O que o trem tem

por: Manoel Dorneles

Nos países desenvolvidos, o trem é um meio cada vez mais moderno de transporte; enquanto no Brasil, sobrevive na memória dos saudosistas

O que o trem temHá apaixonados pelo ronco dos motores dos carros da Fórmula 1, por aviões, Óvnis, barcos, carruagens com cavalo e tudo e por trem, entre os quais me incluo. Difícil explicar, coisa de vidas passadas, diriam alguns. Nasci na roça, bem longe de qualquer linha férrea. Via trem, vez ou outra, quando viajava com minha mãe até a cidade mineira de Poços de Caldas (MG). Aos 8 anos, viemos para São Paulo e fomos morar na Vila Matilde, cortada pela Central do Brasil. Passavam por ali os “subúrbios” com os traba- lhadores da periferia, o “Trem de Prata”, em direção ao Rio de Janeiro; o “Trem Baiano” (o apelido preconceituoso lembrava o seu destino) e os cargueiros. Ainda havia Maria Fumaça. O “subúrbio” virou nossa condução do dia a dia, mas nas férias escolares era de trem expresso que eu ia para a casa de meus tios. Expresso, modo de dizer, porque a viagem de menos de 300 quilômetros demorava quase um dia. Embarcávamos na Estação da Luz; em Campinas, baldeávamos para uma composição da Mogiana; e em Aguaí, pegávamos um trenzinho, que cortava São João da Boa Vista, Águas da Prata; subia a serra e nos deixava em Poços de Caldas. Não sei se pela paisagem ou pela morosidade (numa época em que eu tinha todo o tempo do mundo), achava esse o trecho mais charmoso da viagem. Ainda na minha infância, experimentei também o sistema de cremalheiras, que subia ou descia os vagões de três em três na viagem até Santos, e ainda o velho trem da “Sorocabana”, que chegava à Baixada Santista, contornando a Serra do Mar.

Já adulto, viajei no polêmico “Trem da Alegria”. Para quem não é de São Paulo, tratava-se de uma composição idealizada pelo então governador Paulo Maluf para um tal de “governo itinerante”. Não deixou saudades, a deduzir das vaias que, nós, um grupo de jornalistas convidados da Fepasa para conhecer, nas barrancas do Rio Paraná, um sistema intermodal de transporte dos grãos procedentes do Paraná, levávamos em cada estação. Em minha primeira vez na Europa, fiz de trem o trajeto entre Milão e Cannes, já na Riviera Francesa, passando por algumas pérolas do Mediterrâneo, como Gênova, Sanre mo, Portofino e o Principado de Mônaco. Entre Cannes e Paris, de TGV, pouco se vê da paisagem. Ao contrário do trajeto de quatro horas entre Amsterdan (Holanda) e Frankfurt (Alemanha). O tempo para, enquanto contemplamos da janela o Reno e, do outro lado do rio, sobre as montanhas, alguns dos mais antigos castelos da Europa. Agora estamos hospedados no Pacific Tokio, em frente da Shinagawa Station, por onde passam umas dez linhas de trens e metrôs, inclusive, o famoso Shinkansen, o trem-bala japonês. Imaginem o movimento na área, por volta de 18 horas. Tive o prazer de viajar no Shinkasen entre Tóquio e Kioto. Parece tão veloz quanto o TGV francês, mas nos permite a visão de incontáveis aglomerados urbanos, de um lado; onipresentes plantações de chás e arroz, do outro. Cá no Brasil, também estamos à espera de nosso trem de alta velocidade. Que venha, mas não tão rápido assim, afinal, temos outras prioridades. Antes disso, temos que dar umas pinceladas na paisagem que iremos apreciar da janela. Nos poluídos rios Tietê e Paraíba do Sul. Nas favelas das marginais, em São Paulo, ou as da Baixada Fluminense. Aliás, por falar nisso, lá só está faltando mesmo o trem, porque bala há de sobra…