E a Vila Isabel dá samba
Depois de Adoniran Barbosa, que em agosto teria completado 100 anos; é hora de lembrar o centenário de outro grande compositor brasileiro: Noel Rosa
Noel de Medeiros Rosa, o nosso Noel Rosa, realmente nasceu a fórceps. Para trazê-lo à luz em Vila Isabel, no Rio de Janeiro, em 11 de dezembro de 1910, o médico teve que usar o tal instrumento, o que resultou em uma deformação de seu maxilar inferior. O lado direito de seu rosto quase não mexia, de tal forma que imaginaram se tratar de uma paralisia. À medida que o tempo passava, enquanto o lado esquerdo se desenvolvia com normalidade, o direito permanecia comprometido. O diagnóstico veio tardiamente. As duas tentativas para tornar seu rosto simétrico – uma aos 6 anos com uma cirurgia e outra aos 12 com a colocação de uma prótese – fracassaram.
Além do defeito na face, ele tinha a mastigação comprometida, o que o impedia de alimentar-se em público. Isso virou um hábito para o resto de sua vida. Ganhou o apelido de “Queixinho”, mas parecia não se importar com isso. Era alegre, serelepe e despreocupado, mesmo durante a fase em que a família passou por dificuldades financeiras. Seguro, ativo, desembaraçado, inteligente, liderava as brincadeiras entre a garotada e era muito querido por sua família. Ao contrário do irmão Hélio, quatro anos mais novo, mais forte e mais bonito, que era caseiro e gostava de livros, o mirrado Noel amava a rua, as brincadeiras da molecada, como a pipa, o pião, o futebol de botões e soltar balões.
A diferença no comportamento também não é pequena, pois Noel é tranquilo e polido, o outro reclamão e irritadiço. No livro Noel Rosa: uma biografia, publicado pela Editora da Universidade de Brasília, os autores João Máximo e Carlos Didier revelam que Hélio não escondia o que era; enquanto Noel era um simulador, um garoto que não se expunha, “astuto o bastante para que as pessoas se deixem levar por seu ar sonso de anjo de igreja”. Ao contrário do irmão, franco e capaz de dizer o que pensava e sentia, Noel camuflava sua natureza inconformista e rebelde. Logo se dava melhor no convívio com as pessoas e, principalmente, diante dos mais velhos.
Musicalidade
Nas noites de domingo, a família se reunia para um sarau. Fascinado pela música, desde pequeno, Noel aprendeu a tocar bandolim com a mãe e com o pai, seu Manuel, as primeiras posições no violão. “Foi graças ao bandolim que eu experimentei, pela primeira vez, a sensação de importância. Tocava e logo se reuniam, ao derredor de mim, maravilhados com a minha habilidade, os guris das minhas relações. A menina do lado cravava em mim uns olhos rasgados de assombro. Então eu me sentia completamente importante. Ao bandolim confiava, sem reservas, os meus desencantos e sonhos de garoto que começava a espiar a vida”, depôs.
Com o tempo, ele troca o bandolim pelo violão. Anos mais tarde, muita gente próxima se gabará por ter participado do aprendizado do jovem. Noel, porém, era autodidata, como muitos outros violonistas, que aprendem vendo, ouvindo, perguntando, tocando. Só não trocou o hábito de fumar, iniciado já aos 12 anos. Carregava os livros e um cigarro “pendurado” no canto direito da boca, provavelmente, um artifício para disfarçar o defeito no queixo. Nos últimos tempos em que estudou no tradicional Colégio São Bento começou a frequentar o Cavaquinho de Ouro, na Rua da Alfândega, onde se reunia a nata do violão brasileiro da época. Aos 16 anos, solando ou acompanhando, era considerado um bom violonista.
Em 1927, ao lado de Almirante e João de Barro, o “Braguinha”, montou o grupo “Os Tangarás”. Dois anos depois, escreveu e gravou suas primeiras composições, “Minha Viola” e “Toada do Céu”. Nos anos 20, a música que mais se ouvia no Rio de Janeiro eram as valsas e peças para piano, as modinhas, o maxixe, os fox-trots e outros gêneros trazidos dos Estados Unidos, na maior parte das vezes, executados pelas jazz bands. Já o quinteto de Noel tocava exclusivamente qualquer tipo de música popular brasileira, em especial canções do repertório nordestino, denominadas por Almirante como ”canções sertanejas de cunho folclórico”. Nesse contexto, o carioca Noel se “anordestinou”.
Em 1930, Noel entrou para aFaculdade Nacional de Medicina, mas abandonou dois anos depois. A experiência rendeu somente o samba “Coração”, pois ele já estava rendido à boemia e ao samba. “O samba é a voz do povo. Sem gramática, sem artifício, sem preconceito, sem mentira. É malicioso e… ingênuo. O povo carioca sente a alma do samba”, afirma Noel Rosa em entrevista à publicação O Debate. Ainda na escola, em 1930, lançou o samba “Com que roupa?”, um clássico que toca até hoje. Em decorrência do sucesso – gravado para o carnaval de 1931, que vendeu 15 mil discos –, ele decide largar os estudos.
A canção surgiu de um episódio relacionado ao empenho da mãe para que o filho estudasse mais e saísse menos, além de sua preocupação com a saúde frágil. Certa vez, sabendo que Noel iria a uma festa, ela escondeu suas roupas. Quando os amigos passaram na casa dele para buscá-lo, gritou da janela: “Com que roupa?”. Surgia a inspiração para seu primeiro samba e sucesso. Escapuliu da mãe com as roupas do pai, bainha da calça dobrada, pano franzido na cintura. Na madrugada, com voz sussurrante, chamou por Arlinda, sua madrinha que estava hospedada na casa: “Minha Dinda, sou eu, o Noel. Abre a porta pra mim…” Ela se levanta, abre a porta e arregala os olhos ao vê-lo com o violão do pai pendurado nas costas tirar os sapatos e se dirigir até seu quarto, de joelhos, para que a mãe não o visse.
Vida Amorosa
Cronista do cotidiano carioca, tudo lhe servia de inspiração. Paixões, desafetos, o bairro onde crescera e morava. Não poupava no humor e nas críticas. Nos anos seguintes compôs vertiginosamente, mais de cem músicas, entre elas, “Feitiço da Vila”, “Filosofia”, “Fita Amarela”, “Gago Apaixonado”, “Palpite Infeliz”, “Pra que Mentir”, “Pastorinhas”, “Feitio de oração”, “Conversa de botequim”, “Mulher indigesta”. Suas músicas foram eternizadas por grandes nomes do samba, como Aracy de Almeida, Francisco Alves e Mário Reis.
Apesar do sucesso de suas composições, Noel gastava tudo o que ganhava na boemia, com mulheres, cigarros e bebida. Seis meses antes de se casar com Lindaura Martins, em 1º de dezembro de 1934, andou apaixonado por Ceci, então caixa de um restaurante. Após o casamento, começou a emagrecer assustadoramente. “‘Que é isso, Noel, paixão incubada?’, perguntavam- me. Eu sorria”, relata em entrevista ao Jornal do Rádio.
Apesar da saúde extremamente frágil e debilitada, o compositor não abria mão da boemia. Com tuberculose, viaja para Belo Horizonte para tratar a doença. Em 1935, retorna para o Rio de Janeiro e reata os antigos hábitos, em especial, beber e fumar.
Naquele mesmo ano, viu duas composições suas estrearem no cinema, no filme “Alô, Alô Carnaval”. Algumas canções têm tom de despedida, como “Quem parte não parte sorrindo”. Quem parte não parte sorrindo/Sorrindo talvez eu queira te esquecer/ E tenha o grande prazer de te dizer/ Que não vou sentir nenhuma dor/ Sem teu amor…
“Começa a desligar-se de coisas que antes lhe eram importantes. O caderno de letras que vai parar nas mãos de Arnaldo Araújo, o tinteiro que dá a Almirante, a bengala com que presenteia Alegria, a carteira de músico que entrega a Sylvestre Travassos, seu colega nos bancos da escolinha, hoje oficial do Exército. A Jocelyn da Encanação, uma buzina em miniatura”, descrevem os autores na biografia. O violão emudece. Noel morre aos 26 anos, em 4 de maio de 1937. No carnaval passado, o GRES Unidos de Vila Isabel, da zona norte do Rio de Janeiro, realizou um desfile em homenagem ao centenário de nascimento do artista, com o samba intitulado “Noel: A Presença do Poeta da Vila”, de autoria de Martinho da Vila.
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