Na hora certa, no lugar errado

por: Manoel Dorneles

Desde que o mundo é mundo, o homem tenta controlar o tempo. Ninguém conseguiu tal façanha, embora alguém tenha chegado bem perto dela Manoel

Na hora certa, no lugar errado

O homem tem a pretensão de ser o senhor de toda a criação, de todas as tecnologias e invenções, do próprio homem. Ele só não consegue dominar o tempo. Desde que pôs os pés sobre a Terra – venha de onde veio ou como veio –, trava uma luta árdua contra esse inimigo implacável e, invariavelmente, perde. O tempo passa, atravessa, retorna; o homem apenas se vai… Como o avião que parte no horário exato (de vez em quando), e deixa para trás aquele que não conseguiu chegar a tempo do embarque. Na sua poltrona, está o passageiro felizardo que decidiu antecipar a volta para casa. Mas, eis que justamente naquele dia, a aeronave cai… azar de quem chegou a tempo (ou “tinha tido a sorte” de adiantar o voo), sorte do atrasado. Não seria ainda o seu tempo! Quantos relatos como esses já não ouvimos, após um grande desastre aéreo?

A situação não é diferente no mundo profissional, onde o talento é indispensável, desde que alinhado a uma boa dose de sorte e uma certa condescendência (nunca domínio) do tempo. Sei de um caso assim! Oldemar Costa, catarinense de Urussanga, aos 20 anos, locutor da Rádio Difusora de Itajaí (onde também fora eleito o vereador mais jovem do Brasil), acabara de ser contratado pela Rádio Bandeirantes, de São Paulo, para atuar na área de esportes. De folga, na tarde do dia 22 de novembro de 1963, passava pela porta da emissora, quando foi informado do atentado contra o então presidente norte-americano John Kennedy. Curioso, subiu ao estúdio, onde estava apenas o subchefe do departamento de jornalismo Moacir Fernandes, que ao vê-lo, pediu ajuda. Redator, ele precisava de um locutor para ler as notícias.

Minutos depois, coube ao novato barriga-verde, verde também nas lides da emissora famosa e da cidade grande, o privilégio de comunicar para todo o Brasil: “O presidente Kennedy está morto!” Era a tradução da frase em inglês “The presidente Kennedy is dead”, dita pouco antes pelo locutor norte-americano Dan Rather, que mais tarde ficou famoso pelo programa “60 Minutes”, da rede CBS. A essa altura, Oldemar já ganhara o aval de seu chefe Alexandre Kadunc, que decidiu prestigiá-lo, em vez de convocar as estrelas da casa. Apenas sorte de principiante? Não, competência também. Aficionado por política, ele acompanhara em 1960, durante a campanha eleitoral norte-americana, todos os debates entre Kennedy e seu adversário, Richard Nixon. Munido dessas informações, ele e Moacir conseguiram “segurar” a programação da Bandeirantes, enquanto não chegavam, através dos teletipos internacionais, mais notícias sobre o atentado.

O jovem locutor sabia tudo, não apenas sobre a campanha, mas também sobre o governo Kennedy: os foguetes russos em Cuba, o bloqueio aéreo e naval da ilha, autorizado pelo governo norte-americano, e a tentativa de invasão por mercenários, no episódio que ficou conhecido como “a crise da Baía dos Porcos”. Foi a sua consagração, pois naquela tarde, a Rádio Bandeirantes conseguiu superar todas as demais em audiência, inclusive a Difusora São Paulo, então líder na cobertura de grandes eventos. O episódio rendeu a Oldemar um convite para apresentar um jornal matutino da emissora e o reconhecimento pleno do mercado. Com seu vozeirão, ele não atua mais no rádio, hoje em dia, mas ainda trabalha em seu próprio estúdio de locução e, nas horas vagas, dedica-se à fotografia. É a maneira mais aproximada que encontrou de capturar instantes fugidios do tempo, seu grande aliado, afinal, um dia ele foi o homem certo, no lugar certo, na hora exata!