meu “besouro” inesquecível
Por mais possante e confortável que seja o seu carro, dificilmente ele será páreo para o Fusca, desde sempre no coração dos brasileiros
Foi o primeiro carro da maioria dos brasileiros, nascidos antes dos anos 70/80. Por isso, mesmo diante da incrível defasagem tecnológica em relação aos automóveis de hoje em dia, ainda é olhado com carinho quando resfolega (quase sem sair do lugar) pelas ruas e estradas do País. Não precisa viajar muito longe para descobrir que estamos falando do velho Besouro ou Fusca, apelido que veio para ficar, desde que ele começou a ser fabricado no País, ainda nos anos 60.
E nem os mais jovens estão isentos dessa paixão. O universitário Arthur Bergamin, 21 anos, é desde criança um desses “fuscamaníacos”. A fissura é tanta que ele conseguiu convencer o pai, Francisco Vicente, a se filiar ao Fusca Clube do Brasil. Contaminado pela paixão do filho, ele adquiriu um modelo 1974, todo original, que conserva até hoje. Seria o carro de balada de Bergamin, mas ele, com medo de roubo, pega o Corsa emprestado do pai.
A médica Adriana Maria Cavazin, 32 anos, também sócia do Fusca Clube, já teve cinco versões. A primeira foi adquirida há quatro anos. O seu preferido, entretanto, é o mais recente, um modelo 1971, que ela encontrou no pátio do Detran. Além das multas, só havia uma árvore crescendo em seu interior. O Fusca foi para leilão, mas ninguém quis comprá-lo. “Achei o carro lindo, gastei 450 reais para regularizar a documentação.”
Após a aquisição, ela começou a procurar na Internet peças para deixá-lo como via nas fotos. Deduziu que para reformá-lo no padrão original iria precisar desembolsar muito dinheiro. Resolveu então fazer uma transformação, pintou de rosa. “Hoje, tenho um Fusca que chama a atenção. Quando quebra, qualquer pessoa conserta com um chiclete e um elástico, bem ao estilo MacGyver”, relata Adriana.
Debaixo da cama
Um assunto tabu nesse meio é o preço do carro de um colecionador, segundo o engenheiro Roney Celso Ianone, 49 anos, para quem os valores oscilam de R$ 1 mil a R$ 100 mil. Depende do estado de conservação, do gosto de cada um, quanto o carro vale para a pessoa, sentimental ou financeiramente. A exemplo da maioria das pessoas de sua geração, ele também “começou” sua vida em um Fusca, mas o substituiu por modelos mais modernos e melhores.
Certo dia, ao ver um amigo dirigindo um Fusca, o engenheiro pensou que ele estivesse desempregado. Ficou sabendo que muitas pessoas colecionavam, ou seja, cultuavam o carro. Hoje, ele tem dez Fuscas, principalmente modelos da década de 50, importados da Alemanha. Confidencia que, quando começou a restaurar o seu primeiro Fusca, deixava as peças “dormindo” embaixo da cama do casal. “Imagina a alegria da minha mulher”. Esse veículo é o seu xodó. “É um Fusca 1962, azul-claro, mecânica modificada para mais forte, mas o resto é todo original”, frisa.
Modelos mais antigos também são a paixão do representante comercial, Gilson Peixe, 46 anos. Começou aos 16. Seu primeiro Fusca foi adquirido quando tinha 19 anos e o acompanha até hoje. Ao longo de 27 anos, sempre que havia oportunidade comprava um. “Tenho dez Fuscas, uma Kombi e um Karman Ghia”, contabiliza. Para ocultar seu hobby da família, escondia os carros em um galpão ou falava que não eram dele. Quando descobriram a verdade, o tacharam de maluco por ter tantos carros.
Peixe reformava seus carros aos poucos, a exemplo do que fez o engenheiro Mauro Luiz Ribeiro, 56 anos, que demorou 15 anos para deixar como queria o seu Fusca 1977, comprado do pai em 1981. “Eu sou da categoria dos speedeiros, isto é, dos carros transformados. Com exceção das partes mais especializadas, que requeriam conhecimento e ferramental específico, fui eu quem fiz praticamente tudo”, relata.
Conhecimento
O comerciante Andreas Wolfsohn, 61 anos, ao contrário, teve uma relação mais estreita com a mecânica do Fusca. Ele chegou a estagiar e trabalhar na Volkswagen alemã. De volta ao Brasil, trabalhou por 34 anos na Volkswagen, onde fez dois planejamentos na linha de montagem do Fusca. Desenvolveu método, processo, ferramentas; e se aposentou na empresa. Atualmente, ele é dono de dois Fuscas: um 1986 e outro 1996. Lamenta o pouco tempo para se dedicar à reforma do modelo mais antigo.
O comerciante tem uma boa história relacionada ao carro da Volks, ocorrida na Alemanha. Viu um anúncio de um Fusca por 850 marcos. Quando ligou o carro, diz que o motor parecia uma máquina de costura. “Comentei ao vendedor que o motor não ia longe, que estava batendo pino, válvula, tudo. Ele respondeu: ‘Por menos de 500 não sai’. Fechei o negócio. Peguei o documento, pensei, será que chego à minha cidade, a 30 quilômetros dali?”
Wolfsohn pegou a estrada. Acelerava um pouquinho mais na marcha lenta, era uma barulheira. “Como não tinha dinheiro – havia gastado tudo na compra –, coloquei um bom lubrificante e continuei andando com o carro”. Ele conta que foi para a Grécia, passando pela Áustria, Iugoslávia. Depois viajou para a Dinamarca, Suécia, França; rodou 40 mil quilômetros. Vendeu por 650 marcos, e ainda lucrou 150 marcos.
Todos esses entrevistados são associados do Fusca Clube do Brasil, fundado em maio de 1985, antes da despedida do Fusca pela primeira vez. Atualmente, são cerca de mil sócios do Brasil e até do exterior. O comerciante Vagner Sierra, 35 anos, presidente do Clube, dono de três Fuscas, comenta que os fuscamaníacos se dividem em duas categorias, uma que preza os 100% de originalidade do carro, seja qual for o ano; para isso, os aficionados têm à disposição um fomentado comércio de peças mundial. A outra é dos transformados ou speeds, que são os carros personalizados. Nesse caso é permitido mexer no motor, rebaixar a suspensão, trocar rodas e outros itens.(M.A.)
A viagem do Fusca
O “pai do Fusca” foi Ferdinand Porsche, um engenheiro autodidata nascido em Maffersdorf, ainda no Império Austro-Húngaro, atual República Checa. Do acordo firmado em junho de 1934 pela Associação Alemã de Fabricantes de Automóveis e Porsche, por sugestão de Adolf Hitler, resultou, dois anos depois, em três protótipos batizados de Volksauto-série VW-3, que foram testados por 50 mil quilômetros. O projeto anterior, equipado com um motor de dois cilindros, refrigerado a ar, foi substituído por um motor de quatro cilindros, denominado Boxter, também refrigerado a ar, e com suspensão dianteira independente, que funcionava através de barras de torção.
Em 1948, após a Segunda Guerra, Heinrich Nordhoff, novo gerente geral da fábrica do governo alemão, modificou os processos de produção, reprojetou diversos detalhes do automóvel e iniciou a fabricação. Foram feitas no primeiro ano 18 mil unidades. Dois anos depois da retomada, em 1950, chegava ao Brasil o primeiro lote de 30 Fuscas importados da Alemanha, logo negociado. Três anos depois, o carro passou a ser montado num pequeno armazém no bairro do Ipiranga, em São Paulo.
Nessa época, todas as peças vinham da Alemanha e o motor era de 1.100 cm3. Em 1956, a Volkswagen iniciou a construção de sua fábrica de 10,2 mil m2, em São Bernardo do Campo. O primeiro produto da nova planta, no entanto, não foi o Fusca, mas uma Kombi. Somente em 3 de janeiro de 1959, foi fabricado o primeiro fusquinha brasileiro, adquirido pelo empresário paulista Eduardo Andréa Matarazzo. Após a inauguração oficial da fábrica, em 18 de novembro do mesmo ano, a Volks brasileira fechou o ano com 8.406 unidades vendidas.
Saiba Mais
Almanaque do Fusca, Fábio Kataoka e
Portuga Tavares, Editora Ediouro
http://www.fuscaclube.com.br
http://www.planetafusca.com
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