Viagem ao centro da terra

Casal vestido como no seculo 19
O mundo corre acelerado rumo ao século 22, ao Sistema Solar, às galáxias; enquanto um grupo de jovens faz o caminho inverso e resgata valores e costumes de dois séculos atrás
Há quem imagine viagens a velocidades hipersônicas, teletransporte ou colônias em Marte, em compensação, ainda há gente que sonha com a velha “Maria-Fumaça”, navios a vapor e relógios de bolso. Vão além: em pleno século 21, vestem-se como lordes e ladies da Inglaterra vitoriana (1837-1901). De fato, o impacto visual é um dos marketings mais eficientes para difundir o SteamPunk, “movimento cultural espontâneo, engajado e multimídia, cuja característica fundamental é uma abordagem fantasiosa da estética do século 19”. A definição é do escritor Raul Cândido, 24 anos, um dos fundadores do Conselho SteamPunk do Brasil, para quem o movimento se utiliza “de qualquer forma de expressão, em uma realidade alternativa em que as conquistas científicas e tecnológicas da Belle Époque teriam alcançado sucesso que de fato jamais alcançou”.
O termo “steampunk”, que em português significa vapor, foi inventado pelo escritor K. W. Jeter, no final dos anos 70, para um subgênero literário, que influencia até hoje artistas de moda, ilustração e cinema. Só na década de 90, no entanto, o SteamPunk ganhou status de movimento. Segundo Cândido, a definição envelheceu e atualmente não atende à realidade dos fatos. Ele explica que o Steam- Punk transformou-se em movimento legítimo por força da produção cultural de massa, sem qualquer chancela corporativa, sem um único dono, sem restrições e sem fronteiras.
Ao contrário do que muitos imaginam, os seguidores do Conselho não “curtem” apenas passear de Maria-Fumaça, tomar chá em louça de porcelana, visitar lojas de antiguidades, brechós e ferros-velhos. O grupo dedica-se a inspirar, promover e produzir ficção científica do século 19 no século 21. “É por esses motivos que o SteamPunk é um quadro em branco, um campo fértil para a criação original de obras executadas em diferentes formas de expressão, cada qual manifestando um diferente corte desta realidade fantástica; cada um usando o SteamPunk como premissa para contar uma história”, explica Cândido. Não por acaso, apreciam obras de Júlio Verne, Conan Doyle e Mark Twain e filmes, como “O Mundo Perdido” e a “Liga Extraordinária”.
No Brasil, o Conselho SteamPunk foi criado em 2008, sem nenhuma obediência a algum tipo de hierarquia. Qualquer pessoa, em qualquer localidade do País, pode montar uma “loja”. A ideia de criar lojas é uma alusão às sociedades secretas, como a maçonaria. “No nosso antigo sistema de cadastramento, há 300 pessoas inscritas, mas é difícil dizer quem é efetivamente membro e quem é apenas entusiasta. Nas redes sociais são mais de 200 inscritos”, constata o analista de sistemas Bruno Accioly, 39 anos, outro fundador do Conselho.
Mulher ousada
Longe das “lojas”, o jeito de vestir é o que denuncia o mundo Steampunk. Babados, corpetes, anáguas, sombrinhas, fraques, bengalas, relógios de bolso são alguns dos itens necessários para compor o guarda-roupa vitoriano, conforme o tamanho e a importância do evento. “Entre as muitas expressões estéticas, a cosplay é a que mais chama a atenção da mídia. Aproveitamos dela para promover o movimento, mas lembramos que o SteamPunk não é um movimento de moda ou de cosplay”, enfatiza Accioly. Cosplay equivale a “brincar” de se vestir ou se fantasiar de algum personagem. Virou uma febre nos Estados Unidos, com o lançamento do filme “Star Wars”. Hoje, a prática é bastante difundida no Japão, onde centenas de fãs se travestem dos diversos personagens dos animes.
A paulistana Jéssica Soares Nascimento, 23 anos, optou por fazer uma releitura da personagem Alice, da obra “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll. Sobre o clássico vestido azul, ela coloca um espartilho preto. Outros acessórios são um cinto com coldre e uma faixa que orna a longa peruca de cabelos loiros, na qual está inscrito SteamPunk Brasil. Além da Alice, Jéssica criou Jesse, uma personagem para jogar RPG. “É uma lady do século 19. Ela tem o cabelo cacheado vermelho, usa camisa branca com babados, espartilho, saia longa preta com a parte da frente mais curta e botas”, descreve.
“A estética chama a atenção daqueles que desconhecem o SteamPunk. É uma espécie de catalisador. Dificilmente uma pessoa iria perguntar para a outra o que é SteamPunk, caso ela estivesse com um livro de ficção científica”, observa Cândido. No primeiro evento do gênero, em São Paulo, foi realizado um passeio ao Museu do Imigrante. Na ocasião, o grupo não foi alvo apenas de olhares curiosos. “As pessoas comentavam que nos vestíamos como o pai ou o avô delas.” Muitos tiravam fotografia, achavam que o grupo era de atores de teatro ou que estava gravando um comercial, uma cena de novela, segundo ele, para quem é “fantástico” despertar a curiosidade.
Produtos culturais

Na volta ao passado, a presença da roupa do anime japonês
De acordo com Cândido, além de ser fonte de inspiração no campo da estética, a Era Vitoriana também promove o resgate dos bons modos, da educação, do cordialismo, da valorização do autodidatismo, do respeito. Ao mesmo tempo, rejeita o preconceito contra a capacidade feminina, que era marcante ao lado do preconceito racial, religioso e ideológico.
E para deixar claro que o SteamPunk não é um movimento de moda, o Conselho criou a Liga de Artífices SteamPunk, que reúne escritores, ilustradores, pintores, escultores, estilistas, músicos, vídeo produtores e todos os demais profissionais que lidam com produtos culturais SteamPunk. “Na literatura temos o Alexandre Lancaster; no design de jóias, a Nana Hayne; na produção de máscaras, a Susie Hervatin; na escultura, o Braga Tepi, entre outros”, exemplifica Accioly.
Há a preocupação de dissociar o movimento de um simples modismo. Aliás, Cândido comenta que o “rótulo” SteamPunk chegou tardiamente. Lembra que no dia a dia, eles convivem com diversos elementos estéticos que remetem ao SteamPunk. Filmes como “Sherlock Holmes”, dirigido por Guy Ritchi; e “Alice no País das Maravilhas”, de Tim Burton, são exemplos disso. O fascínio exercido pela ficção científica em pessoas das mais diferentes idades, na sua opinião, é que as sustenta. “Enquanto no exterior, o movimento tem apenas um séquito de fãs; no Brasil, incentiva-se a produção de diferentes materiais.” Inclusive, segundo ele, os brasileiros gostam de resgatar a própria cultura através do SteamPunk. Sua conclusão é de que não se trata de nacionalismo ou algo do gênero, mas apenas a possibilidade de ter uma nuança diferente.
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