fiz. O Brasil, essa salada étnica espalhada em um território imenso, produz inúmeros carnavais; mas só podemos viver um de cada vez.” Ela entende como natural que alguns prefiram o carnaval de Olinda; outros, o do Rio de Janeiro; ou de Salvador, e assim por diante. Mas entende muito mais que, o que importa mesmo é se divertir e brincar.