O lápis reto e correto

por: Manoel Dorneles

Conceitos de sustentabilidade e preocupação com o ambiente estão estampados em cada etapa de produção do Ecolápis nº 1 do mundo

O lápis reto e correto

O desfile da seriema

Exibicionista como ela só, a seriema passeia de um lado para o outro, como se estivesse em um balé de boas-vindas à espera do clic do fotógrafo. Tal comportamento não é do feitio dessas aves ariscas, típicas da Região Centro-Sul do Brasil, mas esta parece estar bem acostumada à presença do homem. Antes de prosseguir, cabe uma explicação sobre o que essa ave está fazendo nesta matéria da Faber-Castell – a maior fabricante de lápis do mundo. Na verdade, fazendas de pinus caribaea da companhia, localizada no e no mundo.

“Vocês não estão dando comida para ela?”, indaga preocupado o engenheiro florestal Ronaldo Oliveira, responsável pela operação florestal da Faber-Castell. A resposta do funcionário da torre de prevenção contra incêndios tem de ser negativa, pois o Animalis não permite que se interfira no modo de vida dos bichos. Não são apenas seriemas preservadas, mas também emas, onças-pardas, jaguatiricas, lobos-guarás, veados, tamanduás-bandeira e inúmeros outros representantes da rica fauna do Cerrado brasileiro. Além do Animalis, nas 11 fazendas da empresa, são desenvolvidos o Projeto Acqua, que cuida das nascentes; o Projeto Arboris, para a vegetação natural; o Projeto Solos, que trata dos solos; e o Projeto Ecomunidade Prata, que promove a interação com a população local.

O lápis reto e correto

Floresta de pinus, em Prata (MG)

As fazendas ou parques florestais, como são chamadas essas áreas na Faber-Castell, ocupam uma área de 9,5 mil hectares. Deste total, 69% ou 6,7 mil ha são ocupados pelo pinus e o restante pelas matas nativas, nascentes etc. Data de 1989 – há 22 anos – o plantio em Prata das primeiras mudas de pinus, cujo ponto ideal de corte dá-se após 25 anos. Atualmente, 110 colaboradores terceirizados, comandados por Oliveira, cuidam do preparo do solo, plantio das mudas, dos aceiros limpos, do desbaste periódico das árvores e do corte, recém-iniciado. Pelos úmeros do engenheiro florestal, são cortados mensalmente 3 mil estéreos de caminhão ou algo como 2 mil m3. A ideia é de que, dentro de cinco anos, a floresta garanta à empresa a autossuficiência em madeira. Por enquanto, cerca de 80% dos 8,4 mil m3 de madeira, processados na serraria de Prata, são adquiridos de terceiros, segundo o administrador Jorge Novato. A capacidade total da fábrica é de 11 mil m3.

Trabalham na serraria, em três turnos, pouco mais de 500 colaboradores. Eles são responsáveis pela operação das serras que cortam as toras no padrão de 1 metro, descascamento, preparo dos caibros de madeira ideal para o lápis. Pelos padrões da indústria, uma boa tora deve ter entre 40 e 48 cm de diâmetro. Os caibros são serrados em tábuas finas, que se transformam na próxima etapa em tabuinhas, quase do tamanho de um taco. O rígido processo de seleção, manual e visual, separa as de primeira e segunda linhas e os descartes. São refugadas tábuas do cerne da madeira (muito duras), com nós, com excesso de resina, empenadas, rachadas, felpudas etc.

Depois da seleção, as tábuas são embaladas e levadas para o autoclave, onde passam por um processo de secagem de uma hora. Em seguida, recebem cera aquosa e outros lubrificantes e voltam para o forno para mais 1h20 de secagem. O próximo destino das tabuinhas é a fábrica de São Carlos (SP), mas antes disso, elas passam 65 dias “descansando” nos depósitos da serraria. Pela contabilidade de Novato, os dois galpões de estocagem têm armazenados tabuinhas suficientes para 3,5 milhões de glosas de lápis, mais ou menos três meses de trabalho. Em seus 23 anos de empresa – 17 deles na serraria –, ele carrega na cabeça vários números e índices, mas desconhece o porquê dos 65 dias de “repouso” para as tabuinhas. Deduzo que seja apenas mais uma das tradições desta corporação, que em 2010 festejou 80 anos de Brasil e em 2011, 250 anos no mundo.

Bichos na ponta do lápis

Jairo Cantareli, diretor responsável pela área de madeira da Faber-Castell, ilustra sua entrevista sobre o EcoLápis com a exibição no notebook de apresentação feita em junho último, durante o Deutsch Welle Global Media Forum, na Alemanha. O projeto de Prata, cuja previsão é para a produção de 6,5 milhões de lápis/dia, é único em todo o mundo nessa indústria.

Os 9,6 mil ha integram o bioma do Cerrado, um total de 2 milhões de km2, quatro vezes o tamanho da Espanha. Essa área engloba 1/3 da biodiversidade brasileira ou 5% da flora e fauna mundiais. Nesse espaço vivem 10 mil espécies vegetais, 837 de aves, 161 mamíferos, 150 anfíbios e 120 répteis. “O conceito é de gerenciamento de plantações de florestas, que ao mesmo tempo produzem madeira e preservam a biodiversidade”, explica Cantareli.

A política da companhia contempla cuidados com áreas degradadas e descontinuadas, proteção contra fogo, melhoria da qualidade dos solos, monitoramento das pragas e educação ambiental, além dos projetos Arboris e Animalis, extensivos às flora e fauna. Desde a implantação, além do crescimento das áreas de mata nativa, foi detectado um aumento de 28% nas espécies de aves e 34% de mamíferos e outros animais. De 1992 até hoje, o número de espécies de mamíferos na área pulou de 27 para 55 (137%) e o de aves, de 145 para 232 (60%).

Aprovado com louvor

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entrada da fábrica em São Carlos (SP)

O cenário agora é outro. A mais de 500 quilômetros da floresta e da serraria de Prata, está a maior fábrica de lápis do mundo, localizada na periferia da progressista São Carlos, a cerca de 250 quilômetros de São Paulo. O moderno laboratório da Faber-Castell é a porta de entrada para a visita, coordenada pela supervisora analítica Lucia Tuboy.

O rígido controle de qualidade preocupa-se, por exemplo, com a durabilidade da escrita das canetas; a intensidade das cores dos lápis; a apontabilidade do lápis e do apontador; e a presença de materiais pesados na matéria-prima. O exame toxológico indica os principais materiais prejudiciais ao organismo humano: chumbo, cádmio, cromo e bário.

Todos os testes são feitos antes, durante e após o processo de fabricação, segundo a supervisora. Também são verificadas a maleabilidade do plástico e a qualidade da madeira. Neste caso, a mais utilizada pela Faber-Castell, no Brasil, é derivada do pinus caribaea, mas usa-se também a gmelina (originária do Caribe) e o álamo, este de cor avermelhada, mais indicado para a indústria de cosméticos.

Sanduíche

Grosso modo, o processo de produção do EcoLápis Faber-Castell começa no momento em que se planta a mudinha do pinus na cova. Mas aqui na fábrica de São Carlos, onde a operação divide-se em três turnos de 250 funcionários cada um, ele tem início com a chegada dos pallets de tabuinhas procedentes da serraria de Prata (MG). Inicialmente, elas passam pela máquina que produz ranhuras na sua superfície, onde serão inseridas as minas de grafite.

A massa da grafite é preparada com água, caulim, cera e pigmentos, conforme a tonalidade do lápis. Após a secagem, que dura 24 horas, ela é disposta nas ranhuras das tabuinhas, que são juntadas duas a duas, como se fosse um sanduíche. Só então, elas são cortadas no sentido longitudinal, quando começam a ganhar forma de lápis. A seguir, eles são formatados, apontados um a um, pintados e recebem a identificação por meio do processo serigráfico, antes da embalagem.

Da mesma forma que a madeira, certificada pela ISO 14.000 e FSC (Forest Stewardship Council), toda a matéria-prima utilizada no processo de fabricação do lápis (tintas, colas, vernizes etc.), adquirida de terceiros, leva os certificados ISO. Inclusive, o cartão usado nas embalagens, produzido pela Suzano, também leva a certificação FSC.

AS ARMAS PARA 2011

O lápis reto e correto

Ecolápis pretos e coloridos produzidos pela Faber-Castell

Orgulho e confiança no País. Assim o presidente Marcelo Tabacchi define o atual momento da Faber-castell, que comemorou em 2010 seus 80 anos de implantação no Brasil e, em 2011, festeja seus 250 anos de fundação. enquanto fala, ele mostra os dois catálogos, um com os produtos para o volta às aulas de 2011, e o outro denominado creativity for Kids, que visa estimular o aprendizado da criança, associado à criatividade.

O objetivo da empresa, segundo o executivo, é reforçar cada vez mais o slogan “sua companhia para a vida inteira”, que a coloca lado a lado com o consumidor desde os 18 meses até o colégio, a universidade e toda sua vida profissional. o porta-fólio traz kits criativos, Fine Pens colecionáveis com grip, stories boxes e produtos para artesanato, entre outros.

“Queremos causar impacto e levar benefício aos nossos clientes”, afirma Tabacchi, lembrando o selo Fsc presente em todas as embalagens, o único no Brasil. Além disso, as caixas trazem texto em português, inglês e espanhol, que estimulam a criança a tomar contato com uma segunda ou terceira língua.”Trabalhamos dentro dos pilares fundamentados na competência e tradição, mas não paramos no tempo: somos uma empresa jovem de 80 anos”, finaliza.

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