Cadê o leitorzinho da mamãe?

por: Margarete Azevedo

Entre os 6 e 20 meses, os pais podem começar a ler para seus bebês. Além do apego aos livros, eles poderão ter vantagens na vida escolar no futuro

Cadê o leitorzinho da mamãe?

Diziam os mais antigos que “é de pequenino que se torce o pepino”, expressão tirada do costume dos agricultores de retirar uns “olhinhos” da rama da planta, que podem conferir um gosto desagradável ao vegetal quando adulto. Transposta para o campo da psicologia, a frase indica que o caráter e os valores de uma pessoa devem ser moldados e adquiridos desde os seus primeiros anos de vida. Daí o hábito de alguns pais de lerem para seus filhos, ainda no ventre materno, o que muitos consideram um exagero. É fato comprovado que o contato com os livros nos primeiros meses de vida garante à criança um melhor rendimento escolar.

Como ninguém se torna leitor voraz do dia para a noite, não convém deixar somente para os educadores essa tarefa. Por que não dividi-la com os pais, quando seus filhos estiverem ainda na fase de alfabetização? O psicólogo João Batista Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beto (IAB), Organização Não Governamental (ONG), criada em novembro de 2006, que visa disseminar e promover políticas e práticas de educação baseadas em evidência, lembra que é imprescindível formar o hábito de ler desde o berço. “Ler para a criança, ler com a criança, colocar livros à sua disposição. Ela vai gostar de ler, porque esta é mais uma maneira de estar perto de seus pais e cuidadores.”

Segundo o psicólogo, as crianças muito pequenas nunca tiveram relação estreita com a leitura, principalmente nas últimas décadas, quando os livros enfrentam a competição da TV e dos computadores. “A TV tem efeitos devastadores, especialmente nos dois primeiros anos de vida. Os livros poderiam ocupar esse espaço que a TV toma indevidamente, de forma a se incorporar nas rotinas da vida das crianças”, acrescenta. Essa realização poderia ajudá-las muito na vida e na escola. Além disso, os pais são os principais modelos dos pequenos, durante parte da infância, a ponto de imitá-los em várias situações. Deste modo, quanto mais cedo conviverem com os livros e os observarem lendo, melhor.

Estímulos

Oliveira explica que, entre os quatro e seis meses de vida, a criança já consegue fixar a visão e reconhecer algumas formas. A partir dessa idade, ela pode conviver com livros feitos de pano, de plástico e outros materiais indicados para pegar e manipular. Nessa fase, é comum ela levar o livro à boca. Os pais devem apresentar as gravuras, chamar atenção para as ilustrações, embora nessa idade a atenção seja de poucos segundos. “Mesmo que não esteja acompanhando poemas, histórias ou rimas, a criança adquire uma série de comportamentos e competências que serão úteis mais tarde”, indica.

Estimular precocemente a leitura, ajuda a criança não só a ler e a gostar de ler, como também a desenvolver vocabulário e sintaxe. Isso é particularmente importante para aquelas que vivem em ambientes menos favorecidos do ponto de vista da qualidade da linguagem ouvida no dia a dia. Mesmo quando não há essa incitação, é possível reverter o quadro em idades mais avançadas. De acordo com o psicólogo, a plasticidade e capacidade de adaptar-se são próprias do ser humano. Nunca é tarde para começar, e especialmente para desenvolver o gosto e hábito de leitura. Mas há oportunidades que podem ser mais bem aproveitadas do que outras.

Como as crianças começam a aprender a falar a partir dos 10 ou 12 meses, é nesse intervalo, especialmente dos 6 aos 20 meses, que um programa regular de leitura e conversa sobre livros pode ter um impacto duradouro sobre a melhoria da linguagem delas. Na mesma esteira do desenvolvimento de um vocabulário mais elaborado, vêm outras habilidades como concentração, curiosidade, criatividade, raciocínio e memória. “Ler possibilita ainda a percepção dos próprios sentimentos e os de outras pessoas, além da percepção de emoções”, emenda Oliveira.

Interação

A escolha dos livros deve ser norteada por dois critérios infalíveis e importantes, conforme o presidente do IAB. O primeiro é ler o que é de interesse da criança, pois caso ela não seja atraída, não vai prestar atenção. A variedade é o segundo critério. É fundamental ler diferentes tipos de livros – no conteúdo, no formato, na apresentação. É a partir desse interesse dos filhos, que os pais criarão novos padrões.

Não existe uma forma ideal para manter o filho entretido na leitura. Oliveira diz que qualquer livro comporta várias leituras e formas de ler. Há pais, inclusive, que tendem a dramatizar as histórias, fazer diferentes entonações e ruídos com o objetivo de despertar o interesse da criança. Uma característica importante do texto escrito é sua estrutura sintática e, no caso de livros ilustrados, sua interação com o texto, segundo ele.

Ao ler para a criança, especialmente nos primeiros anos de vida, a conversa antes, durante e depois da leitura é muito importante. “Como é importante a releitura dos livros – entre 2 e 3 anos, a criança vai insistir para os pais relerem os livros, e não aceitará qualquer mudança no texto. Isso feito, nada impede que haja outras formas de relacionar o texto com a vida, com o cotidiano, ou mesmo fazer dramatizações em torno da leitura”, ensina o psicólogo.

Oliveira argumenta que as boas editoras tendem a classificar os livros por idade, e os leitores sabem que essas classificações são apenas indicativas. Ou seja, elas representam o que a média dos consumidores tende a preferir. Como nada substitui o bom julgamento dos maiores especialistas em criança, que são os seus pais, uma das maneiras é consultar fontes adequadas. O IAB, por exemplo, produziu o Guia IAB de leitura: os 600 livros que toda criança deve ler antes de entrar para a escola. Informações sobre esse guia podem ser obtidas no site www.alfaebeto.org.br

Na opinião do psicólogo, embora as crianças tenham semelhanças entre si em muitos aspectos, os interesses são diferentes. Elas gostam muito de livros com animais – e mais da metade dos livros para esse público trata desses assuntos. Já os bebês gostam de ver fotos e livros que mostram outras crianças; depois, gostam de ver animais, cenas e objetos familiares, até passarem a identificar interesses mais específicos em temas que os pais facilmente identificam.

Ante o possível desaparecimento das livrarias, nos dias atuais, em benefício cada vez maior do comércio eletrônico, as redes sociais e a Internet assumem o papel que antes cabia às lojas de varejo. Segundo Oliveira, a informação na Internet é horizontal; não há hierarquia; nem todos sabem como identificar fontes com autoridade. “Estamos num mundo em transição. Ao mesmo tempo em que temos a Internet, temos também grandes livrarias e, inclusive, seções ou livrarias especializadas em livros infantis, mas infelizmente isso está limitado a algumas grandes cidades. É por isso que o IAB espera contribuir com informações para ajudar os pais e bibliotecários em suas decisões sobre o que ler para crianças”, finaliza.