Num piscar de Olhos
Um simples movimento ocular pode trazer resultados superiores aos das terapias comuns
Bem acordada e imersa em seus pensamentos, a psicóloga norte americana Francine Shapiro fazia sua caminhada matinal, quando percebeu que as emoções desagradáveis que sentia diminuíam após movimentação rápida e espontânea dos olhos. o movimento ocular era semelhante ao fenômeno rem (rapid eye movement), que ocorre durante o sono. nessa fase, como se sabe ocorrem os sonhos mais vívidos; os olhos movem-se rapidamente; e a atividade cerebral é similar àquela das horas em que se está acordado. o fato se deu há 20 anos e, desde então, ela passou a se dedicar a pesquisas sobre o assunto e, posteriormente, a testar a terapêutica denominada eye movement Desensitization and reprocessing (emDr), em português, Dessensibilização e reprocessamento por meio dos movimentos oculares.
em seus estudos, a psicóloga descobriu que o emDr possibilita estimular os hemisférios cerebrais, local onde as lembranças dolorosas são armazenadas. a princípio, o método foi usado no tratamento de sequelas provocadas por transtorno de estresse pós-traumático (tept), porém, nos dias atuais é aplicado no tratamento de diversos problemas. entre eles, ansiedade generalizada, fobias, síndrome de pânico, depressões, questões relacionadas à autoestima, bullying, traumas de todo o tipo, luto, separação, mudanças de vida por quaisquer motivos, sexualidade, obesidade, compulsões, etc.
“Um dos efeitos do medo é perturbar os sentidos e fazer com que as coisas não pareçam o que são”. a frase de miguel de cervantes, autor de Dom Quixote, sintetiza e ajuda a compreender os sentimentos de uma pessoa que convive com esses problemas no seu dia a dia, sejam eles originários da infância, sejam da vida adulta. Quem padece do chamado tept, além de ter a qualidade de vida afetada, faz da angústia sua companheira constante. pior, nessa condição, muitas vezes, os medicamentos pouco ajudam. a pessoa fica quase que à espera que um milagre caia do céu.
Caixinha de surpresa
De acordo com a psicóloga Silvia Malamud, facilitadora de em Dr, é possível a transformação e mudança radical de algum contexto que gere aflição. a terapêutica, no entanto, é contra indicada em pacientes com transtornos psiquiátricos e dissociações graves. com base em uma frase do psicoterapeuta David Grand, para quem o emDr significa cura emocional em velocidade máxima, a psicóloga explica que a mente faz associações livres daquilo que vai trazer a cura emocional para a pessoa: “não se trata de hipnose, regressão, nem de mágica. no emDr todas as imagens simbólicas, significações de um evento perturbador que está além da compreensão racional, vêm à tona.”
Vale destacar que apesar de ser bastante procurado para solucionar eventos traumáticos,
muitas pessoas buscam o emDr com a intenção de se autoconhecerem. Induzido ao processo,
com a ajuda do facilitador, o paciente passa a
narrar uma determinada situação. em alguns
momentos, o facilitador intervém e questiona o
que está ocorrendo, pois, conforme Silvia, cada
ser humano é uma caixinha de surpresa. nunca
se sabe como o cérebro irá reprocessar. “É surpreendente observar como as pessoas são altamente
criativas e como, às vezes, entendem uma situação de determinada maneira e a ‘congelam’ em
um momento da vida, quando não dispunham
de muitos recursos. elas crescem, tornam-se
adultas e são comandadas por essa realidade
‘congelada’”. Durante o emDr, o paciente traz
isso à tona e promove o descongelamento com
todos os significados do momento. muitas vezes,
o reprocessamento também traz memórias corporais, segundo a facilitadora.
para reforçar a ideia, Silvia cita como exemplo a vivência de uma de suas pacientes: “recentemente, uma mulher de pouco mais de 30 anos chegou ao consultório queixando-se que estava sem rumo na vida. ela associava isso a um acidente de carro que vivenciara aos 12 anos. na ocasião, a mãe dela era a motorista. esse evento traumático permaneceu no seu inconsciente, impedindo-a inclusive de dirigir.” Durante o reprocessamento, segundo o relato, ela sentia até os cacos de vidro na boca. o emDr trouxe à tona detalhes do trauma e memórias corporais. no final, ela refez a cena da colisão. tirou a direção da mãe. essa mudança é uma das características criativas da mente, que dispõe desse recurso para alterar uma cena.
O significado simbólico da ação em que a pa-
ciente toma a direção do carro para si, segundo
a facilitadora, é de que a sua vida não está à
mercê do outro. “ela sabe que a cena não vai
mudar; sabe que o acidente aconteceu, mas a
mente dela mostrou que há a possibilidade de evitar o acidente. nesse momento apareceram
outras cenas da vida, quando ela foi dona de si,
ou seja, foi o final do reprocessamento. Lá, ela
resgatou vários recursos que não podia até então, porque a informação maior era de que ela
estava à mercê do outro. Dessa forma, ela não
conseguia dirigir a própria vida”, relata Silvia.
Túnel da vida
na avaliação da facilitadora, todo reprocessa- mento leva a mente a trabalhar para resolver uma determinada questão, ou seja, existe uma intenção de cura. a duração do tratamento através do emDr sempre é menor do que o das demais abordagens terapêuticas. no entanto, há pacientes que precisam de um tempo maior. Daí a necessidade de que cada pessoa seja cuidadosamente acompanhada.
na maioria dos casos, quando procura a ajuda de um psicólogo ou psicoterapeuta, a pessoa é movida por uma angústia premente. reprocessar um trauma não irá fazê-la sofrer mais porque ela já carrega consigo essa sensação. Durante o reprocessamento, esse sofrimento vai falar com ela. Segundo Sílvia, a pessoa “entra” em um túnel e em um determinado momento tem consciência de muitos fatos, significados e, às vezes, reprocessa apenas sensações, não vê imagens.
com o EMDR, o paciente sai de uma consulta terapêutica melhor do que entrou, conforme a facilitadora. embora na maioria das vezes, o paciente já esteja aberto a transformações, ela enfatiza a necessidade de não realizar julgamentos para não abortar o processo. “no EMDR vão vir coisas incomuns. a pessoa deve estar aberta para uma lógica não racional. tudo é simbólico. o cérebro não só compreende, como confere significados de determinados assuntos na sua vida.”
por modificar as condições neuronais, o emDr pode cansar a pessoa, ou seja, ela sai de uma resposta neurológica e vai para outra, que proporciona um entendimento mais eficiente. “ao fazer o reprocessamento, ela reprocessa emoções, símbolos, sensações corporais. o cérebro começa a entender que a realidade pode ser diferente daquela programada anteriormente de modo inconsciente. essa nova conexão neurológica de resposta mexe com a sua máquina física.” muitos neurocientistas, como Uri Bergman, têm se dedi- cado ao tema e comprovaram através de imagens cerebrais que há modificações após o emDr. a conclusão é de que se assemelha a uma cirurgia: a pessoa mexe na sua máquina.
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