A tal viagem inesquecível
Era só um trabalho de campo, mas ninguém percorre o trajeto entre São Paulo e Manaus impunemente
“Viajei” de corpo e alma em novembro de 1986 no trajeto São Paulo – Manaus, a convite de uma transportadora radicada em São Paulo. O propósito era mostrar o dia a dia de seus caminhoneiros que, naquela época, auge da Zona Franca, levavam peças para a capital amazonense e de lá traziam os aparelhos eletrônicos montados. Repórter (eu) e fotógrafa embarcamos numa tarde de domingo na boleia de um novíssimo Mercedes Benz 1332, conduzido pelo Almeida. Dormimos em Frutal, já em Minas Gerais, e no dia seguinte, cortamos o Triângulo Mineiro rumo a Brasília, com direito a uma sessão de fotos do “bruto” em frente do Congresso. Após pernoite na capital federal, entramos em Goiás. Tempos difíceis aqueles para um País recém-saído do regime militar. Os planos econômicos empacavam, a inflação corroía todos os bolsos, o preço dos alimentos subia à estratosfera. Os bois sumiram dos pastos do Sudeste e, consequentemente, a carne das mesas. Enquanto o País se perguntava onde eles se enfiaram, da janela do caminhão, nós os víamos pastando bovinamente nos latifúndios da região de Araguaína, hoje parte de Tocantins.
Almeida afunda o pé na deserta Belém-Brasília, cujos retões passam de 100 quilômetros. Fusquinhas que saiam da frente! Entramos no Maranhão, não me lembro bem se à época governado por dom Sarney III ou IV (brincadeira, Sarney dirigia o Brasil de então). Açailândia era mostrada na TV como uma cidade miserável, mas uma das pontas da Ferrovia Norte-Sul, em construção. Mais uma noite em Imperatriz e, na manhã seguinte, o sul do Pará, que já assustava em 1986 e hoje assusta muito mais. A cada trecho rodado, um forno de carvão, no centro de mais um pedaço da Amazônia devastada. Depois de muito rodar, encontramos o que aparenta ser uma churrascaria. A carne parece apetitosa, mas é de que mesmo? De boi, diz alguém, enquanto me vem à mente os macacos, preguiças e outros animais atropelados na estrada… Quatro dias depois, estamos rodando por Ananindewa (nome tupi que significa cidade das árvores Anani), na Grande Belém. Na capital paraense, tempo para visitar o Mercado Ver-o-Peso e ser apresentado à parte da cultura amazônica. Tempo também para despedir do Almeida, que deixou a carreta no porto, rumo a Manaus, e engatou outra para o retorno a São Paulo.
Daqui em diante, o leito do Amazonas é o nosso chão. Em alguns trechos são mais de 25 quilômetros de uma margem a outra. O barco empurra uma balsa com 15 carretas. Somos convidados do capitão, que conta com um imediato e mais cinco ou seis marinheiros, além do cozinheiro. A comida é boa de início. Tem papaya, frutas, legumes, peixe, mas só no início. Lá pelo terceiro dia é só feijão, arroz, carne e farinha. E passaria fome, com certeza, quem atentasse para as unhas de cinco centímetros do cozinheiro, que costumava pentear os cabelos compridos e oleosos enquanto trabalhava. Imprevistos são frequentes numa viagens dessas. Uma embarcação semelhante à nossa quebrou-se na altura de Itacoatiara. Toca nosso barquinho empurrar as duas balsas, uma com 15 e outra com 20 carretas. A viagem que deveria durar quatro, cinco dias, demorou nove. Passamos pelo encontro das águas do Negro e Solimões de madrugada e chegamos, aliviados, a Manaus numa bela manhã de sol. A volta, três dias depois, é de avião. Nenhum sobressalto, a não ser umas leves turbulências nos céus de Brasília, mas até aí nenhuma novidade…
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Índice da Edição 236clique
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- Lindo pendão da esperança
- Viagem ao centro da terra
- Bienvenidos à Bolívia
- O som do silêncio
- Pequeno só no tamanho!
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