Quem não pode com mandinga…
… não carrega patuá. Tampouco dá vazão a um dos veios mais importantes da nossa cultura: o folclore. Quem nunca ouviu um caso do “arco da veia”?
Alguém escreveu que um país se faz com homens e livros, além de seu acervo cultural – adendo nosso. Neste último item estão incluídos mitos, lendas, adivinhações, contos populares, brincadeiras, provérbios, orações, maldições, encantamentos, gírias, desafios, saudações, despedidas, trava-línguas, artesanato, medicina caseira e demais componentes do folclore. A arte popular, de uso coletivo e sem dono ou autoria, é lembrada no Brasil no dia 22 de agosto, dedicado ao nosso folclore, fértil desde sempre, e enriquecido ainda mais ao longo dos séculos graças à imigração e miscigenação.
Em meio a medos, fantasias e muitas curiosidades, algumas lendas ou personagens tornaram-se bastante populares, casos do Curupira, do boto, do lobisomem, da Iara e do Saci-pererê. Este, em especial, ganhou notoriedade nos últimos anos, ainda mais que alguns municípios brasileiros decidiram criar em 31 de outubro o Dia do Saci, para combater o alienígena Halloween, também conhecido como Dia das Bruxas. Em São Paulo, por exemplo, a Lei foi sancionada em janeiro de 2004. Dizem até que no município de São Luiz do Paraitinga, no lado paulista do Vale do Paraíba, existem fazendas de criação de sacis, mas aí já e assunto para outra matéria…
Com ou sem criatório de sacis, há muitas escolas brasileiras que se mobilizam em diversas atividades na data dedicada ao Folclore. E tome apresentações de danças, lendas e brincadeiras de todo tipo, com o objetivo de resgatar e preservar a cultura local. No Colégio Santo Américo, zona sul de São Paulo, as atividades têm início tão logo as crianças voltam das férias do meio do ano, embora muitos trabalhos se desenvolvam durante o ano inteiro. O resultado das atividades ou das contações de lendas em classe pode ser conferido em um imenso painel montado na entrada da escola. “Por mais que as crianças já conheçam quase todas ou parte delas, ao ouvirem mais uma vez, as narrativas ganham novos significados e acabam sendo interiorizadas”, comenta a professora Fernanda Brant de Carvalho, da segunda série.
Ajuda muito a fixação dos conteúdos nessas ocasiões, segundo a educadora, se o professor for um bom contador de histórias. “É importante prender a atenção dos pequenos, instigar o grupo em relação ao mistério que envolve as narrativas; fazer pausas indagando-os sobre o que vai acontecer, dando-lhes a oportunidade de participar com seus conhecimentos ou mesmo a imaginação de cada um”, acrescenta. Tudo isso deve ser feito de maneira lúdica, com a total doação do professor, usando uma entonação e pontuação adequada.
Travessuras

Iara e Curupira, nossa herança indígena
O fato de os alunos já terem habilidade com a leitura e a escrita – eles têm em média 6, 7 anos – os estimula a procurar outras lendas. “Eles escrevem de forma espontânea a respeito desses personagens. É no trabalho com a escrita que observamos o que realmente foi fixado. Muitas vezes, eles até acrescentam detalhes particulares. As crianças dessa faixa etária são cativadas pela temática”, observa Fernanda.
Na opinião da professora, o trabalho com o folclore permite desenvolver a criatividade dos estudantes. “Ao contar a lenda da Cuca, por exemplo, à medida que tiramos deles o que já sabem e apresentamos novas informações, instigamos a criança a refletir sobre o que escuta e a imaginar.” Levada para a atividade escrita, a lenda é um estímulo à criação de uma nova história com o personagem. O mesmo se dá com o Saci-pererê, o predileto da garotada, ou com o Lobisomem, a Mula-sem-cabeça, a Iara. Segundo ela, as crianças gostam do Saci porque ele é um menino que faz travessuras, que se diverte um pouco à custa dos outros. Ao mesmo tempo, é considerado por elas um garoto do bem.
A fase de ficar impressionado, a ponto de se sentir amedrontado, conforme Fernanda, ocorre com os alunos de menos idade. Nesse período, a curiosidade é tanta que a muitos ficam ansiosos sobre o destino do personagem ou com o desfecho da história. “Como o folclore é trabalhado em diversas escolas na educação infantil, as crianças com 3, 4 e 5 anos podem sentir medo, sonhar e até mesmo sentir insegurança dependendo da história que ouvem. Com as maiores isso não ocorre mais”, relata.
As crianças “menorzinhas”, do Jardim I e II, são o foco do Colégio Santa Maria, também na zona sul paulistana. Durante todo o ano letivo, a escola trabalha com o resgate da cultura infantil que está inserida no folclore, de acordo com a orientadora pedagógica Paula Bacchi. “Com as crianças pequenas, o trabalho deve ser mais elaborado e aprofundado para que haja compreensão. Não adianta simplesmente dar um desenho para pintar e acreditar que se comemorou o dia do folclore.”
Em agosto, a escola se mobiliza na realização de diversas atividades em torno do tema folclore, porém, as propostas voltadas a esse público são bastante diferenciadas, conforme a pedagoga. “Trabalhamos com a linguagem artística, corporal e musical. Aproveitamos as brincadeiras que eram feitas antigamente na rua, que ajudavam no desenvolvimento infantil.” Quando entrava na escola, a criança estava pronta para cursar o primeiro ano. Muitas vezes, nem frequentava a pré-escola.
Paula diz que hoje em dia a realidade é outra. O fato de a educação infantil ter a incumbência de “movimentar” uma criança, que fica a maior parte do tempo sentada diante de uma televisão, videogame ou computador, cabe ao professor resgatar as brincadeiras, as cantigas e as aplicar no dia a dia. Quando se aproxima ao Dia do Folclore, os alunos são apresentados às lendas e aos seus personagens. (M.A.)
COM UMA PERNA SÓ
Dois meses após o Dia do Folclore, em agosto, ainda são realizadas muitas atividades em torno de outro personagem folclórico: o Saci-pererê. Próximo ao seu dia, 31 de outubro, ele “chega” à escola, faz muita bagunça na sala de aula. “Joga” uma cadeira no chão, “esquece” seu pito e revira tudo. No dia seguinte, algum objeto “some”, enquanto as crianças encontram novos indícios de sua presença, o seu gorro, por exemplo. Elas passam a vivenciar uma experiência e acabam envolvidas na questão pedagógica.
“É proposta a realização de ‘caça’ ao Saci, já que ele é o responsável por toda a bagunça”, diz Paula Bacchi, orientadora pedagógica do Colégio Santa Maria, de São Paulo. Com o objetivo de capturá-lo, as crianças desenvolvem uma armadilha com barbantes e garrafas PET e a levam para o bosque do Colégio. No dia seguinte, quando retornam encontram um sacizinho dentro de cada garrafa.
O material é trazido para a sala de aula, onde são tratadas outras questões que envolvem o personagem. “Afinal, ele não é apenas um garoto peralta que gosta de assustar, mas também um protetor da natureza”, afirma a orientadora. No restante do ano, tudo o que dá errado é associado ao Saci. “É importante a experimentação na educação infantil, por isso a envolvemos na fantasia, sempre lembrando que tudo é uma brincadeira. Embora alguns achem que é verdade”, finaliza.
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