“Papo de louco”
Apesar do título, quando eles permitem, nós e nossos adolescentes até conseguimos “trocar uma ideia”, mas na maior parte do tempo, o que rola é uma “brisa”
Sou, a exemplo de muitos leitores, de um tempo em que o máximo de palavras que nos permitiam
dirigir a nossos pais era “sim, senhor”, “não, senhor”, “não me bate, mãe, não fui eu”. Ainda bem que os
tempos são outros; e hoje em dia já não exigimos tantas mesuras e cerimônia de nossos filhos; tampouco
herdamos o costume de bater neles – embora os defensores da palmada achem que “um tapinha
não dói”. Tentamos até, em nome da boa vizinhança, manter uma conversação civilizada e de alto nível,
quando eles se dignam a nos dirigir a palavra. Claro, desde que não os atrapalhemos ao celular, no Orkut,
MSN ou quando ouvem música com o fone atochado no… ouvido. Perguntei outro dia ao meu filho de
quase 15 anos se ele ia fazer alguma coisa, que agora não me lembro bem o que era, ele me respondeu
“si pá”, expressão que eu traduzi logo como “pode ser, talvez, quem sabe…”. Pouco depois, tentando
bancar o engraçadinho, respondi a uma indagação dele com a mesma expressão e ouvi de volta: “Ê, pai,
não tem nada a ver você ficar falando desse jeito.”Não falei, para não parecer ainda mais antiquado,
mas bradei lá no fundo, como um Cícero no senado romano “O tempora o mores!” Onde vamos parar?
Os caras se apossam de uma gíria (que eu me lembre) usada por nós desde mil novecentos e antigamente,
e agora querem nos proibir de usá-la. Qual será o próximo passo ou proibição?
Fazia frio; meu filho se preparava para sair, quando eu mui gentilmente recomendei: “Não esquece de levar o casaco”. “Casaco? Pô, pai, que coisa mais antiga”. Mais uma vez fiquei encafifado. Se não é casaco, o que vem a ser aquele troço que usamos por cima da camisa ou camiseta: agasalho, abrigo, jaleco, jaqueta, paletó, japona… “Jaco”, sopra alguém do meu lado, aparentemente bem antenado com o mundo jovem. Fiz de conta que nunca tinha ouvido o termo, afinal, “jaco” também costumava ser “bacana” 50 anos atrás. Entendi o recado, “beleza”, aliás, “firmeza”, quer dizer “suave”, sei lá mais o quê… Quando eles usam palavras oriundas do português, ainda damos um desconto; o duro é quando vêm com termos derivados do inglês, e ainda por cima abreviados? “Fiz um ‘form’ de fulana”, comentou ele com um amigo. Demorou um ano para eu descobrir que ele participou do Formspring.me, rede social que permite a pessoa fazer ou receber perguntas de outra, mesmo não estando cadastrada; e que pode ser conectada às demais redes, como Orkut, Facebook, Twitter etc.
Mas eles vão muito além nessa de tomar posse das coisas para tratá-las como se fosse criação própria, do século 21. Dizíamos “bacana”, quando o treco era “legal”; eles continuam achando “bacana”. Também eram nossos “tá ligado?”, “karacas”, “é nóis na fita”, “trocar ideia”, “vou vazar”, “tá se queimando”, “mala”, “zoar”, “veneno”, “larica” e outras afins. Há umas expressões mais moderninhas, que eles adaptaram e até que ficaram “supimpas”. “Pisante” era sapato; virou tênis; “brisa” como aquilo que não tem nada a ver; “bolado” é surpreso; “caô” para mentira; “demorô” para “já é, é isso aí”; “passar o rodo” é igual atacar; “zoar”, no sentido de agitar; “suave”, quer dizer, “maneiro” ou “na maciota” (reconheço que fui fundo agora). Em tempo: “Tiriça” é menina feia; “navê” menina bonita. Algumas palavras soam meio esquisitas, mas a turminha não parece muito preocupada. Lá no interiorzão, minha mãe, quando levantava da cama meio adoentada, cansada, indisposta, costumava dizer que estava meio “perrengue”. Pois eles adaptaram o tal do “perrengue” para algo “trabalhoso”, “aperto”, que traz dificuldade. Há gírias que não morrem, embora eles estejam “se lixando” para elas. “Bicho” (o Faustão que o diga!), não entendi “bulhufas”, “chato de galocha”, “dançou”, “estourou a boca do balão”. E chega de “causar”; vou parando por aqui, que estou “só o pó da rabiola”. Vou nessa, fui…
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Índice da Edição 235clique
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- Num piscar de Olhos
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- Na calada da noite
- Quer que desenhe?
- Escrito nas estrelas
- Sorria para a vida!
- O cotidiano do palhaço
- O voo do uirapuru gigante
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- Melhor que o Super-Homem
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- A planta dos sonhos
