Ilustre passageiro
Adoniran Barbosa (foto) foi antes de tudo um cidadão, bem alinhado por sinal, que enxergou e cantou uma São Paulo que, infelizmente, não existe mais.

Adoniran Barbosa
Os paulistanos mais antigos, acostumados a andar pelo centro de São Paulo no final dos anos 80, mais de uma vez se depararam com um senhor de bigodinho galante, terno, colete, gravata borboleta, sapatos bicolores e um charmoso chapéu. Se dissesse “muito prazer, João Rubinato”, seu nome de batismo, não faria efeito nenhum, mas bastava dizer “Adoniran Barbosa”, para que todos identificassem ali o maior sambista paulistano, que se vivo fosse, teria completado agora, no dia 6 de agosto, 100 anos de vida. Mais do que um compositor de sucesso, tardio por sinal, esse Adoniran “janota” parecia a incorporação de um “personagem” que desde sempre existiu.
Há controvérsias sobre a data de 6 de agosto de 1910, pois os indícios são de que teria nascido dois anos mais tarde, em 6 de julho de 1912. É provável que tenha “envelhecido” dois anos para atingir a idade mínima e assim trabalhar legalmente – ainda como João Rubimnato – para ajudar no orçamento familiar. “Não nasci, porque pobre não nasce, aparece”, dizia. Também ficou satisfeito com sua nova data de nascimento: “Isso foi muito bom, porque sou corintiano e o Corinthians foi criado em 1910.”

Livro: Adoniran Barbosa dá licença de contar...
Sétimo filho de um casal de imigrantes italianos, oriundo da cidade de Treviso, Fernando (em alguns documentos Francesco) e Emma Rubinato, coube à irmã, Helena, a árdua tarefa de alfabetizá- lo, pois ele não apreciava o ambiente escolar, a ponto de ser expulso da escola. Era considerado o típico mau aluno, que matava aulas e desperdiçava material escolar. “Não gostava de estudar. Um dia, comi os lápis que tinha – minha família não tinha dinheiro pra comprar lápis assim, a três por dois – e resolvi não aparecer mais no grupo escolar. Só que não adiantava nada tentar esconder. Quando a minha irmã descobriu, levei uma surra que não foi fácil.”
Radicada em Valinhos, então distrito de Campinas (SP), a família muda-se várias vezes de cidade, em razão de dificuldades financeiras. O primeiro emprego de Adoniran, aos 14 anos, é no Hotel Central de Valinhos, como entregador de marmitas. O próximo destino é Jundiaí (SP), depois Santo André (SP) e, finalmente, a capital paulista. Da infância difícil, costumava dizer: “Como não tinha queda pra intelectual, meus pais resolveram me pôr no batente.” O trabalho de entregador durou até descobrirem que ele surrupiava os pastéis e as empadinhas pelo caminho.
Varredura
“Mas antes de fazer isso, eu somava e diminuía pra ver se não ia faltar nas casas, pra alguma criança. Sobretudo. Aí, não afanava, não, tinha pena, ficava com dó.” Confessa que o ato não era malandragem, mas necessidade. “Não era malandro, era espertinho. Tinha fome. Sabe o que é malandragem? Malandragem não é fome.” O amor pelos pastéis o acompanhou até a idade adulta, por isso ganhou o apelido de “Rei da Estufa”. Embora o samba seja considerado um ritmo malandro por excelência, o artista nunca quis se associar à malandragem mais barra pesada que muitos brasileiros conheciam dos sambas de Noel, Wilson Batista ou Moreira da Silva.
A próxima função do jovem Adoniran, em Jundiaí, é a de varredor na Tecelagem Japir. Pegava na vassoura às 16 horas e só largava às 23 horas. Embolsava 400 reis por hora, uma “fortuna” para um rapaz solteiro. Em 1924, a família muda-se para Santo André, onde ele arruma trabalho como tecelão, pintor de paredes, encanador, serralheiro, garçom, mascate. A vocação de cantor e compositor revela-se juntamente com sua profissão mais duradoura, a de vendedor ambulante. “Andava o dia inteiro. Ajudava o serviço cantar um pouco. Sem querer, fui fazendo uns sambas, enquanto andava. E peguei esse jeito de compor andando, até hoje…”

Adoniran e Rolando Bordin, em novela da TV Tupi, de 1975
A família Rubinato chega a São Paulo em plena Revolução Constitucionalista de 1932. Adoniran vai trabalhar como metalúrgico no Liceu de Artes e Ofícios, porém, fica pouco tempo, pois seus pulmões não aguentam o esmerilhamento do ferro fundido. Assim, volta a ser vendedor em loja de ferragens e, depois, entregador de uma loja de tecidos da Rua 25 de Março. No caminho de sua casa para o trabalho, no Largo da Misericórdia, estava o estúdio da Rádio Cruzeiro do Sul, que tinha um programa chamado “Os Calouros da Rádio”, dedicado a revelar novos talentos. O resto da história já dá para imaginar.
“Dona Boa”
Até “emplacar” como cantor, ainda como João Rubinato, ele ouve vários gongos. Afinal, em 1933, consegue sucesso com o samba “Filosofia”, de Noel Rosa. Contratado, ganha um programa semanal de 15 minutos, para cantar acompanhado de um regional. É nessa época que ele passa a usar o nome artístico de Adoniran Barbosa. “Se eu soubesse que ia ser radioator, teleator e artista de cinema, não mudava meu nome, ficava João Rubinato mesmo. Mas cantar samba com nome italiano… não dá!”
Para o carnaval de 1934, em parceria com J. Aimberê, Adoniran compõe a marchinha “Dona Boa”, que ganha o primeiro lugar no concurso carnavalesco da prefeitura paulistana. Pouco depois, casa-se com Olga, com quem tem a única filha, Maria Helena. O casamento dura menos de um ano. Casa-se pela segunda vez, só em 1949, com Mathilde de Lutiis, sua companheira por mais de 30 anos. Em 1941, contratado pela Rádio Record para fazer humor e radioteatro, deixa a carreira de cantor em segundo plano. Nesse período, cria 16 personagens para o programa, entre eles, “Charutinho”, “Zé Conversa” e “Jean Rubinet”. Tempos depois, brilha como astro na TV e ganha um papel no filme “O Cangaceiro”, de Lima Barreto, melhor filme no Festival de Cannes em 1953.
Os múltiplos personagens criados por Adoniran o acompanham durante muito tempo. A primeira gravação de “Samba do Arnesto”, por exemplo, de 1951, destaca “Adoniran Barbosa” (Zé Conversa). Só a partir dos anos 70, no entanto, ele passa a ser reconhecido como grande sambista. Antes disso, compôs sucessos gravados pelo grupo Demônios da Garoa, como “Malvina”, “Joga a Chave”, “Samba do Arnesto”, “Trem das Onze”, “Saudosa Maloca”, entre outras canções. Há quem diga que o encontro de Adoniran Barbosa com os Demônios da Garoa forma uma das mais completas uniões compositor-intérprete.
Com olhar diferenciado que faltava (e falta) a muitos cientistas sociais, Adoniran foi um autêntico “repórter” das ruas de São Paulo. Transformava em canções os dramas do cotidiano paulistano e também suas alegrias e amarguras. Fosse um bom enredo, já virava um samba sob a ótica desse grande contador de histórias. No dia 23 de novembro de 1982, o artista embarcou no “Trem das Onze” para sua última viagem. Com certeza, o dono do bigode galante e da inconfundível voz rouca desceu em uma estação, onde lhe “dão licença de contar” e cantar a hora em que lhe der na telha!
SERVIÇO
Livros
Adoniran: dá licença de contar…, Ayrton Mugnaini Jr. – Editora 34
Adoniran: uma biografia, Celso de Campos Jr., Editora Globo
*Ilustrações do livro Adoniran: dá licença de contar
Matérias desta Área
Matérias Relacionadas
Tags
Índice da Edição 233clique
- Bloco dos descolados
- Não custa (quase) nada
- Ilustre passageiro
- Quem não pode com mandinga…
- A arte de cair em si
- Lembra dos meus cabelos?
- Operação cartão de crédito
- É tudo nosso!
- Inédito de Freyre
- Português moderno
- O segredo do sucesso
- O outro lado
- Luanda de madrugada
