Quer que desenhe?
Pra bom entendedor meio pingo é letra; mas para praticar a letra cursiva como se deve, o aprendizado tem que começar antes mesmo da fase de educação infantil
Caíram em desuso as expressões “letra de professora”, para designar os donos de uma escrita boa, e “letra de médico”, para os especialistas em garranchos. Nos dias de hoje, diante do déficit educacional vivido pelo País, professores e médicos estão na vala comum dos que escrevem muito mal. Foi-se o tempo em que as aulas de caligrafia eram obrigatórias no currículo escolar e os alunos se empenhavam ao máximo para converter garranchos em uma letra cursiva, no mínimo aceitável. Aliás, são muitos os que desenvolveram um tipo híbrido, que engloba o bastão ou letra de forma e a cursiva.
Apesar de jogada às traças, a letra cursiva ainda é ensinada, seja por mero capricho, seja pelos interessados em manter a tradição. De acordo com Maria Anita Viviane Martins, professora da Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), só mesmo a tradição pode explicar o uso da letra cursiva nos dias que correm. Ela acrescenta: “Uma letra é um sinal dentro de um sistema de sinais de representação, o alfabético. No âmbito dessa pressuposição, a letra é a forma de representar um som.”
Segundo a educadora, a letra cumpre no processo de alfabetização o papel de dar suporte para a forma de representação alfabética. “Ela é o suporte gráfico para essa representação. Conforme os usos, a letra é o arbitrário cultural, por exemplo, nos ideogramas chineses, que são aplicados para registrar o som da fala. Seu uso corresponde à relação som/letra”, emenda.
Receita de bolo
Ao mesmo tempo em que não se deixam surpreender pelas novidades tecnológicas, os educadores vêm debatendo as diversas teorias a respeito da aprendizagem e o desenvolvimento cognitivo da leitura, da escrita e da alfabetização. De tal forma, que muitos métodos educacionais foram reformulados para tornar a alfabetização uma prática, digamos mais prazerosa. No entanto, isso não significa que o aprendizado da cursiva deixará de ser usado, avalia Magda Soares, professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
“Dificilmente a cursiva cairá em desuso, porque há numerosas práticas sociais de uso da escrita que demandam a sua utilização. Por exemplo, não se escreve em computador um recado rápido, que se prende na porta da geladeira; ou anotação de compras do supermercado ou da farmácia”, afirma Magda. Uma receita de bolo, ditada pelo telefone por uma amiga, também é escrita em cursiva, mesmo que depois vá ser digitada. É verdade que muitos dos usos anteriores da escrita manuscrita estão hoje substituídos pela digitação no celular, mas não há dúvida de que escrever em cursiva no papel é mais rápido e mais fácil.
De acordo com a professora, desde muito pequena – 2, 3 anos – a criança tem interesse em escrever. É comum, diante de papel e com lápis na mão, ela fazer rabiscos que define como “escrita”, à maneira dos adultos. Como ela já carrega consigo os conceitos do que é escrita, não há idade certa para começar a aprender a escrever. Cabe aos pais observarem, antes mesmo da Educação Infantil e durante esse período, como esse “dom” se manifesta. Ao entrar para o ensino fundamental, a criança passa a receber dos professores orientação sistemática e explícita para a aprendizagem das relações entre as letras e os sons, isto é, para alfabetizar-se plenamente.
Magda explica que, durante o período da Educação Infantil, a criança já pode, e deve, ter oportunidades de realizar a chamada “escrita espontânea”, ou seja, tentativas de escrita, inicialmente rabiscos, linhas sinuosas. Aos poucos, ela vai descobrindo que escrever não é rabiscar; vai identificando letras e começa a usá-las. No início, de forma aleatória, depois, relacionando-as com os sons da língua. “O momento adequado para que seja aprendida é aquele em que a criança se apropriou do sistema alfabético e começa a usá-lo para interagir com os outros”, acrescenta.
Introdução
Nessa fase, os exercícios repetitivos, na aprendizagem da letra cursiva, já foram abandonados. Além disso, a criança tem liberdade para definir a sua própria letra cursiva, ao contrário do que predominava antes, em que se exigia uma única grafia para a cursiva. Isso não quer dizer, conforme a professora da UFMG, que não se deva cuidar para que a criança adquira uma cursiva legível, caprichada; afinal, escrevemos para comunicar nossas ideias, pensamentos, sentimentos. É preciso que o interlo24 cutor tenha condições de receber sem dificuldades essa mensagem.
Na avaliação da professora da PUC, de São Paulo, existe hoje práticas bem-sucedidas de introdução de crianças de 5 anos à alfabetização, o que não era tolerado há 30 anos. “Essas crianças estão registrando alfabeticamente, escrevendo as letras. O que aprendemos com as descrições acerca do sujeito da aprendizagem nessa faixa de idade é que parece existir algumas condições para a representação alfabética, ou seja, o desenho das letras. O uso da letra bastão corresponde às características desse sujeito para essa aprendizagem.”
Segundo Maria Anita, a prática de alfabetizar de antigamente privilegiou mais a reprodução do desenho da letra e a perfeição no seu traçado. A exigência do traçado correto, necessariamente, não assegura que o aluno compreendeu o que significa escrever ou que ele saiba registrar ideias de maneira que possam ser compreendidas. O importante é que o educando compreenda que esse sistema de sinais existe para representar, que ele aprenda isso pelo seu uso. A forma não precede o conteúdo. Forma e conteúdo funcionam para registrar ortograficamente alguma coisa.
Iniciativa
A alfabetização exige da criança o uso de instrumentos de escrita, que ela precisa aprender a manipular com destreza. Conforme Magda, a letra bastão facilita essa aprendizagem na fase inicial, porque é feita de linhas bem definidas. Cada letra é claramente separada da outra; os movimentos da mão com o lápis são mais amplos, de acordo com o desenvolvimento motor da criança.
“Além disso, a separação nítida entre as letras ajuda a criança a adquirir a competência básica da alfabetização, que é associar cada letra a um som (um fonema). O uso da cursiva costuma vir naturalmente, por iniciativa da própria criança, que sabe, melhor do que ninguém, quando já está em condições de ‘emendar’ as letras”, explica a professora da UFMG.
A letra bastão, conhecida também como letra de forma, corresponde às características do sujeito da aprendizagem. O seu traçado se ajusta às condições práticas visuais e de reprodução sonora para favorecer a compreensão e representação do sistema simbólico. “A propósito, a letra cursiva tem linhas curvas, traçados paralelos, ângulos, círculos; há condições de reprodução que poderão não estar apropriadas ao sujeito do ensino”, lembra Maria Anita. A sua conclusão é de que letra bastão parece corresponder melhor ao sujeito da aprendizagem, ao lhe dar a oportunidade de representar alfabeticamente, compreendendo o funcionamento do sistema sem que antes seja necessário fixarse na forma.
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