Minha religião não permite…

por: Margarete Azevedo

Há quem jejue por motivos religiosos, há quem o faça apenas para emagrecer. De uma maneira ou de outra, ainda não há um consenso sobre o assunto

Minha religião não permite...

Temos um dos maiores potenciais pesqueiros do mundo, ao longo de uma costa de quase 9 mil quilômetros de extensão, mas é só no período da Quaresma que lembramos de que está na hora de comer peixe. Os mais chiques vão de bacalhau, importado evidentemente, cujo preço, com o dólar em baixa, parece estar mais em conta desta vez. Maravilha este bacalhau à Gomes de Sá, este salmão assado, mas contamos os dias que faltam para chegar o sábado de Aleluia, para nos empanturrarmos naquele churrasco fantástico, afinal, a carne tanto a nossa quanto a do açougue são fracas.

Exageros à parte, a carne está na mesa do brasileiro o ano inteiro, exceção aos católicos mais ortodoxos, para os quais ainda vale o antigo preceito de não comê-la às sextas-feiras da Quaresma. Muitos vão além e se abstêm dela durante os 40 dias que separam a Quarta-Feira de Cinzas da Páscoa. Só que a abstenção de alimentos como maneira de penitência durante um determinado tempo, não é uma prática restrita aos cristãos. Aliás, não só a abstenção de carne, como também o jejum, são práticas comuns e universais.

Silas Guerriero, antropólogo e professor do programa de pósgraduação de Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), afirma que o jejum é uma forma da pessoa controlar o corpo por uma força exterior. A exemplo da peregrinação, a prática é um tipo de sacrifício, pois ela se priva de alimentos. “As religiões propõem alguns interditos em relação a tempo, espaço, alimentação, sexo e uma série de outras coisas. É uma forma de demarcar a identidade do grupo. Quem pratica, segue, respeita as proibições é alguém digno e confiável na comunidade.” De acordo com a religião ou seita, as motivações também se diferenciam, seja para se aproximar do divino, para alcançar um estado de desapego material ou de humildade, entre outras. A prática do jejum constitui-se em um dos cinco pilares do islamismo. É obrigatório uma vez por ano, na época do Ramadã, que corresponde ao nono mês do calendário islâmico. Durante o período, alimentos, bebidas e a prática sexual são proibidos da alvorada ao pôr do sol. À noite, é permitida alimentação moderada acompanhada por orações. A prática é tida como uma purificação física, mental e espiritual.


Penitência


Entre os judeus o principal jejum é o do Yom Kipur, Dia do Perdão, geralmente no mês de outubro. Nessa ocasião, a pessoa se abstém de líquido, alimento, sexo e fumo, entre o amanhecer e o pôr do sol. O dia é dedicado a reflexão. Além disso, existem outras quatro datas no calendário judaico em que se deve jejuar. No catolicismo, o jejum da quaresma tem por objetivo preparar a alma do fiel para o nascimento do Cristo, que culmina na Páscoa. Já o jejum da Sexta-Feira da Paixão rememora o sacrifício de Jesus. A prática da abstenção tem alguns significados, como ensinar a pessoa a controlar os desejos da carne; mas serve também como penitência pelos pecados e como forma de se solidarizar com os menos favorecidos. Vale destacar que, por séculos, os católicos foram proibidos pela igreja de comer carne às sextasfeiras do período quaresmal. Não faz muito tempo, o próprio papa anunciou a liberação. Mesmo nas religiões indígenas brasileiras são comuns algum tipo de restrição alimentar, por exemplo, nos rituais de passagem para a vida adulta, durante a gravidez ou após o parto. Nesse caso, inexiste qualquer conotação religiosa. Segundo Guerriero, a religião na sociedade ocidental passa a ser uma esfera autônoma. Os indígenas também costumam eleger alguns animais como sagrados, os quais só podem ser abatidos e comidos em festas religiosas específicas. São os animais totêmicos, por exemplo, as araras azuis e as vermelhas, que são sagradas para os bororós, segundo o antropólogo. Nas religiões afro-descendentes, como a umbanda e o candomblé, há jejuns específicos para determinados rituais. O objetivo é de purificação, ou seja, uma maneira de se distanciar do que é profano e se aproximar do que é sagrado. O importante é que sempre existiu, no Brasil, o respeito às diferentes tradições religiosas. “Há uma máxima na nossa sociedade de que religião é uma questão de foro íntimo e tem de ser respeitada, mas às vezes, vemos algumas agressões.” Um exemplo dessas violações, conforme Guerriero, se dá no candomblé, em que existe a comida de santo. O rito é uma forma de preservação da identidade. “Alguns grupos religiosos ridicularizam o ritual e acabam agredindo verbal, simbólica ou até mesmo fisicamente os praticantes.” Mas isso tem mais a ver com a questão dos conflitos entre as religiões, na sua avaliação.


Efeito sanfona


Religiosidade à parte, o fato é que o jejum gera consequências no organismo. Em uma escala de valores para o ser humano sobreviver, é fundamental que exista ar, água e alimentação, necessariamente nessa ordem. O organismo diante de uma situação de jejum, seja voluntária ou involuntariamente, perde água e sal. O infectologista e nefrologista Paulo Olzon, da Clínica Médica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que a abstenção de certos tipos de alimentos é suficiente para fazer a pessoa perder peso. A depender do peso inicial, perde-se de dois a três quilos por dia. Mas, basta retornar ao hábito alimentar de antes para o peso também se elevar. Nos casos de jejum mais longos, após a redução de peso provocada pela perda de água e sal, o organismo passa a utilizar os estoques de açúcar que dispõe. Olzon esclarece que o processo pode ocorrer paralelamente. “Esses estoques são reservados no fígado e nos músculos. A gordura passa a ser transformada em açúcar; por isso, a pessoa passa a emagrecer”. Na medida em que o organismo começa a utilizar gordura como fonte de energia, ele libera substâncias que inibem a vontade de comer. “Chega um momento em que a pessoa deixa de ter fome. Ela é capaz de aguentar mais de um mês em jejum”, acrescenta. Um exemplo de que o jejum proporciona perda de peso, apenas por um determinado tempo, está nos animais acostumados a hibernar, mas que depois desse período, continuam quase tão gordos quanto antes. De acordo com a compleição física, os efeitos podem ser drásticos, como no caso dos anoréxicos, em que o organismo para sobreviver passa a decompor proteínas. Segundo o médico, aqueles que têm um excesso de peso dispõe de uma reserva de energia. Já a pessoa magra, por não ter essa reserva, vai sofrer muito mais rapidamente com o processo. Sobre os benefícios, o médico comenta que no meio científico a prática é bastante discutida e polêmica. “Há quem defenda que o jejum traz algumas vantagens”. Sobre as pessoas que elegem a segunda-feira para desintoxicar o corpo e ingerem apenas líquidos e sopas, o médico frisa que a prática não é suficiente para lidar com os exageros. “Na verdade a segunda-feira é o dia nacional da culpa. Para que a pessoa emagreça efetivamente é preciso que exista uma mudança de hábitos. Um dia só não é suficiente”.