Bienvenidos à Bolívia
O ponto de encontro dos bolivianos de São Paulo é uma feira onde se pode apreciar um pouco do artesanato, gastronomia, música e das tradições do país andino
Kantuta é o nome de uma flor típica da Bolívia, cujas pétalas nas cores verde, amarela e vermelha (as mesmas da bandeira daquele país) simbolizam a união de todas as suas etnias, culturas, regiões e riquezas naturais. Kantuta também é o nome de uma praça do bairro do Pari, em São Paulo, que aos domingos se transforma na “praia” dos bolivianos residentes na cidade. A menos de um quilômetro da estação Armênia do Metrô, a praça recebe a feira por onde circulam de 4 a 5 mil pessoas, 80% delas bolivianas, que ajudam a divulgar um pouco da cultura e das tradições de nossos vizinhos de cima e do sopé dos Andes. Há também peruanos, chilenos, uruguaios e, claro, brasileiros.
O jeito é circular pelo local com os ouvidos atentos ao espanhol rápido e quase ininteligível da maioria dos frequentadores, como se estivéssemos numa calle de Cochabamba ou em La Paz. São 70 barracas, divididas em setores de bomboniere, cereais, artesanato e comidas típicas. Atentem para a tienda de peluqueria (cabelereiro), incomum em feiras brasileiras, que recebe um grande número de clientes. Nosso cicerone nesta visita é Wilson Ferreira Campos, presidente da Associação Gastronômica Cultural e Folclórica Boliviana Padre Bento.
Há tanta coisa para ver, ouvir, tocar e degustar, que não se percebe o tempo passar. A comunidade se reúne nesse molde há pelo menos 14 anos, mas só nos últimos sete, o evento ganhou o atual formato. A organização é tão primorosa, que os expositores passaram por treinamento do Sebrae. Corteses, não se importam em explicar detalhadamente ao visitante que, por acaso, confundiu um cogumelo com uma das variedades de batatas. E ainda discorrem pacientemente sobre a grande diversidade do alimento.
Há pelo menos sete tipos de batatas, vários tipos de pimentas desidratadas, como a locoto; espigas de milho roxas, diferentes grãos, flocos e farinha de quinua; cervejas e refrigerantes, como a Inca Cola, entre outros. São mais de 100 itens, segundo a auxiliar contábil, Rocio Quispe, 26 anos, que ajuda os pais em uma das bancas de cereais. Ela chegou ao Brasil aos 5 anos e foi alfabetizada nos dois idiomas: espanhol e português. “Alguns produtos são sazonais. O milho fresco, cuja safra tem início no meio do ano na Bolívia, estará disponível aqui no final de novembro ou começo de dezembro. Ele é utilizado em pratos típicos do Natal e do Ano Novo.”
Pimenta
Além do milho fresco e do roxo, há ainda o desidratado. O milho boliviano tem grãos maiores e mais carnudos do que o brasileiro. Rocio revela que na despensa de seus conterrâneos não pode faltar batatas e locoto, um dos muitos tipos de pimenta. A maioria das refeições é acompanhada ou finalizada com esses ingredientes. Conforme a variedade, as papas ou batatas são arredondadas ou longas, semelhantes a uma mandioquinha. São preparadas assadas ou cozidas, em geral, com a casca.
“Praticamente todos os dias preparamos a llajua, um molho de pimenta fresca, ao qual não adicionamos vinagre, sem conservante nenhum”, explica Rocio. Ela dá a receita: “No copo do liquidificador, colocar um punhado de pimenta, tomate, óleo, sal e kirquinha, uma salsinha boliviana que dá um cheiro gostoso. Também pode ser substituída pela cebolinha verde.” Pôr o molho no vidro, disposto sempre no centro da mesa. “A llajua não pode ser empregada no preparo dos alimentos. É adicionada sobre a refeição pronta; fica muito boa com carnes, milhos, queijos”, informa.
Uma das dificuldades dos povos do altiplano é adaptar o paladar ao padrão brasileiro. Acostumados a refeições refogadas, com molhos caprichados na pimenta, é difícil para eles não “estranhar” o tradicional arroz e feijão. Ao observar as opções oferecidas na feira, verifica-se que a base da culinária boliviana é a carne suína. Além do Chicharron, que consiste na carne de porco frita acompanhada de milho e llhajua; outro prato típico é o Fricasé, preparado também com carne de porco, porém, com chuño (batata desidratada, milho e aji amarillo). Os pratos mais procurados são a Sopa de Mani (amendoim) e os tradicionais Fricasé e Chicharron.
Para quem não aprova carne suína, o Picante de Gallina e o Chicharron de Pollo, feitos com carne de frango, são boas pedidas. “Uma opção exótica é o Aji de Lengua, que consiste na língua de boi cozida em molho de aji amarillo, servida com arroz e batatas”, lembra nosso guia Wilson Campos. As porções são generosas e suficientes para duas pessoas. Para bebericar, há opções andinas como a Inca Kola (que tem gosto de erva-doce), refrigerante de papaia com limão; refresco de kisa, chá de pêssego desidratado; mate de coca ou a cerveja Paceña.
Aos mais precavidos, são recomendadas as suculentas salteñas, muitas vezes confundidas com empanadas. Diferentemente das “genéricas” vendidas em outros pontos de São Paulo, elas têm recheio generoso. São servidas fumegantes, num prato acompanhado por uma colher, que auxilia na degustação do recheio substancioso. É semelhante a um ensopado de carne de vaca, frango ou porco, complementado por passas, milho, batata e pimenta. O visitante pode optar também pelas salteñas de queijo. Caso o apetite ainda permita, vale provar uma fatia dos muitos bolos confeitados e recheados ou a salteña recheada de chocolate.
Sabedoria inca
Considerada o “alimento perfeito” pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), a quinua foi descoberta pelos incas da Bolívia e do Peru há cerca de 8 mil anos. O grão que nutria os camponeses do altiplano fez tanto sucesso no mundo, a ponto de faltar na própria Bolívia. Cozida, torrada ou crua, a quinua vem aos poucos sendo adaptada à culinária brasileira. Na Bolívia, ela é consumida em sopas e no café da manhã, sempre cozida. O Pesqhe (quinua lavada e fervida com leite, afogado com aji amarelo e rodelas de queijo) é a opção mais tradicional. O modo de preparar é semelhante ao da polenta. “É proteína pura, sustenta. Para as crianças, o Pesqhe é regado com leite”, diz Rocio.
Quinua em todas as suas formas é uma das atrações desta feira, promovida pela Associação Gastronômica Cultural e Folclórica Boliviana Padre Bento, entidade criada em 2002 e presidida pelo brasileiro Campos, casado com uma boliviana. É mantida pelos próprios feirantes e por empresas ligadas, principalmente, às transportadoras Bolívia-Brasil. Até o ano de 2001, o evento era realizado na Praça Padre Bento, mas o local tornou-se pequeno para comportar o movimento intenso. Com a criação da Associação, foi determinada a nova área para as 70 barracas.
A entidade promove outras atividades para a comunidade latina, como curso de língua portuguesa, aulas de Taekwondo para as crianças e de música em instrumentos típicos para pessoas de todas as idades. Campos avalia que há cerca de 200 mil imigrantes da Bolívia residindo na capital paulista. É a cidade com o maior número de imigrantes daquele país.
SERVIÇO
Feira Kantuta
Domingos, das 11 às 19 horas
Praça Kantuta – altura do número 625 da Rua
Pedro Vicente, bairro do Pari, São Paulo (SP).
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