Escrito nas estrelas

Colecionadores de canetas reunidos em São Paulo falam de sua paixão por esses instrumentos de escrita, que sobrevivem em meio a um mundo cercado por evoluções tecnológicas

Razões sentimentais ou mero capricho são alguns dos motivos que levam alguém a guardar uma caneta, seja ela uma sofisticada caneta-tinteiro ou uma simples Bic Cristal. E o que dizer daqueles que guardam não uma, mas dezenas, centenas, milhares delas? Colecionadores profissionais, como Roberto Augusto Caffaro, 63 anos, cirurgião vascular e professor da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, que há mais de 25 anos mantém um acervo de canetas antigas das marcas Mont Blanc, Parker, Sheaffer e Waterman. É o maior do mundo nessa especialidade.

A paixão do médico, que também é presidente do Pen Club do Brasil – fundado em 1989 e que reúne mais de 300 colecionadores – é pelo modelo tinteiro. Desde quando era aluno no antigo ginásio. “Naquela época, a Parker 51 era o sonho de todo aluno, mas era muito cara, quase inacessível para o pessoal da classe média”, lembra. Somente anos mais tarde, após formar-se e estabelecerse como médico, ele passou a colecioná-las. “Passei a ter todas as canetas que nunca tive. Acho que exagerei um pouco, pois tenho uma coleção muito grande.”

Bastante peculiar, a coleção do médico reúne apenas exemplares produzidos antes da Segunda Guerra Mundial. O mais antigo deles é uma Waterman de 1884, a primeira patenteada pelo fundador da empresa com o mesmo nome, Lewis Waterman. Nas suas viagens de trabalho ao redor do mundo, ele costuma garimpar antiquário e feiras, onde encontra muitos dos itens de seu acervo. Foi de um vizinho, psiquiatra, no entanto, que ele adquiriu a Mont Blanc 12 Marble, de 1922, da qual existem apenas quatro exemplares conhecidos no mundo.

“Eu morava a duas quadras da quarta caneta mais rara do planeta. Na época, ele estava com 78 anos, era aposentado e havia ganhado a caneta de seu pai. Disse que não tinha dinheiro para comprá-la. Ele falou: ‘Você tem sim. Eu vou viajar para a Europa; você paga uma viagem de avião para mim.” Na ocasião, a passagem custava cerca de US$ 1.500. O valor estimado para essa caneta era de US$ 30 mil”, relata.

Escrito nas estrelas

Para quem quiser aumentar a coleção, a Kalunga oferece vários modelos de caneta Sheaffer. Na caixa vermelha, a caneta-tinteiro Valor

Loucuras

Embora o Pen Club não tenha sede própria, os associados se encontram eventualmente nas feiras de antiguidades para trocar informações e no evento anual São Paulo Pen Show, cuja 16ª edição foi realizada em agosto. Entre os aficionados, há aqueles que colecionam canetas-tinteiro, os que preferem rollerballs e os que mantêm as esferográficas. Sebastião Martins Vieira, 69 anos, que comercializa equipamentos de escrita há 56 anos, comenta que tem aumentado o número de colecionadores, inclusive, de garotos, entre 10 e 15 anos.

O comerciante estreitou a relação com as canetas aos 13 anos, quando foi trabalhar na Ravil, uma loja especializada em canetas, inaugurada em 1954. Foi office boy, aprendeu a consertar canetas, trabalhou no balcão atendendo os clientes. “Passei a ter o prazer em vê-las e também querê-las, mas como assalariado não tinha condições de ficar comprando as de que gostava.” A oportunidade surgiu em 1986, quando o proprietário da empresa resolveu se aposentar. “No negócio de pai para filho, eu fiquei com o estabelecimento e comecei a colecionar canetas.”

Sem saber ao certo quantas canetas tem, Vieira coleciona as quebradas, as que ninguém dá valor. Como não faz distinção, sua coleção abriga desde preciosidades do final do século 19, até modelos populares, como um jogo de canetas da marca Andu. São quatro canetas nas cores azul, preta, vermelha e verde, uma das primeiras esferográficas fabricadas no Brasil, no final dos anos 50.

Embora não seja aficionado por marcas, Vieira revela um objeto de desejo do passado. “Era uma caneta alemã chamada Tropen Gold. Custava 380 cruzeiros, eu não tinha dinheiro para comprála.” Ele relembra que havia poucas peças disponíveis à venda na loja, e nunca mais foram comercializadas. Em 1998, durante visita a uma Pen Show nos Estados Unidos, ele avistou uma Tropen Gold em uma das mesas. “Comprei. Foi a realização de um sonho”. Ele agiu como colecionadores de qualquer outro objeto, que costumam fazer loucuras pelas peças desejadas. Conforme a raridade, quando o colecionador descobre que uma caneta está à venda em algum lugar, é capaz de viajar para buscá-la.

Na explicação de Vieira, é natural que um colecionador faça loucuras para possuir um exemplar valioso ou que tenha pertencido a uma celebridade. “É a realização de um sonho. Tenho um amigo que comprou um jogo de canetas-tinteiro e um suporte de mesa que perteceu ao Albert Sabin. O cientista ganhou o conjunto de um presidente norte-americano. Foi em homenagem ao seu trabalho. Tem uma história fascinante por trás dela. Não é mesmo?”