A arte de cair em si

Muita gente tem medo de assombrações, mas nem percebe que os fantasmas de pessoas vivas nos assustam muito mais

A arte de cair em si

Por ser vista como algo mágico e sobrenatural, até mesmo assustador, deixamos muitas vezes de usufruir dos benefícios inegáveis da prática da regressão. Os filmes, inclusive, banalizam sua utilidade ou a adornam com muito sensacionalismo. A verdade é que Sigmund Freud, o padrinho da psicologia, fez inúmeras descobertas com a regressão hipnótica de seus pacientes. A cena do relógio balançando de um lado para o outro ainda é viva na memória e representa o “transe mágico” e poderoso.

Nascemos e crescemos; o tempo passa para a maioria de nós de uma forma muito rápida e cíclica. Fatos importantes ocorrem, conhecemos pessoas, amamos, vibramos e perdemos. Somos influenciados pela educação e o ambiente em que vivemos. Mas, apesar de tudo isso, nossas características individuais definem a maneira que vivenciamos nossas experiências. Dores e amores, pequenos gestos e grandes acontecimentos ficam marcados em nossa história de forma imperceptível, porém, definitiva para o nosso desenvolvimento.

Regressão é apenas uma recordação do que já vivemos, e ao mesmo tempo, o que nos dá a oportunidade de atribuir novos significados a determinadas experiências, ampliando a maneira de entendimento dos fatos ocorridos em nosso passado. Desse modo, podemos descobrir por que reagimos de determinada forma perante situações diversas e muitas vezes adotamos comportamentos indesejáveis. Nossa cabeça nos diz que não faz sentido sentir aquela emoção. Começamos uma briga entre cabeça e coração e o resultado disso são as insuportáveis dores no pescoço, enxaqueca e insatisfação, para citar apenas alguns dos problemas psicossomáticos.

Com a recordação de eventos ocorridos em nossas vidas, reassumimos o controle e o equilíbrio entre a razão e a emoção. Podemos descobrir, por exemplo, que na pré-escola nos assustávamos com a professora que usava vermelho. Hoje, já adultos, toda vez que uma pessoa usa vermelho ativamos nossa memória afetiva e reagimos assustados sem nos darmos conta de que esse significado nada tem a ver com o presente. Podemos sentir também sensações de incapacidade, baixa estima, angústia, entre outras sensações advindas de fantasmas passados que já poderiam ter sido enterrados. E a chave para a nossa libertação está bem próxima, dentro de nosso psiquismo, facilmente acessível através das técnicas de regressão.

Escolhas

A regressão é feita de forma consciente, pois de nada adianta o psicólogo obter informações emocionais do paciente sem a sua participação. É importante ressaltar que só viveremos fatos e situações pelas quais já passamos e sobrevivemos. Nada, absolutamente nada, será novo para nosso psiquismo; só virá à tona de maneira a tomarmos consciência. Por isso, não temos nada a temer, pois se éramos mais jovens e conseguimos suportar seja o que for que nos aprisiona, agora mais velhos temos mais condições de lidar com quaisquer acontecimentos.

Com a regressão, curam-se feridas antigas e traumas que nos limitam a ação no tempo presente. Poderemos rever crenças formadas quando ainda éramos muito pequenos e limitados em nossos recursos. Uma decisão tomada na fase da infância não deve ser seguida por toda a vida sem ser revista, reeditada. Fizemos as escolhas que podíamos, com os recursos que tínhamos disponíveis naquele determinado momento. Porém, o tempo nos traz não apenas rugas, mas experiências e sabedorias. Durante o processo de regressão, podemos levar segurança ou qualquer outro recurso que não tínhamos disponíveis na época, e assim reformular nossos valores e fazer novas escolhas.

Hipnose, terapia da linha do tempo, terapia de imagem, métodos de meditação e técnicas de respiração são alguns dos métodos utilizados para fazermos a regressão. Apesar de ser uma técnica absolutamente segura, para que tenha eficácia, é necessário que haja um objetivo definido. É extremamente importante que seja feita por um psicólogo treinado para que os ganhos no processo sejam realmente significativos, e não sirvam apenas à curiosidade infantil. Durante a aplicação da técnica, o paciente fica completamente no controle da situação e, caso julge necessário, pode a qualquer momento interromper o processo.

A regressão não é usada apenas para se recordar de fatos doloridos. Ela também tem muita valia para se reviver momentos de prazer e realização e transportá-los como recursos para outras situações em que necessitamos de confiança (progressão). Assim, podemos lidar com situações de estresse, ansiedade, fobias, síndrome do pânico, depressão, tristeza, angústia, e inúmeros quadros clínicos.

Entre os mitos e crenças que acompanham a evolução dessa técnica, é importante destacar que não há riscos de você ficar preso em algum lugar de suas recordações. O não voltar, não pode acontecer porque simplesmente você não vai a lugar algum; as recordações é que chegam a você e só você escolhe até onde quer ir. Não temos inimigos internos; sempre escolhemos a melhor opção entre as que dispomos para sermos felizes. Com a regressão, ampliaremos as opções de forma consciente e poderemos fazer melhores escolhas, pois o menu estará mais completo. Como canta Caetano: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.”