Coisa pra se guardar…
As redes sociais distribuem amigos de baciada nos dias que correm, mas quais seriam os atributos necessários para que se floresça uma verdadeira amizade?
É comum, nestes tempos de proliferação de redes sociais, as pessoas se gabarem da quantidade de amigos que têm no Facebook, Orkut, Twitter etc. Esse comportamento apenas reflete o atual momento social, ou de como é fácil manter relações superficiais nos grandes centros urbanos, pois o fato é que os verdadeiros amigos continuam a ser contados nos dedos das mãos. Ainda assim, a pessoa arrisca uma busca rápida na Internet para ficar com a impressão de que se pode contar com uma rede infindável de amigos. E como “quem tem amigos não morre pagão”, é provável que ela sofra menos estresse, recupere-se mais rápido de ataques cardíacos, de um câncer de mama e outras enfermidades, além da probabilidade de usufruir de uma vida longeva.
Poucos são os felizardos que conseguem manter o rol de amigos da infância e que angariam novas amizades em situações rotineiras ao longo da vida. A maioria das relações não se sustenta por um longo período, pois as pessoas deixam de ter afinidades comuns. Mas há exceções, como aqueles que se relacionam com seus parentes como se fossem amigos; os que praticamente vivem rodeados de amigos; e também aqueles que têm um amigo para cada evento social, por exemplo, um para jogar bola, outro para ir jantar, para as baladas. Apesar de todo desenvolvimento tecnológico, renovar o repositório de amigos não é tão simples como se possa imaginar. “Os idosos sofrem muito com isso. Os amigos morrem e a família muitas vezes não supre essa carência; não lhes dá atenção”, indica o psicólogo Antonio Carlos Amador Pereira, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Nessa fase, a rede social do idoso é o dono da banca de jornal, o funcionário do supermercado. “Na maioria das vezes, as pessoas têm um amigo para compartilhar alegrias e tristeza. O ser humano é essencialmente social”, cita o psicólogo. Conforme o professor, em uma relação de amizade é vital a reciprocidade. “Amizade é troca. Além da partilha, deve haver apoio e sensibilidade. É importante perceber se o outro está alegre ou triste.” Por se tratar de uma relação viva, é de se esperar que os amigos falhem de vez em quando; afinal, ninguém é perfeito. Inclusive, nós mesmos. Reconhecer e aceitar essa possibilidade evita frustrações futuras.
Coleguinhas
Não é saudável esperar de um amigo só o apoio incondicional. Segundo Pereira, não é papel do amigo ser bajulador e condescendente a todo o momento. “O falso amigo tenta agradar o tempo inteiro, porém, a partir do momento em que a pessoa deixa de ter poder ou dinheiro, ele desaparece. Claro que existem pessoas extremamente carentes de bajulação ou de apoio incondicional. Mas elas precisam ter amigos e não seguidores”, afirma. Há também as relações interpessoais, ou seja, muitas vezes o colega não é o amigo necessariamente. É o caso do ambiente de trabalho, por exemplo, onde nem todas as pessoas são amigas. “Algumas relações são até calorosas, mas não chega a ser uma amizade porque não há intimidade”, observa o psicólogo. Além disso, nos grandes centros urbanos, estabelecer vínculos costuma ser uma tarefa árdua. É preciso “baixar” guarda para desenvolver uma relação de amizade. “As pessoas são absolutamente formais, às vezes, moram em um mesmo prédio, utilizam áreas comuns, como o elevador, e não se cumprimentam. Ao mesmo tempo em que precisam de amigos, elas têm muita dificuldade de conquistálos”, diz Pereira. O contrário se dá em centros menores, onde a pessoa dispõe de uma rede social maior. A proximidade, a semelhança de interesses ou situações comuns facilita isso. Mesmo o mito de que as amizades devem ser eternas pode ser contestado, pois há situações em que o melhor é abandonar o amigo ao longo do caminho. A exemplo do que ocorre com as relações românticas, algumas amizades se desgastam e um belo dia uma das pessoas deixa de gostar da outra. Simples assim? Claro que não, pois gera sempre algum desapontamento. Estudiosa do tema, desde 1980, a socióloga norte-americana Jan Yager, da Universidade de Connecticut, Stanford, deparou-se nesse período com um aspecto específico: a traição na amizade.
Estímulo
Para que exista uma amizade, a opinião unânime é de que deva existir confiança mútua. Esse sentimento possibilita confiar ao outro pensamentos e informações íntimas. Caso não haja uma via de mão dupla, a confiança abre as portas a uma possível traição. A empatia, honestidade, discrição e parceria são aspectos fundamentais da amizade, conforme a socióloga. Sentimentos como ciúmes, inveja e disputas podem surgir entre os amigos, segundo Jan, mas em pequenas quantidades. “Essas emoções, mesmo em relação a parentes ou a parceiros amorosos, são normais e naturais. Elas ajudam as pessoas a se estimularem, de modo que obtenham para si o que aquelas de quem gostam estão conseguindo para elas”, destaca. O importante é saber quantas vezes sentimos inveja, ciúme ou disputa, e com que frequência. Como não é possível prever se um determinado amigo irá pisar na bola, o melhor a fazer é se prevenir. Em seu livro Bons amigos, maus amigos, a socióloga ensina a reconhecer 21 tipos distintos de amizade, que giram em torno de sete assuntos centrais: confiança, empatia, sinceridade, sigilo, disputa, aceitação e existência de limites adequados. Listados em ordem decrescente (veja no quadro da matéria), o quebrador de promessas ocupa o primeiro lugar. Reconhecer o que está causando esses comportamentos, e aprender a lidar com eles, pode proporcionar paz de espírito. Mas existe sempre a questão da intensidade. De acordo com a socióloga, é possível identificar algumas dessas características em si mesmo ou em um amigo, porém, a ocorrência pode ser tão rara ou momentânea e não causar problemas. “Alguns amigos podem ser traiçoeiros desde o início; outros, acabam se transformando pelo que pode estar acontecendo nas vidas deles ou por mudança de personalidade”, aponta Jan. Identificar os efeitos negativos em uma amizade não é difícil. Basta observar se há reciprocidade, como foi destacado pelo professor da PUC-SP. Se não há, a amizade não se sustenta por muito tempo. “Às vezes, a pessoa tem ótimos amigos, mas são problemáticos, por exemplo, só absorvem, tiram energia. Quer dizer, quando se precisa deles, se omitem.” Em suma, amizade é uma relação mútua. Quando não há essa troca, é difícil falar que é uma amizade verdadeira. (M.A.)
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